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BARREIRA DE SOMBRA

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

BARREIRA DE SOMBRA

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

VER BEM VISTAS AS COISAS JÁ ANTES VISTAS...

05.03.19 | António Lúcio / Barreira de Sombra

 

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Quando tomei a decisão de me candidatar ao concurso para novos delegados técnicos tauromáquicos – directores de corrida, na passada temporada, sabia de antemão que o percurso não seria isento de obstáculos e que, porventura, os mais ligados á festa brava, com percursos mais ou menos conhecidos não teriam a tarefa facilitada.

 

O que se pedia aos candidatos? Que prestassem uma prova escrita sobre a legislação do espectáculo tauromáquico, uma entrevista, e duas provas práticas em espectáculo tauromáquico. António Galveias, um dos candidatos que, como eu, não ficou colocado, já escreveu sobre o concurso e suas eventuais falhas capazes de conduzir á sua impugnação e, por isso, não adianta continuar a bater em muitos desses pontos.

 

A minha experiência de mais de 30 anos ligado directa e indirectamente ao espectáculo tauromáquico, primeiro como simples aficionado, depois como praticante de uma modalidade – forcado -, como crítico tauromáquico desde 1987 na Rádio Europa, com passagem depois pelo jornal Correio da Manhã, pela RTP, pelo jornal Olé, percurso em que posso afirmar sem problemas ter ganho o respeito dos profissionais do toureio, ganadeiros e empresários e, acima de tudo, do público que me escutava e seguia nas rádios e agora na net, de ter colaborado com grandes empresários como José Agostinho dos Santos, Américo Pena, Manuel Jacinto, Manuel dos Santos e Rafael Vilhais entre outros, permitiu-me conhecer por dentro e por fora os meandros deste fenómeno cultural.

 

Saber como se contratam toureiros e ganadarias, como se faz a escolha dos cartazes nas gráficas, a promoção dos espectáculos e conhecer melhor os agentes taurinos, deu-me uma bagagem, um assimilar de conhecimentos de que poucos se podem orgulhar. Mas mais ainda o facto de já ter passado por quase 4 décadas de toureio, de ter conhecido de perto figuras indiscutíveis da nossa festa brava, toureiros, forcados, ganadeiros, empresários, críticos e fotógrafos, dos conhecimentos adquiridos e transmitidos ao longo destes quase 32 anos na crítica taurina podiam servir para algo, pensava eu, no momento em que fosse avaliado o meu curriculum e a minha entrevista e ambos fossem valor acrescentado. Serviu exactamente ao contrário, concluo agora.

 

Quando estamos por dentro do mundo empresarial da festa brava, sabemos como são geridas as contratações, os pagamentos, a promoção dos espectáculos e todas as situações que vão surgindo e têm de ser resolvidas ao momento: das acreditações da imprensa, aos convites que a empresa atribui, os imponderáveis dos sorteios e de algum toiro que se lesiona, das equipas de pessoal de serviço aos médicos, confirmar que tudo está bem para que o espectáculo possa começar e ser de êxito, este também uma incógnita. Nem sempre ligamos a alguns pormenores que se podem transformar em pormaiores ou problemas.

 

Nos dois espectáculos em que prestei provas práticas – um logro porque não pude tomar uma única decisão, sequer dirigir uma lide, sendo sujeito de manhã á noite a rajadas de perguntas, algumas das quais implicavam a consulta do regulamento e que nos estava vedado, sem saber como seriam valorizadas pois nunca vi elemento algum do júri tomar nota dos erros e dos acertos dessas respostas – tive de começar a ver e a avaliar as coisas sobre um prisma completamente diferente. Não deixando nunca de ser igual a mim próprio, com o equilíbrio, sensibilidade e bom senso que sempre caracterizaram as minhas atitudes e postura, comecei a perceber, no início da corrida de Lisboa, que a postura do aficionado teria de dar lugar á do “aplicador” do regulamento, vocacionado para os autos de notícia com vista à aplicação de coimas por incumprimentos diversos…

 

Saber quem são as pessoas que podem estar no reconhecimento veterinário das reses e sua pesagem (falha a balança, auto de notícia para processo de contra-ordenação e aplicação de coima); quem pode estar no sorteio (está alguém a mais, convida-se a sair… auto de notícia para processo de contra-ordenação e aplicação de coima); quem pode estar na trincheira (pessoal de serviço, médicos, avisadores, representantes da comunicação social, representantes dos toureiros, promotor do espectáculo, etc. (não tem carteira profissional? Movimenta-se? Tem uma senha que não corresponde ao seu papel? - auto de notícia para processo de contra-ordenação e aplicação de coima) e assim sucessivamente. Ou seja, uma atitude puramente legalista e de carácter punitivo, que não se enquadra num pensamento e numa atitude onde o consenso e o respeito pela figura do director de corrida e pela tradição tem de ser primordial.

 

Noutra situação, a procura da falha para punir. O vendedor que se levantou e movimentou durante a lide, os toureiros e seus representantes que se debruçam na trincheira, o fotógrafo que saiu do burladero para conseguir o melhor “boneco” do momento, são situações para punir em vez de ter um actuação pedagógica com a presença do avisador na trincheira a cumprir e fazer cumprir essas determinações. E os candidatos a directores de corrida foram, muitas vezes, e falo por mim, confrontados com estas situações. Mas outros, se calhar, não o foram e assisti pelo menos a mais 3 situações em que, nas avaliações em praça isso não aconteceu: Lisboa, Caldas da Rainha e Elvas, nestas duas últimas com os candidatos bem longe dos elementos do júri… Critérios e pouca transparência pois a acta de avaliação final deveria ter sido do conhecimento de todos os candidatos avaliados.

 

Não reclamei das minhas notas nem impugnei o concurso. Vi de outra forma as coisas que já há muito vinha vendo. As sensações que vivi nas duas corridas, essa experiência, os sentimentos e a certeza de ter sido igual a mim próprio deixaram-me feliz porque o que vivi nesses dois espectáculos já ninguém em vai tirar. Estive na corrida em que tourearam em Lisboa duas grandes figuras do mundo taurino: Morante de La Puebla e José Maria Manzanares; em Vila Franca, com uma enorme actuação de Francisco Palha frente ao mais bravo toiro que vi lidar em 2018, de São Torcato… Quantos dos novos directores de corrida terão esse privilégio?