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BARREIRA DE SOMBRA

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

BARREIRA DE SOMBRA

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

Barreira de Sombra no www.FeelFm.pt - 34.ª - emissão 19/Novembro/2014

19.11.14 | António Lúcio / Barreira de Sombra

Boa noite, para os que nos ouvem em directo, boa tarde, para os que nos ouvem em diferido. Sejam todos bem-vindos, incluindo os que, naturalmente no barreiradesombra.blogspot.sapo.pt, acompanham este espaço de opinião.

Um espaço que semanalmente aqui, na www.FeelFm.pt, podem seguir.

          E, seguindo o tal fatal e incontornável destino, para quem gosta, este foi o tempo da Feira da Golegã. O dia de Todos os Santos, o dia um de Novembro, marcava em tempos passados, o fim 'oficial' da temporada tauromáquica lusa. A Golegã, com a sua Feira do Cavalo, era, mesmo para muitos aficionados do Norte, o lavar dos cestos da vindima taurina. Quem ainda queria sentir um pouco do aroma dos toiros e dos cavalos, este era o tempo que restava para o fazer antes do necessário e imperioso interregno. E ir até a Golegã, era fazer um visita com uma especial vantagem. Comia umas saborosas castanhas, e apreciava, ou como agora se diz, degustava, a água-pé do ano.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, como diz o poeta. Parece que nem a Feira da Golegã é o rito final 'oficial' da temporada, nem a água-pé merece a especial preferência dos frequentadores. E a castanha, com o preço a que é agora por meia-dúzia cobrado, passou de 'iguaria de pobre', a coisa que rico faz contas antes de comer.

Não sou dos que gostam e alimentam o saudosismo. Respeito a tradição, os costumes e a cultura, sem grandes concelebrações tratadistas e com muito gosto. Todavia, como a História tende a repetir-se, perante o frenesim social 'fracturante', um modo que alguns encontraram de poderem fazer valer as suas perturbações sociais, sob a capa de 'direito à diferença', trocando o campo médico pela arena política, o consultório do psicólogo pela praça pública, é licito que me assiste o direito de clamar por contenção e ser bota-de-elástico. Não gosto do abuso, assim como não concebo que se tome o ter respeito, por ter medo ou por cobardia. Assim como não aceito que a Liberdade, possa ser usada como libertinagem, vem como o Direito à diferença, possa ser confundido com o 'direito' a consentimento de exibições muito pouco sociais, para não dizer, aberrações doentias, provocações.

O mundo dos toiros, que eu defenda, não pode, nem deve ser a 'aldeia gaulesa' onde uns tantos ultramontanos portugueses, pensam que reside o alter-ego pátrio, repositório da Tradição e Cultura. Não defendo, e não é. Não é, e nem deve ser. A Cultura é muito mais que tudo o que envolve uma corrida de toiros. A Tradição vai muito para além do que representam os que vivem no, e dos toiros. Não aceitando que a Festa dos Toiros seja altar onde se celebra e propaga a Tradição e Cultura, é todavia, o cadinho onde ainda permanece viva a chama de Valores que nos distingue como Povo, heróico, valente e imortal.

Mas, questionarão os ouvintes e leitores, o que é que a Tradição e a Cultura têm a ver com o modo como agora se organiza e vive a Feira do Cavalo na Golegã? E o que isso tem a ver com as constantes perturbações que certa classe política e social trás para a praça pública?

Tem pouco, tem muito, ou pode não ter nada. Depende do ponto de vista. No meu, e talvez como reflexão, e também por principio, o modo como agora se 'vive', a Feira do cavalo, ou se 'vive', na Feira do Cavalo, na Golegã, tudo ligado, por tudo isso, onde a alteração tradicional do fim 'oficial' da temporada também cabe, oferecem-se-me, como sinais pouco promissores num percurso futuro pouco recomendável.

Esta foi uma temporada, com um calendário tauromáquico de espectáculos, que viveu e conviveu com uma nova legislação reguladora, impensadamente aplicada ao meio de um percurso. Foi uma temporada de mudanças em curso. Boas, más e outras desnecessárias. Uma temporada que por via destas novas regras, que parece ninguém no meio assume como suas, ou com o seu assentimento, acabou sendo uma temporada que decorreu sem grandes perturbações. Foi uma temporada atípica?   Penso que sim. Atípica, mas que pela sua tipicidade, se os que gostam da Festa, os que vivem da e na, Festa, não quiserem ou souberem criar condições urgentes de troca de ideias e procura de pontes, a matriz Tradicional, o legado Cultural, o Futuro, acaba já ali.

É que um povo, que não respeita os seus usos e costumes, não enaltece os seus ritos tradicionais, e tem da Cultura a mesma condescendência farisaica e obscena com que trata por igual um mamarracho numa rotunda rodoviária e um quadro de Vieira da Silva, não é digno de ser respeitado como povo, tratado como gente.

A História tem por principio tendência a repetir-se. E as civilizações a desaparecem.

Por hoje é tudo. Até para a semana.          

Até lá, do Norte, com um abraço - josé andrade