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BARREIRA DE SOMBRA

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

BARREIRA DE SOMBRA

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

SOBRAL DO MONT’AGRAÇO – AS SUAS BELEZAS NATURAIS – O SEU PROGRESSO (1)

20.06.12 | António Lúcio / Barreira de Sombra

 

Quem percorrer o país de lés a lés, este jardim encantado de belezas congénitas que é o nosso querido Portugal, por certo, que em todos os pontos, encontrará motivos fortes em que o seu espírito enlevado na contemplação do belo, lhe falará à alma num arroubo de sensação maravilhosa, que o deixará extáctico. Não será de somenos importância o poder  de arrebatamento que os rencantos desviados da civilização lhe possam despertar e que o acaso lhe proporcione. Admirando a paisagem deslumbrante que aqui enleia a vista, acolá os quadros paisagísticos de um pictórico natural que fascinam, em conjunto com um arvoredo umbroso que na Primavera frondea exuberante, inebriará os órgãos sensitivos da sua maneira de ser de artista. O rescender perfumado da floricultura campestre a todos obriga a tornar cativos das surpremas galanterias que a natureza encerra, pródiga em fantasiar, com requintes de arte pura, os seus recessos mais escaninhos.

 

Com todos estes atractivos aliciantes, numa amálgama de pitorescas cores que bem dispõem, enquadrado num sistema de índoles e boas qualidades que a simpatia de um povo patenteia e sobrepticiamente sabe comunicar sem oferta generosa a todo o seu visitante, está a ridente e sobranceira vila de Sobral do Monte Agraço, sempre preparado para receber o forasteiro que a admira embevecido.

 

Assentada numa colina de pendor suave, é frequentemente acometida pelas neblinas que descem do forte do Alqueidão, envolvendo-a completamente durante noites inteiras de um manto alvacento para, ao romper da aurora, paracer aureolada de um rubor ouro-pálido, marchetando de tonalidades bizarras as casas e os burgos das cercanias da vila.

 

Foi ao parapeito de uma janela que deitava para o cercado de uns terrenos contíguos e àquela hora em que chegavam os primeiros acordes de um rouxinol que acabara de se desalcandorar de um sobreiro distante e o Sol principiava por debruar com rendilhados de oiro as velas brancas dos moinhos de vento, erectos no alto de um cómoro em frente, que o poeta sonhador e embalado pelas auras refrescantes de uma manhã outonal, coberta de nimbos, se pôs em recolhida recitação:

 

I

Sobre o topo de um colina ingente,

E ao sibilio do Zéfiro madraço,

Povoou-se um lugar. E muita gente

O apelidou: -­Sobral do Monte Agraço.

 

Pulcra terra de canções e cantigas,

Que ao meigo luar de um sereno Agosto,

Lhe enfeitiçara as lindas raparigas,

Estranha fada de esquisito gosto.

 

Nessa noite encantada e de espavento

Sobral adormecera. E de momento,

Após um espasmódico sol-pôr,

 

Sobre a manhã em unísono lamento,

Acordara. Eram moinhos de vento,

Festejando o neófito em redor.

 

II

A noite acaba de morrer. O Sol,

Surdindo em apoteose doirada,

Rompe a custo o matinal arrebol!...

Brilha às costas do cavador a enxada.

 

Na ladeira íngreme, serpeia a estrada,

E à beira desta, a voz do rouxinol,

Solta brandos trinos à desgarrada,

Geme a brisa nas franças do serpol.

 

E no cimo da virente colina

Ledo varandim, donde se domina,

Em dias claros, o horizonte, o espaço,

 

Paira, agora, a neblina matinal,

Que iriza em reverberos de cristal

A vila de Sobral do Monte Agraço

 

*

 

Mas não e só a sede co concelho que possui destes encantos naturais; os arredores e os próprios lugares são de uma riqueza panorâmica deveras surpreendente.

Quem ainda não foi ao forte do Alqueidão, em cujo sopé se enraíza o povoado do mesmo nome, para disfrutar a paisagem magestosa que se estende a perder de vista para o lado das lezírias do rio Tejo, que, qual serpe preguiçosa se vê, na sua foz, morder as espumas do mar ?!...

Qual o paisagista desatento que não tenha subido ao cume da serra do Socorro para se extasiar perante a policromia berrante dos painéis mosqueados de beleza rara, dignos do pincel mágico de um grande pintor?!...

De lá, com uma simples luneta de alcance, fácil é descortinar o mundo do sonho e da visão musical das Valkirias – as ilhas Berlengas – que convidam a uma viagem de recreio, não em «famosa cavalgada», mas instalado em bom e confortável automóvel, até Peniche, até ao Cabo Carvoeiro e, depois, de barco, até àquelas ilhas tão nossas, tão portuguesas...

 

*

A vila do Sobral, não oferece, só, ao visitante, as suas belezas campesinas, o asseio das suas casas e das ruas.

Os seus habitantes, entregues à faina laboriosa das suas ocupações quotidianas, dão um exemplo vivo de gente trabalhadora e ordeira, sabendo cultivar com cuidadoso esmero o seu torrão natal que se desentranha, já pela amenidade do clima,  como pela fertilidade do terreno,em produtos, que vão desde as frutas saborosíssimas ao azeite, com predominio acentuado para o cultivo da vinha e produção cerealífera.

É isto o que se observa no que diz respeito ao desenvolvimento agrícola do concelho, mas há também que encará-lo sob o aspecto  de melhoramentos locais e no capítulo da ordem, disciplina e progresso desta região, à frente da qual se encontra o sr. Zeferino da Silva, um Presidente da Câmara e um homem inteligente e trabalhador, que em rasgos de iniciativa tem contribuído grandemente para a causa do concelho, não se havendo acertado melhor na escolha, por reunir todas as qualidades necessárias que  fazem parte integrante de toda e qualquer  entidade em destaque nestes meios e que constitue, afinal, o apanágio adequado a todo o bom dirigente.É de admirar o seu esforço em obras de carácter filantrópico, pelo seu elevado alcance social, ao ponto de não tergiversar, apesar de todos os contrtempos, arcando com as responsabilidades de uma construção moderníssima – a edificação do Hospital, que deverá, talvez, ainda ser inaugurado vpor todo o ano decorrente. Mercê, também,  da sua insistente tenacidade e pertinaz energia, há a considerar, igualmente, o particular interesse que lhe têm merecido as obras já realizadas e a levar a cabo nos diversos lugares da área da sua acção, pletórica de dinamismo e de dedicação pelos interesses concelhios.

São disso exemplo frisante os melhoramentos não só na sede, como nos pitorescos povoados da Chã, Martim Afonso, Zibreira da Fé, Pero Negro, Molhados, Sapataria, Santo Quintino, Bespeira, etc., que falam bem alto e atestam insofismavelmente a sua acção realizadora, a que soube imprimir, também, um real e expressivo significado de política social.

E de ano para ano, a outros lugares, casais ou pequenos aglomerados populacionais, dispersosadentro do perímetro concelhio, fará a Câmara da sua presidência chegar os benefícios considerados inadiáveis e mais instantes, para que os seus munícipes se habituem, como o fazem já, a confiar esperançadamente que, naquilo que o seu Presidente se meter e prometer, será integralmente satisfeito e cumprido, porque atrás dos empreendimentos já efectivados com a sua directa interferência, outros se lhe seguirão e a que costuma apor sempre o cunho do seu grande zêlo e interesse abnegado.

Não descura, assim, o Município sobralense os interesses de todas as freguesias e por elas e pela sua prosperidade, higiene e comodidade das suas populações continuará, certamente, trabalhando com afinco.

Possui o Sobral óptimos estabelecimentos, um bom café – o Central – boas pensões e casas de pasto que muito bem servem e algumas colectividades, de entre as quais é justo destacar a Associação dos Bombeiros Voluntários, que possui uma corporação modelar, disciplinada e activa, com excelente material, da qual é digno comandante o sr. João Lopes da Silva Pais, que muitos serviços tem prestado não só ao Sobral como a muitas terras das proximidades e até de fora do concelho.

O Grémio da Lavoura do Sobral também tem vindo prestando os melhores serviços aos seus associados. Trata-se de um organismo corporativo da maior importância nesta região.

 

*

Todo este encantador rincão da área sobralense oferece aos seus visitantes um sem número de contrastes sugestivos e um poder estranho e misterioso nos impele à contemplação do que nesta terra há de belo e sublime, quer em obras de arte de larga projecção local e nacional, como o esplendoroso exemplar, em estilo manuelino, da histórica igreja de Santo Quintino, quer em belezas naturais, e, principalmente, porque os seus habitantes, de condição e natureza amáveis, proporcionam a toda a gente bom convívio e a sua tradicional hospitalidade.

As festas de Setembro , com os arraiais à moda do Minho, os ranchos folclóricos, as largadas de touros ao uso de Pamplona, enfim, a Festa Brava com todo o seu conjunto colorido, dão um impressionante aspecto de bulício e alegria a esta terra progressiva.

Não faltam, nas festas de Setembro, no Sobral do Monte Agraço, excelentes bandas de música que ali realizam sempre, no coreto da praça Dr. Eugénio Dias, nem bem organizadas corrridas de touros, nem animados arraiais.

São estas festas das melhores e mais bem organizadas da região, a que concorrem milhares de forasteiros.

Muito mais teríamos que dizer das belezas e do progresso porque tem vindo passando este formoso concelho, mas o espaço escasseia-nos – e o que deixamos hoje de escrever ficará para a próxima vez.

 

Manuel Cândido da Silva

 

(1) in Vida Ribatejana, número especial, Janeiro de 1951

Fotos: Joaquim Moniz