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BARREIRA DE SOMBRA

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

BARREIRA DE SOMBRA

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

DIVULGAÇÃO LITERÁRIA TAURINA - “A DESFORRA DO MAIORAL”, DE MARCELINO MESQUITA (1)

02.05.12 | António Lúcio / Barreira de Sombra

Em 1966, sob direcção de Júlio Martins, professor efectivo do Colégio Militar, foi editada uma selecção de contos de autores protugueses organizada de acordo com o programa de Português do 3º ano do Ensino Liceal. Dos muitos autores desta selecção, escolhemos o de Marcelino Mesquita (1856-1919), notável dramaturgo nascido no Cartaxo e formado em Medicina, conto em que se destaca a bravura do campino num episódio de apartação/recolha de toiros.

 

“O Chamiço era um descendente directo daquelas velhas raças  de toiros portugueses tão célebres nas Espanhas, pela bravura indómita pela nobreza épica do sangue.

Teria quatro anos. Era negro, todo negro, sem uma hesitação de cor, sem um laivo de mancha. Daqui lhe vinha o nome. Os cornos bem plantados, finos, iguais, de uma simetria perfeita, polidos, aguçados, de fraca divergência A cabeça era larga, de pelagem luzidia, fortemente frisada entre a corna; o focinho, esguio, de narinas vibráteis e amplas. Caía-lhe de sob o queixo inferior a ligar à linha média das mãos a barbela ondeada, em corcovas, como prega d emanto de veludo. O corpo era rijo, de uma anatomia dura e nítida; mãos e pés de uma finura modelar, delgados, direitos, como se fossem de mármore. De pé, olhando ao largo, corpo assente , cabeça erguida, imóvel, cre-se-ia feita de um só jacto e de uma só matéria – o bronze – tal era a firmeza esbelta do seu estar, a unidade harmónica da forma, a impecável correcção da linha de todo o corpo.

 

Ao luar, de noite, na lezíria silenciosa, isolado, o seu vulto tomava proporções estranhas. A negrura da pele emprestava-lhe o quer que fosse de romântico a lembrar o embuço em capa negra; a altivez da cabeça exprimia o desafio audaz, enquanto a ameaça dum ataque mortal caía das fouces córneas, provocadoras, terríveis como lâminas. Ao vê-lo invadia-nos o receio de um perigo iminente envolto num mistério.

 

Pelo Inverno os toiros dormem nas motas. Dão este nome, no Ribatejo, a grandes choupanas construídas no meio das chãs das lezírias, ou às grandes abegorias que ladeiam os pátios colmados das casas de campo, quando servem para abrigos dos bois. (...).

 

Ora... como os toiros pelo Inverno dormem nas motas, naquela tarde Felisberto, o maioral, gritou de cima do Guedelha, para os campinos sentados pelas grades e charruas: - Toca arriba, rapazes, são horas, vamos buscar o gado. Os homens levantaram-se , pachorrentos, espreguiçando os membros mal descansados, soltaram os cavalos dos troncos das oliveiras, meteram as pontas dos cigarros – apagados entre o polegar e o índice – atrás das orelhas ou na orla dos barretes, cavalgaram fincando-se nos pampilhos e meteram uns após outros pela lezíria, em direcção à manada.

 

(..) E na aaproximação crescente, a onda rumorosa, aumenta de volume, engrossa, adelgaça-se, amesquinha-se num vau, turge-se num cômoro, e chega, enfim, como um turbilhão, numa chocalhada infernal, entre gritos e pragas!

 

É a boiada! A porta da arribana abre-se de par em par. Dois campinos e o guia destacam-se da manada a galope, e estacando um de cada lado do portão, enquanto o guia entrra, estendem as varas paralelas, a amparar os cabrestos, a formar um funil por onde a onda se vaze.

 

A boiada vinha, pois, na carreira, pela estrada areosa das oliveiras, encasulada num pó cinzento; o guia tinha-se adiantado entre os campinos, entrara; o grosso da boiada afilara, em cone, na direcção da porta.

 

Sendo aquele o momento perigoso, os campinos traseiros carregaram sobre os cabrestos com os cavalos e varas, os dos lados apertaram a diminuir o espaço, ligando-se num círculo de corpos, a fechar espaço, castigando so toiros, em grande grita...

 

Mas, neste momento, um toiro vivíssimo, negro retinto – o Chamiço – num moviment brusco, leve como um palhaço, voltou-se nas pernas e, desprezando gritos e varas, partiu como uma flecha pelas lezírias fora.

 

Cabrestos e toiros entraram de roldão numa nuvem de pó, apertando-se os corpos, levantando as cornaduras a facilitar a entrada pelo portão da arribana.

 

Cavalos e cavaleiros resfolgavam pelo cansaço da corrida; os guadadores, de pé, limpavam o suor da testa à manga da camisa de riscado azul; e os campinos, fincando o coto dos pampilhos na terra, apoiavam-se-lhes, para se voltarem no albardão e seguirem com vista o cabano que corria ainda ao longe, a perder-se de vista transpondo ribeiros, saltando valas, numa orgia de liberdade como impelido por coisa má. (...)

 

Os cabrestos foram tirados da mota: os campinos endireitaram-se nos aparelhos, os sapatos bateram na madeira dos estribos a procurar o encaixe, carregaram nos barretes para a testa, os pampilhos ergueram-se, o guia meteu-se de cabeça baixa, humilde, entreos dois cavaleiros da frente que endireitaram para os Topóis. De longe, o Chamiço vigiava a expedição. Como num requinte de delicadeza omeçou a vir-lhes ao encontro, pausadamente, com ar de grãp senhor que antecipa gentilmente a chegada do hóspede. Ao chegar ao rancho ameaçou com uma cornada o guia que se lhe dirigia, e resoluto, em grande estardalhaço, internou-se no grupo loiro dos cabrestos.

 

- Cuidado! - avisou o Felisberto. – Vá devagar... nada de varas!

 

Ladearam, a passo, a tapada, a uns cem metros da mota, o guia meteu a trote. Os cavaleiros imitaram os cabrestos, e numa nuvem de pó, o bando, deslocando-se, entrou a meio da lezíria. A uns cinquenta metros os campinos apertaram os cabrestos incitando-os com gritos – oh! óió! Ió! – estendendo as varas a obrigá-los a marcharem cerrados, unidos, envolvendo o toiro e arrastando-o fatalmente, pelo impulso do movimento combinado, na mesma direcção.

 

Mas o Chamiço tinha o seu plano. Quase ao pé da mota, tentando parar, percebeu que era arrastado; forçou entrão o espaço entre dois cabrestos da frente  ajudando-se do impulso traseiro, obliquou de súbito a umlado onde havia clareira, atirou ao chão o cavalo e o campino que se lhe pôs na frente, e, em direcção oposta à primeira, partiu como uma bala!

 

 

Os cabrestos redemoinharam de súbito, apanhados pelas varas, tocados pelas choupas e, no  meio da algazarra, de gritos dos campinos, partiram em carreira atras do Chamiço. Um quarto de hora depois,  cortejo chegava de novo perto da arribana e pela terceira vez o Chamiço frustrava esforços e tácticas desfazendo-se de peias e abalando pelas terras!

O patrão João acabara de jantar e aendendo o charuto chegara à janela. Notou que havia desusado movimento pela mota do Frade e lançando mão do binóculo inteirou-se do que se passava.

 

Pela terceira vez que o Chamiço fazia a sua graciosa partida, ferveu-lhe o sangue de ribatejano, gritou para baixo, para o pátio, ao criado que lhe aparelhasse o lazão, foi buscar a vara d ejunco das grandes ocasiões, cavalgou e partiu a galope em direcçâo à mota.

 

O grupo dos campinos discutia já em grande perplexidade; o toiro solto faria das suas; era melhor ver se o laçavam entre os cabrestos, era melhor não laçarem...

 

À chegada do patrão calaram-se.

 

- Então que é isto, maioral? – perguntou o patrão João, em ares pimpões. – Gasta-se uma tarde para emalhar um toiro?

- Oh! senhor meu amo, - respondeu um pouco ofendido o Felisberto – saiba o senhor que se tem feito o que se pôde. O raio do animal é que está com ela ferrada e nem à mão de Deus Padre se acomoda!

 

Os guardadores apoiaram com as cabeças e o Zé da Arrifana, que tinha apnahdo o trambulhão, confirmava, apalpando a anca esquerda:

- Eu que o diga, que ainda não sinto este quadril!

- Ora adeus! - contestou o patrão João. – Vocês quanto mais tempo têm do ofício menos sabem; súcia de burros! E, dirigindo-se ao Felisberto; - Tu, maioral parece-me que já estás velho para estas coisas. Ora, vamos lá a ver... toma daí... andar!

 

O Felisberto fizera-se vermelho. Abriu a boca como quem vai a responder... depois, com em reflexão íntima, abanou a cabela encolhendo levemente os ombros num gesto de desdém, e, levantando o pampilho, desabafou metendo a aguilhoada no cabresto  mais próximo, enquanto com uma vo, onde se notava uma ligeira ironia, aprovou: - Pois vamos lá  a ver.

 

O patrão é que comandou a manobra.

 

As mesmas peripécias: aproximaram-se do toiro, envolveram-no, voltearam por caminhos diferentes para lhe tirar a crença, meteram a trote direitos à mota, o animal bem apanhado, cabrestos unidos, varas en riste. Estavam a cem passos... a cinquenta passos... a vinte... o toiro ia entar!

 

Mas de súbito o Chamiço começou a amiudar o passo, fincando-se nas mãos para resistir ao impulso da onda, ensarilhou à direita e à esquerda, rasgou o curvilhão do cabresto mais próximo, acuou num último esforço, voltou-se nas pernas e, livre do aperto que o arrastava, enquanto os cabrestos entravam levados pelo impulso, parou-se com a cabeça hirta, um olhar altivo de ironia, de desafio, de teima suprema!

 

Soltaram-se pragas.

 

Homens e cavalos gotejantes de suor, estropiados, vencidos pelo cansaço, consultavam-se com o olhar, quebrados pelo desânimo!

O Chamiço quedara-se a dez passos da mota, provocador, o olhar luminoso e vivo, pronto a investir ou abalar, conforme lhe aprouvesse ao primeiro sinal de ataque.

 

- Os cabrestos! gritou o patrão num ímpeto de desespero. – Vamos a acabar com  isto!

- Não é preciso – disse uma voz. E nisto, a meio da porta daarribana, Felisberto, o velho maioral, rubro de cólera, apareceu e, perfilando-se com o toiro, gritou:

- Eh! toiro! Eh! toiro!

E, como este o olhasse indeciso e insolente, o maioral arrancando da cabeça o gorro de lã azul e atirando-lho aos pés, gritou de novo, mais alto, nervoso, intimativamente: - Eh! toiro! Eh! toiro!

- Eh! Felisberto! Eh! Homem! – exclamaram de todos os lados.

- Sai daí, maioral! – intimou o patrão, imperativo, assustado perante tal audácia.

 

O velho não ouviu. O olhar fixo no toiro, os braços ao alto, as palmas das mãos para a frente, o corpo ligeiramente curvado para trás, fime, provocador, um ricto de raiva a vincar-lhe a boca, tudo nele desafiava – cabeça, braços, tronco, num impulso de cólera insustida, numa provocação ousada, num repto brutal, decisivo, de animal contra animal, de valentia contra valentia.

 

E, batendo a terra com o pé esquerdo, repetidas vezes, numa alucinação crescente, louca, de todo o seu ser, insultava: - Eh! toiro! Eh! cobarde!

O toiro deteve-se um instante fixando- Percebeu o desafio e, levantando a cabeça num movimento brusco de gatilho, rápido, firme, olhou-o, entre pasmado e indeciso, certo de o estatelar contra os madeiros da arribana, depois de o desconjuntar, com os paus, num derrote de aço!

 

Tudo isto se passara num relâmpago. De repente o toiro agitou num movimento brusco os pavilhões das orelhas, e a este sinal de ataque, os gestos, as vozes, as respirações cessaram de súbito, naquela ansiedade, muda, paralisante, que domina o espírito, num perigo iminente da vida, inevitável, fatal.

 

Feriu lume o olhar da fera e, num repente, viram-na arrancar contra o homem, baixar a cabeça e levantá-la com um corpo enovelado, entre os cornos e sobre o cachaço negro a mancha clara da cabeça do velho maioral, embarbelado, o focinho do bruto apertado entre as coxas, cingido, rígido como um tétano cravado como um tigre no dorso da presa que se defende e luta! Homem e toiro desapareceram como um raio pelo portão da mota!

 

Sacudidos do pasmo, os campinos saltaram dos cavalos, os criados correram entrando de roldão atrás do grupo, esperando encontrar, despedaçado contra um dos inúmeros troncos de pinheiros, o corpo do velho.. Na dúbia claridade da arribana mal distinguiram o grupo dos cabrestos que se enovelavam ruidosamente. Aí correram. O toiro, percorrendo, por felicidade, uma coxia livre, esbarrara com eles que, apertados entre a parede do fundo e a manjedoura, prestes a debnadar pelo susto, redemoinhavam perplexos e receosos aos gritos dos homens e almofadavam homem e toiro.

 

Lesto, o eguariço lançou a corda ao pescoço do Chamiço e volteou-a ano tronco mais próximo: os restantes caíram sobre o animal que barafustava frouxamente e libetaram o Felisberto, que se ergueu oscilante, num cambaleio de ébrio, que dominou rápido!

 

O esforço arrancara-lhe os botões da camisola, e o peito largo, ondeado pelo relevo dos peitorais, acobreado pelo sol das lezírias, luzia na claridade dúbia da arribana a lembrar o tronco de bronze polido de um gladiador! A cara rugosa iluminava-se com um riso íntimo: o olhar brilhava húmido como o de um rapaz, juventude e fogo contra que protestava a brancura da cabeleria revolta nos episódios da luta!

 

Compondo o vestuário ele sorria, enquanto os companheiros seguravam o firme, sujeitando oChamiço e comentando:

- Não te safas doutra, como esta!

- Anda, que te livraste de boa!

- Ora, adeus! – emendava ele, com ares de valentão, encolhendo desdenhosamente os ombros.

- Qual, ora adeus, - interrompeu o patrão João – isso na tua idade não se faz! É uma doidice!

O Felisberto olhou-o sorrindo e com um grande ar superior replicou:

- É para o patrão ver que ainda não estou tão velho como isso! – E, batendo com a mão esplamada no lombo do toiro que estremecia nervosamente: - Coitada da criança! Peguei muitas evzes o teu pai e o teu avô! Pois que pensavas?!

 

O Felisberto teve – desde essa tarde – a fama indiscutível do primeiro pegador do Ribatejo!”

 

 

(1) in, “Contos Escolhidos de Autores Portugueses”, Livraria Didáctica Editora, Lisboa, Outubro de 1966, 7ª edição

Ilustrações - postais de Júlio Goes (1971), colecção particular