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BARREIRA DE SOMBRA

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

BARREIRA DE SOMBRA

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

ALGUNS APONTAMENTOS SOBRE TOUREIO A PÉ

12.02.12 | António Lúcio / Barreira de Sombra

 

“Torear es el arte de burlar y dominar los toros”, escreve-se em Cuadernos del Aula Taurina (Sevilha, 2002), no que se refere às sortes do toureio e seus princípios gerais. Da simples luta entre o homem e o toiro bravio, selvagem, das taruomaquias ancestrais, em que capote e muleta serviam meramente para o toureiro se esquivar das arrancadas do toiro e com o intuito de o matar à espada, ao toureio do nosso tempo, da plasticidade e arte de elevado quilate, vai uma distância enorme.

 

O toureio, de perfeitamente anárquico, passou a ser composto de regras, plasmadas nas primeiras Tauromaquias de Pepe-Hillo (1796, Cádiz) e quarenta anos mais tarde nas de Francisco Montes “Paquiro”, ainda e sempre consideradas como a base do toureio moderno que haveria de ter em Juan Belmonte um verdadeiro revolucionário (faleceu em 1962 com 70 anos de idade). Foi ele que incrementou as regras do parar, templar, mandar e ligar.

 

Segundo José Maria Martínez Parras, nestes Cuadernos del Aula Taurina (pp.15 e segs.), estas quatro regras definem-se da seguinte forma:

 

Parar consiste em realizar as sortes de capote e muleta com os pés quietos, ou seja, parado. Esta forma de interpretar as sortesfoi intrduzida por Juan Belmonte como alternativa ao «toureio sobre as pernas», no qual o toureiro se movimenta sobre os pés durante a exeução das sortes. (...)

 

Templar é mover o capote ou a muleta à mesma velocidade a que se desloca o toiro, sem deixá-lo agarrar, enganchar, os enganos. Por isso, e contra o que muitos acreditam, templar não consiste somente em tourear devagar. Pode-se templar de duas formas distintas: fazendo com que o toureiro adecue a velocidade do engano à acometida do toiro ou impondo a este a velocidade à qual deve investir. Logicamente, o mais habitual e fácil é que o toureiro adecue o seu toureio à velocidade do toiro. Não obstante, por vezes, o toureiro obrigando o toiro com o capote ou a muleta a certas trajectórias, pode conseguir que este reduza a velocidade da sua acometida e a adecue à que imprime o toureiro ao engano. Neste caso é o toureiro quem impõe a velocidade ao toiro, o que é muito mais difícil e meritório de conseguir.

 

Mandar é conduzir a investida do toiro por onde queira o toureiro. É, por exemplo, levar o toiro para fora, alargando a viagem, aos toiros que queiram meter-se por dentro ou conduzir para dentro os que querem sair.

 

Ligar é encadear os lances de capa ou os passes de muleta sem interrupção.”

 

Com a evolução do toureio, outra das inovações foi o toureio em redondo que consiste em ligar lances de capote ou passes de muleta do mesmo tipo, fazendo o toiro girar em torno do toureiro e, depois, rematar esses lances ou passes. E para alem destas regras há aspectos técnicos a ter em conta e onde a personalidade e a concepção de toureio de cada artista busca mais bases para o alcançar o êxito.

 

Desde logo, e aspecto fundamental a ter em conta, a distância a que é citado o toiro, os tempos entre passes e séries, a altura a que se coloca a muleta, a colocação do toureiro e a eleição dos terrenos para que o matador execute o seu labor com o máximo brilhantismo possível.

 

PRIMEIRO TÉRCIO: TOUREIO DE CAPOTE E SORTE DE VARAS

 

Saído o toiro dos currais, há que o «correr», ou seja, fazê-lo acudir aos diferentes burladeros e ensiná-lo, de alguma forma, a investir, mostrando-lhe o capote de frente e saíndo para o burladero sem lhe dar lances. Aqui começam a definir-se algumas das condições do toiro para a lide e pode verificar-se se tem defeitos de visão ou de locomoção.

 

O toureio da capote tem na verónica o seu lance básico. Actualmente pode definir-se como o lance em  em que o toureiro se coloca de perfil ou «dando o peito» (meio de lado) em linha recta com o toiro e o cita com o capote seguro por ambas as mãos, aberto. Chegado o toiro à sua jursidição, movimenta o capote de forma compassada e remata com a mão esquerda a deslocar-se até ao costado direito e alargando/abrindo o braço direito ou vice-versa, fazendo com que o toiro saia em linha recta e fique colocado para o lance seguinte. Quanto mais baixa fique colocada a mão de saída, mais profundo será o lance.

 

Outros lances de capote:

  • Delantal
  • Meia-verónica
  • Navarra
  • Farol
  • Gaonera
  • Chicuelina
  • Tafallera
  • Largas
  • Revolera
  • Galleos
  • Recorte

 

No que se refere à sorte de varas, a evolução foi também enorme e tem como finalidade suavizar as acometidas do toiro, diminuir-lhe a força e corrigir-lhe defeitos que possa ter.

 

A forma mais ortodoxa de efectuar a sorte é picar o toiro de frente, ou seja, quando o picador se coloca ligeiramente quarteado ao sair da zona da trincheira para a primeira raia, com a cabeça do cavalo ligeiramente encurvada para a mão direita e colocando a puya no morrilho do toiro.

 

Outra das formas é picar a toiro atravessado, ou seja, com o cavalo atravessado na frente do toiro, oferecendo-lhe o costado direito do cavalo.

 

Existe ainda a «carioca», utilizada para toiros mansos e muito complicados e onde se cita o torio como na sorte de frente mas com o cavalo a girar pela dierira por forma a tapar a saída ao toiro, deixando-o «entalado» entre teia e cavalo e continuando assim a castigá-lo.

 

SEGUNDO TÉRCIO: BANDARILHAS

 

O tércio de bandarilhas tem como finalidade reavivar as investidas do toiro depois do castigo do tércio de varas e, também, aquilatar do seu comportamento (como invese sobre cada um dos pitóns), forma de o matador poder também sacar maior partido para a sua faena de muleta.

 

Costuma executar-se:

  • A quarteio
  • De frente
  • De poder a poder
  • Por dentro
  • De «sobaquillo»
  • A sesgo
  • A relance
  • A quiebro
  • De violino

 

 

TERCEIRO TÉRCIO: TOUREIO DE MULETA

 

É, nos dias de hoje, o momento fulcral da lide. Do toureio sobre as pernas/pés e com vista apenas à execução da sorte de matar, passámos para um momento altamente estilizado, de arte, de plasticidade e de um temple enorme na execução dos passes. A faena de muleta, de acordo com José Maria Martínez Parras, nestes Cuadernos del Aula Taurina (pp.49 e segs.), “compõe-se de três partes : uma primeira de início, em que se costuma tourear alternadamente  por um e outro lado ou pitón do toiro; a parte essencial da faena, composta de várias séries ou tandas de passes em redondo e, por último, a parte final onde se pratica um toureio em que predominam os adornos e passes em que não se obriga o toiro a empregar-se muito intensamente.”

 

Este toureio de muleta é de grande variedade no que concerne aos passes  e muitos deles, quiçá mais de adorno que de toureio fundamental, colhem o beneplácito dos espectadores. E se falamos de toureio fundamental, ele baseia-se nos passes ao natural e pelo lado direito, os denominados derechazos.

 

Ainda com base nestes Cuadernos del Aula Taurina, de Sevilla, podemos dividir o toureio de muleta da seguinte forma esquemática:

 

  • Passes de inicio de faena
    • O cartucho de «pescado»
    • O «litrazo»
    • O passe cambiado
    • O pêndulo
    • Os «doblones»

 

  • O toureio de muleta a duas mãos
    • Ajudado por alto
    • Ajudado por baixo
    • O «ki-ki-ri-ki»

 

  • O toureio fundamental
    • O passe natural – realiza-se com a mão esquerda, mão natural para segurar a muleta pois a mão direita é utilizada para empunhar a espada. O toureiro coloca-se com os pés juntos ou com a perna direita adiantada, tal como o lado direito do peito, citando o toiro e adiantando a muleta, embarcando o toiro e trazendo-o nessa trajectória, de investida humilhada e prolongada pelo movimento do braço e da perna esquerda, por forma a poder ligá-lo com outro. Pode ser também ajudado com o estoque, prolongando-o (o passe) um pouco mais.
    • O derechazo – passe executado com a muleta armada com o estoque (ao contrário do natural onde o estoque fica na mão direita) e dado sobre a mão direita do toureiro e pitón direito do toiro. É a base do toureio actual e permite uma maior amplitude à muleta e à expressão do movimento.
    • Circulares
    • Passes de peito
  • Passes de adorno e remates
    • Passe de trincheira
    • Molinete
    • Manoletina
    • Afarolado
    • Passe «de la firma»
    • Abaniqueio e desplantes

 

Quanto à sorte de matar, podemos referir que é a mais difícil e perigosa das sortes do toureio pois é a única em que o toureiro perde vista a cara do toiro, tomando o toureiro a ofensiva, exactamente no momento em que se cruza com o toiro, mão esquerda a empunhar a espada e direita projectando a espada em direcção ao morrilho do toiro. Por direito deve ser sempre a colocação do toureiro pois só assim será devidamente valorizada a execução da sorte, denominada de suprema.

 

Pode executar-se das seguintes formas:

  • Recebendo
  • A volapié
  • A um tempo
  • Aguentando
  • Arrancando

 

Segundo os terrenos onde se executa, a sorte de matar denomina-se:

  • Sorte natural – quando o toiro tem o seu lado direito virado para a trincheira e o matador executa a sorte saindo para os tércios
  • Sorte contrária –quando o toureiro, ao executar a sorte, passa entre o toiro e as tábuas, situação mais complicada e de maior risco.

 

Depois, quanto à medida do estoque que penetra no toiro, a estocada pode considerar-se

  • Pinchazo fundo
  • Estocada curta
  • Meia estocada
  • Estocada funda
  • Estocada inteira

Pode ainda considerar-se, na colocação face à linha recta da coluna vertebral, e da frente par trás:

  • Pescoceira
  • Dianteira
  • Na cruz
  • Passada
  • Traseira

 

E fora da linha recta da coluna vertebral:

  • «golletazo»
  • Baixa do lado contrário
  • «Bajonazo»
  • Baixa
  • Contrária
  • Caída
  • Na cruz

 

Brevemente voltaremos a abordar o tema do toureio a pé e a dissecar alguns dos lances e dos passes.