Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

BARREIRA DE SOMBRA

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

BARREIRA DE SOMBRA

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

Com uma forma mordaz e sarcástica de entender e abordar a nossa peculiar tauromaquia e principalmente a corrida dita à portuguesa (com cavaleiros e forcados), nos anos 30 do século passado e sem que houvesse ainda uma qualquer perspectiva de haver um matador de toiros português (só aconteceria em 1947), D. Bernardo da Costa (Mesquitela) deixou-nos textos incríveis e bem reveladores da sua personalidade e, ao mesmo tempo, do respeito que por ele havia. E para além disso, ideias controversas, com propostas arrojadas e polémicas face ao que considerava de errado na abordagem ao espectáculo tauromáquico. Hoje trazemos mais um desses textos e sobre as cortesias.

 

«AS CORTESIAS», por D.Bernardo da Costa (Mesquitela), in Festa Brava (1932)

 

“Há muito temp que não vou aos toiros, cá em Portugal. E não vou por isto: porque, como «aficionado» não me interessa a tourada, e, como crítico, não percebo nada do que nela se faz. Fazem-se coisas que ultrapassam os limites acanhados da minha sabedoria e da minha inteligência – coisas certamente muito bem feitas, porque vejo muita gente aplaudi-las, mas coisas que eu não percebo.. E por isso, porque não percebo e porque não me interessa – não vou.

A tourada à portuguesa é tôda ela feita de disparates cosidos uns aos outros. Do princípio ao fim reina o inverosímil, o absurdo e o burlesco.

Exagero?

Talvez. Mas analisemos o espectáculo, pondo-o, sempre que seja conveniente, em confronto com a corrida de toiros à espanhola – que é a verdadeira e a única – e vamos ver se o leitor não acaba por concordar comigo...

Ocupemo-nos hoje das cortesias, - preâmubilo da tourada à portuguesa. Depois, quando houver tempo, trataremos do esto.

Em Espanha, como todos sabem, as quadrilhas limitam-se a cruzar o redondel, num paseo rápido, simples e formal, de uma rara e de uma rara emoção. Não há artifícios, nem delongas , nem exibições de circo. Os toureiros, reluzentes em seus trajos de seda e oiro, de seda e prata, o peito levantado com orgulho, o busto ligeiramente inclinado para a frente e o braço direito graciosamente curvo, baloiçando-s ena cadência do paso-doble aelgre e vibrante, são bem os descendentes daqueles heróis romanos, caminhando estoicamente para a luta – para uma luta d emorte, da qual nem sempre saem vencedores. A sobriedade dos seus gestos  dá-nos logo neste prólogo a noção da seriedade do espectáculo que vai desenrolar-se. E a elegância, a preocupação permanente  de uma estética, que é sempre a ideia fundamental de qualquer arte, não é  a mais insignificante nem a menos agradável das suas atitudes.

Nas nossas touradas, em vez disto, fazem-se cortesias... Acho bem. A meu ver, esta coisa das cortesias tem uma explicação: aborrecer logo de entrada o espectador, para que ele se habitue de princípio ao aborrecimento que o espera tôda a tarde. Se assim é, não há dúvida que é a única coisa lógica da nossa tourada.

A primeira personagem que entra na arena é uma mula – a mula das farpas. É um símbolo. A mula cumprimenta o inteligente e o inteligente cumprimenta a mula. Outro símbolo.

Depois torna a tocar a corneta, e, ao som de um fungagá que atira cá para fora  as notas desafinadas de uma valsa ou de uma marcha fúnebre, entram na praça os nossos toureiros: gordos uns, velhos outros, alguns com um cabelo demasiado comprido para toureiros, outros de caracóis ou melenas, que lhes dão um aspecto afadistado e pelintra, e todos eles mais ou menos mal vetsidos, com trajos remendados nos fundilhos – pobres trajos sem côr e sem brilho, que parecem ter sido retirados do «prego» e que aguardam o fim do dia para de novo voltarem para o «prego».

Atrás dos badarilheiros, que se deixam ficar alinhados como soldados de chumbo, colocam-se os forcados, de grossas bigodeiras e cheirando a vinhaça à distância dos camarotes de segunda ordem.

Depois, uns matulões vestidos de branco – as vestais do sr. Segurado – vão misturar-se com uns personagens do século passado, de grandes fardas de libré que cheiram a estrebaria, e de grossas meias brancas, onde a gente, à vista desarmada, vê pulgas passeando.

Carecas, papagaios, cabeludos, cacatuas, rinocerontes, hipopótamos – todo um jardim zoológico aparece na arena, a fazer cortesias.

Atrás de todos, os campinos -  e êsses sim, êsses são os únicos que põem uma nota interessante e alegre no meio de tanta gente mascarada e triste.

Entram depois os cavaleiros..

Os cavalos vistosamente enfeitados de sedas garridas, correspondem às saudações do público alçando o rabo e sujando a arena. E os cavaleiros, vestidos à moda de um rei de França que nunca foi toureiro, nem sequer «aficionado», trazem o penteado à moderna, enquanto outros, mantendo o culto do homem primitivo, conservam a relíquia de um bigode que já ninguém usa.

Põem- se a andar para a frente, a andar para trás , a andar para os lados, e a gente, durante horas, assiste resignadamente à passagem deles pelo nosso sector.

E como todos nós nos conhecemos e todos somos amigos uns dos outros, não há remédio senão bater-lhes palmas, tirar-lhes o chapéu e gritar-lhes cá de cima:

- Bom dia, ó Simão!

- Como passa V.Exª., Sr. D.Ruy?

- Adeus, ó Lopes!

- Viva, Núncio!

...com recomendações recíprocas à família.

E os cavaleiros passam, tornam a passar, andam para a frente, andam para trás, andam para os lados – parece que andam perdidos – e agradecem, agradecem sempre, sem saber porque motivo, as palmas que nós lhes damos, sem saber bem porquê. Só os cavalos sabem porque razão sujam a praça.

De todos os cavaleiros, o que mais me agrada ver nas  cortesias é o Rufino. Êsse ri-se, ri-se para todos, ri-se às gargalhadas, E eu que não me interesso pela tourada e que nada percebo do que nela se faz, gosto de ver êste homem, porque enquanto nós todos choramos de aborrecimento, êle é, afinal de contas, o único que se diverte, o único que ri.

É o cavaleiro da alegria. Toureio de alegria, só o de Sevilha ou o ... de Alhandra!

 

Aqui tem o leitor o que são as cortesias – uma sensaboria que nada significa, a primeira nota ridícula dêsse amontoado de notas ridículas que é a nossa tourada.

Não falta, porém, quem goste delas: a maior parte do nosso público – quási todo o nosso público – é mesmo do que mais gosta.

Para êsses espectadores, o momento mais bonito, o mais vistoso, provavelmente o mais artístico e emocionante, o momento supremo da tourada à portuguesa é o das cortesias. – quere dizer, todo o espaço de tempo que os nossos toureiros gasta para se exibir, enquanto o toiro não sai...

De uma beleza mais que duvidosa e totalmente despida de grandeza, a tourada, com se depreende logo dêste princípio, difere daautêntica corrida de toiros como uma noite de chuva de um dia de sol, como uma macaca feia de uma mulher bonita.

É defeito de nascença e não vale a pena pensar em melhorá-la. Deixemo-la com as suas cortesias, os seus salamaleques, as suas momices e os seus absurdos. Não acredito que possam modificá-la num sentido progressivo, porque o mau não se melhora: o mau suprime-se.

A única forma de se levantar a tauromaquia em Portugal e o gôsto pela Festa Brava, seria acabar definitvamente com ela. E para isso bastava fazer esta coisa simples, muito simples: deitar abaixo todas as praças; desterrar todos os empresários; mandar abater, por utilidade pública, todos os pseudo-toiros e tôdas as pseudo-vacas de todos os nossos pseudo-ganaderos; fazer passar por uma peneira todos os toureiros nacionais (só passava a peneira); mandar todos os forcados para a luta do Coliseu; e, finalmente, lançar fogo a todos os críticos e criticosos.

E eu, só para não esperar pelos outros, seria o primeiro a entrar na fogueira.”