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BARREIRA DE SOMBRA

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

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DIVAGANDO SOBRE FORCADOS – CHAUBET

21.12.11 | António Lúcio / Barreira de Sombra

Nota introdutória

 

Data de 2005 este texto sobre a figura do Forcado, escrito pelo meu querido amigo Carlos Patrício Álvares "Chaubet" para o site Toiros&Cavalos. É uma homenagem que pretendo fazer não apenas ao "Chaubet", ou aos forcados, mas acima de tudo para recordar o site que fundámos com o saudoso Eduardo Leonardo. Aqui vos deixo mais um texto brilhante do nosso "Chaubet".

 

 

"Há mais de meio século que me interesso pelo Touro e pelo Forcado. Vinte e dois anos vestindo a jaqueta das ramagens, depois como observador atento e estudioso. Estas duas situações habilitam-me a poder fazer um historial do Forcado, o seu nascimento, consagração e desenvolvimento. Devido à confusão existente quanto à sua origem e à apropriação indevida que as classes sociais mais elevadas pretendem fazer do espírito do Forcado, parece-me oportuno esta análise.

 

O meu interesse por esta figura tão portuguesa, vem de achar ser o Forcado, dentro da Tauromaquia Nacional, o mais fidedigno representante da alma lusitana, do arrojo e espírito de aventura que nos levou mar dentro, a descobrir novos mundos para o mundo. O Touro representa o gigante Adamastor, que os nossos navegadores tiveram que enfrentar, quando das descobertas.Só um Povo como o Português, seria capaz de produzir um fenómeno como o Forcado. Digo Povo, porque foi realmente do Povo que saíu o gosto pelo “pegar touros à unha” como se passou a dizer.

 

Quando o homem começou a capturar o Touro em vez de simplesmente o matar, construiu cercados onde o colocar. Contudo, o Touro é um animal nómada e por tal, muitas vezes, invadia pastos alheios, gerando com isso atritos e discussões. Para evitar esses conflitos resolveu-se então, arranjar forma de identificar o touro, dar a conhecer a sua procedência. Cada possuidor de touros, passou a utilizar uma barra de ferro, colocando numa das suas extremidades, uma sigla que o identificava. Cerca de um ano após o nascimento de uma rês, posta em brasa a parte do ferro que possuía a sigla, gravava-se esta nos quartos traseiros do animal. A esta operação de ferrar o gado, ainda hoje utilizada, passou a chamar-se “ferra”.

 

Ora para se aplicar o ferro, era necessário derrubar a rês que, embora ainda jovem, já representava perigo e dava muito trabalho. Constituía mesmo um espectáculo, presenciado por muita gente, o labor dos intervenientes  nesta operação. Os que se especializaram nesta tarefa, porque agarravam os cornos dos bichos, tomaram o nome de “mancornadores”. Simultaneamente trabalhadores agrícolas, utilizavam para algumas das funções que lhes estavam atribuídas, uma forquilha com três aguçados mas frágeis dentes.

 

Porém, quando começaram com o manuseamento do gado bravo, para não o magoar inutilmente e para lhes dar mais consistência, substituíram os três dentes da forquilha por uma estrutura metálica, parecida com uma ferradura, com as extremidades arredondadas, que se fixava numa espécie de cajado. A este instrumento, que lhes servia para manejar o gado, deram o nome de forcado.

 

Ora os fidalgos, quando começaram a exibir-se em espectáculos públicos, certamente por esses homens terem um contacto maior com o gado bravo, levavam-nos para os recintos onde iam actuar. Designados como lacaios, faziam parte das grandes comitivas que os cavaleiros fidalgos sempre apresentavam. Iam munidos dos seus forcados, prontos a acudir a qualquer percalço que pudesse vir a acontecer.

 

Ao lado dos seus senhores, entusiasmados pelos aplausos da multidão, os mancornadores/lacaios, lembraram-se de pedir autorização aos seus amos, para fazerem na praça, o que faziam quando das ferras e que tão apreciado era. Os patrões, não prevendo o êxito que tal feito poderia ter, autorizaram a pretensão. Mas rapidamente se arrependeram…

 

O sucesso dos seus empregados foi imediato, provando que, bem lá no fundo, todos os portugueses se revêem no Forcado, têm no subconsciente, um pouco da sua poesia, audácia e espírito de aventura. O público passou a não prescindir da sua actuação, clamando muitas vezes pelos homens do forcado, incitando-os “À unha!…À unha!”. Perante isto, os Senhores resolveram proibir os seus subordinados de actuar – “se o fizeres vais para a rua”. Disseram. Mas já era tarde.

 

Encorajados pelo apoio do público, os mancornadores/lacaios, decidiram continuar autonomamente. O dinheiro que deixavam de ganhar por serem despedidos, certamente seria compensado pelo que a assistência lhes desse. Criou-se assim, o chamado “Forcado Profissional”.

 

Deste modo, confiados somente na generosidade falível dos espectadores, passaram a enfrentar touros com idade, sem qualidade, corridos e até ao reinado da Rainha D.Maria II, em pontas. Já não falando na circunstância de que, para pegar, raramente haver grupo constituído com antecedência. Os grupos formavam-se ad-hoc, muitas vezes indo buscar às tabernas, os homens necessários para os formarem.

 

Inicialmente, o número de elementos que que alinhavam para a pega era aleatório. Consoante o perigo que considerassem o touro apresentar, assim se escolhia o número de pegadores necessários.

 

Se nos lembrarmos, como diz uma quadra que todos que andam nestas lides conhecem, que para pegar um toiro “é preciso ter confiança na malta”, vemos que para pegar toiros nestas condições, tendo que levar farnel de casa e viajar a pé ou em terceira classe, para conseguir poupar algum dinheiro, dormir ao relento ou onde calhasse, é preciso ser muito valente, ter muito gosto pelo pegar toiros. Não era certamente pelo que ganhavam, que o faziam.

 

Por isso considero estes homens com espírito mais de amador, do que alguns dos que, posteriormente, tomaram essa designação.

 

As touradas ganharam grande relevo e de quando em quando, o Rei e a Corte iam assistir. Quando tal acontecia, armava-se um palanque para a Corte se instalar. Uma rampa que partia da arena dava-lhe acesso. Para impedir que houvesse algum toiro que quisesse fazer uma visita ao Rei, sem ter pedido audiência, a defender esse acesso eram colocados alabardeiros, uma força militar da altura.

 

Inspirados na táctica guerreira do quadrado, eram oito os elementos que compunham essa defesa, a que se passou a chamar “Casa da Guarda”. Como as lâminas das armas dos alabardeiros, estropiassem demasiado os animais que investiam contra elas, considerou-se que oito “homens do forcado” os podiam substituir perfeitamente e assim aconteceu. Foi também a partir daí que se determinou que deviam ser só oito elementos a fazer a pega. Limitação que modernamente não é respeitada. Se o toiro dá muita luta, vemos saltarem três e quatro forcados, a que chamo de “excedentários”, em ajuda dos oito iniciais, fugindo depois do toiro parado, como se ninguém os tivesse visto.

O Touro desse tempo, animal selvagem, feroz mas não bravo, de investida e derrote, agora, com o toiro de qualidade, seleccionado, estudado cientificamente e tentado, se pode fazer, estava for a de questão.

 

Embora nos dias de hoje, por desnecessárias, estejam banidas, nesse tempo, para combater a falta de qualidade dos adversários, os Forcados tinham várias formas de os pegar. omo apareciam muitos toiros com os cornos tendencialmente na vertical, quer dizer, gravitos, havia a pega de costas, que hoje, devido á correcção da córnea dos hastados, dificilmente se poderia tentar. Quando o toiro tinha estas características, não tinha muito peso, se não acudia ao cite, recorria-se muitas vezes a esta modalidade. Enquanto o grupo, no meio da arena chamava a atenção do cornúpeto, o pegador, correndo em diagonal, aparecia-lhe, de surpresa, à frente. Ele investia, o pegador enganchava-se nos seus cornos e seguia pendurado a trajectória que o bicho percorria ao encontro da ajuda dos colegas.

 

Contudo, a pega mais corrente e também mais fácil, era a pega à meia volta, a que os profissionais geralmente recorriam. Com o touro voltado para as tábuas, o pegador surgia-lhe por trás e a curta distância chamava-o. O animal voltava-se e investia contra o inesperado adversário. Por lhe darem pouco terreno e a investida ser instintiva e não preparada, esta era menos agressiva. Mas quando tal modalidade não podia ser aplicada por o touro “abroncar”, não investir, se ele obedecia ao capote, tentava-se a pega “à ponta do capote”. O peão de brega levava o oponente embebido no capote e quando o largava, aparecia-lhe na frente o pegador. Era também um embate em que o toiro era colocado  numa situação inesperada.

 

Igualmente a “cernelha”, injustamente chamada pega de recurso, era utilizada nestes casos. Se nenhuma destas modalidades se podia aplicar, vinha então a “pega ao sopé”, uma espécie de sai sempre, que os actuais Forcados ignoram completamente. O toiro grande, bronco, encrençado,  não respondia a nenhuma provocação. O pegador aproximava-se dele até à distância de um metro, metro e meio, o animal olhava-o, media-o, viam-se os seus músculos a prepararem-se para a defesa, mas não arrancava. O pegador então procurava que lhe chamassem a atenção e quando ele desviava o olhar, metia-se praticamente entre os seus cornos, obrigando-o, digamos, a investir. A pancada era violentíssima pois o touro preparava-se para acometer. Era necessário fechar-se com rapidez e ter bons braços.

 

Presentemente nenhum destes tipos de pega se pratica. Até a cernelha, uma pega sempre bonita, está a cair em desuso. Os toiros são todos pegados de largo ou a meia distância. Sucede ainda, que quando dentro da trincheira, existe uma diferença de atitude entre o Forcado antigo e o moderno.

 

No tempo em que os toiros não tinham qualidade e vinham para a praça  cheios de defeitos, tinha que se estar com atenção ao seu comportamento, para se mandar o peão de brega tentar corrigir qualquer anomalia que se notasse. Se metia as mãos à frente quando investia, se o fazia adiantando um dos cornos, se marrava alto ou baixo, se ensarilhava, se tinha ou não uma boa córnea, por vezes, se tinha algum defeito de visão. Tudo isto podia acontecer no gado que nessa altura aparecia. Por isso, dentro da trincheira, ninguém tirava os olhos do toiro.

 

Agora os componentes dos grupos podem voltar as costas ao que se passa na arena, cumprimentar os amigos e piscar o olho às raparigas. A tentativa de pega é a habitual, de largo ou à meia distância. Depois é só receber o bicho que responde de pronto ao cite, vem, rectilíneo e entra bem e ter bons braços e boas ajudas. Mas, enfrentar um toiro a corpo limpo, confiando somente na força dos braços, vontade, na ajuda dos companheiros e na nossa habilidade e determinação, é sempre um acto de coragem, por muito que, teoricamente, isso se apresente fácil.

 

Os Forcados, como passaram a ser chamados, simplesmente, os homens do forcado, iam ganhando cada vez mais popularidade. Isso despertou a atenção de classes sociais de nível mais elevado, que sentiram desejo de terem o mesmo acolhimento da parte do público.

 

Numa demonstração inequívoca de que o pegar toiros está na índole dos portugueses, sejam desta ou daquela classe social, não foi difícil arranjar Forcados.  Primeiro entre a nobreza, depois entre a burguesia.

Ao contrário do que os ditos profissionais faziam, não pediam nem recebiam qualquer paga pela sua actuação. Mas não pegavam todas as ganadarias e só entravam em corridas para amadores e normalmente, de beneficência. Começaram também, a dar mais espectacularidade à pega, não se confinando apenas à pega à meia volta.

 

A sociedade foi-se modificando, tornando os homens mais desejosos de um bem estar e protagonismo que dantes pouco ambicionavam. A Tauromaquia tornou-se um negócio. Se bem que fosse a sua aficion e não o lucro que o levava a pegar, o Forcado Profissional, já que o espectáculo tauromáquico era um negócio rentável, passou a considerar injusto e exíguo o que recebia. Começou por isso a rarear, quem se dispusesse a ser Forcado Profissional.

A machadada final que lhe deram, foi quando surgiu, em 1944, um grupo amador – o Grupo de Forcados Amadores de Lisboa – a propor-se pegar todas e não somente algumas ganadarias.

 

Na altura existiam apenas cerca de vinte forcados que se intitulavam profissionais, que se dividiam pelos quatro grupos sobreviventes: Grupo de Vila Franca, de Alcochete, Riachos, de Salvaterra e de Lisboa. O que saía de Cabo numa corrida saía como simples elemento. Tivemos assim o Zé da Vila chefiando o Grupo de Vila Franca; Artur Garret o de Alcochete; Serra Torres o de Riachos; Manuel Faia o de Salvaterr e Matias Leiteiro o de Lisboa. Este Grupo aliás, quando comandados pelo valente Adelino de Carvalho, conseguiu um nível exibicional que nunca nenhum outro tinha alcançado. Foi o último a desaparecer. Os espectáculos multiplicaram-se e os grupos profissionais acabaram. Mas o gosto de pegar toiros manteve-se naqueles que, eventualmente, podiam fazer parte deles.

 

Entretanto, a existência de um grupo amador a não recusar corridas, a pegar todas as ganadarias, levou os outros grupos amadores da altura, a fazerem o mesmo. No entanto, para entrar no esquema de se pegar toiros de todas as ganadarias, não havia nas classes mais privilegiadas, número de voluntários suficiente.

 

Passou-se então a recrutar gente, entre aqueles que teriam ido para profissionais se ainda os houvesse. Os grupos de amadores, passaram assim, a ser para eles, veículo de promoção social, escola de boas maneiras.

 

A par de toda esta movimentação, do mesmo modo havia, nas ganadarias, um cuidado minucioso com a criação do toiro de lide, que cada vez tinha mais qualidade. O que, igualmente, ia facilitando o recrutamento de jovens forcados.

É que, apesar de como já disse, pegar um toiro ter sempre perigo, o sabermos que o toiro, de uma forma geral, tem um arranque pronto e franco, investida e corrida rectilíneas e derrote vertical, ajuda a adesão de candidatos a pegadores. De tal maneira que parece ter-se tornado moda ser Forcado.

 

Igualmente o 25 de Abril teve influência neste surto de grupos de forcados. A seguir à restituição das ganadarias, começaram a aparecer nos espectáculos tauromáquicos animais com pouco peso e, isso é que conta, com pouca idade. Eram os chamados novilhos/toiros que, como se sabe, têm menos perigo que um touro feito.

 

Estas serão as razões que explicam a existência de quase quarenta grupos de forcados, cada um deles, pelo menos os principais, com 20, 30, 40 e até mais candidatos…

 

Também, porque vivendo nós agora, numa sociedade em que a aparência, o dar nas vistas, o fazer-se notado, é factor importante para se ter êxito, o ser-se Forcado, é uma óptima forma de conseguir visibilidade.

 

Evidentemente, no meio dos verdadeiros Forcados que, felizmente, vão aparecendo, há uma grande maioria que só pretende é poder dizer é forcado, que pertence a este ou aquele grupo. Anda por lá três ou quatro anos, faz meia dúzia de pegas e retira-se com lágrimas nos olhos e volta à praça aos ombros dos colegas.

 

Mas pronto!… o tempo e a mentalidade são diferentes. Agora é assim e ponto final. Há cinquenta, sessenta anos atrás, pegava-se por pegar, o Forcado era motivado por um desejo pessoal de testar as suas capacidades perante o perigo. Não tinha qualquer objectivo a alcançar, nem o fazia para agradar a alguém ou para se fazer notado. Quando chegava a hora de se retirar, fazia-o com a mesma discrição com que tinha entrado, sem lágrimas, voltas à arena ou saídas em ombros. Pegava oito, nove, dez, quinze e até, vinte anos. Enquanto se sentisse com ânimo e vontade para o fazer.

 

Por resta razão, por ser mais trabalhosa a pega ou por os toiros, grandes com idade e sem qualidade, imporem mais respeito, nesse tempo havia somente três grupos de forcados organizados e um que aparecia acidentalmente e com várias designações. Eram o Grupo de Forcados Amadores de Santarém, que foi chefiado por António Abreu, D.Fernando de Mascarenhas e depois Rhodes Sérgio, o Grupo de Forcados Amadores de Montemor, chefiado por Simão malta e depois Joaquim Capoulas, o Grupo de Forcados Amadores de Lisboa, chefiado por Salvação Barreto. Chefiados por Duarte Noronha, antes de este ingressar no Grupo de Santarém, mas sempre com os mesmos elementos, apareceram esporadicamnte: o Grupo de Forcados Amadores da Malveira, Amadores Açoreanaos, da Estremadura, os Manuéis, do Ribatejo.

 

Por outro lado, destes grupos, só Santarém e Montemor tinham número suficiente de forcados. Mesmo assim não iam além de dezoito ou vinte.

 

Mas enfim os tempos são outros.

 

O ambiente em que as gerações que se vão sucedendo se movem, está sempre em mutação. Haverá sempre uma geração a desfazer na que a precedeu ou a atacar a que lhe sucede. A actual dentro de anos será passado, também irá sofrer censuras e ataques e assim sucessivamente.

 

Assim, não pretendo atribuir quaisquer louros para o tempo em que fui Forcado. A valentia, o gosto pelo pegar touros, já tenho dito e repito, não é monopólio de qualquer geração. Mas que havia muito menos candidatos a Forcado, é uma verdade…

 

Seja como for, continuo a vibrar e a bater palmas a uma pega bem executada, a admirar os rapazes que se atrevem a enfrentar um toiro."

 

Carlos Patrício Álvares (Chaubet)