Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

BARREIRA DE SOMBRA

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

BARREIRA DE SOMBRA

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

DIKVULGAÇÃO LITERÁRIA TAURINA - «FADO, MULHERES E TOIROS», DE PEPE LUIZ, Lisboa 1945

21.09.11 | António Lúcio / Barreira de Sombra

Sessenta e seis anos após a sua publicação pela Livraria Popular de Francisco Franco, esta trilogia sobre a qual assenta o livro do célebre crítico tauromáquico Pepe Luiz traz até ao presente histórias e análises a par de algumas reminiscências sobre os temas e permite perceber um pouco sobre a forma de escrever e de interpretar os sinais dos tempos transmitindo às gerações actuais muitos dos valores sobre os quais se funda parte importante da nossa cultura.

 

Deste livro, com capítulos muito interessantes, escolhi um que fala de campinos e, mais precisamente, sobre “Felício,o campino-mor do Ribatejo”. É também a minha homenagem a um grande campino que conheci e que muito me ensinou: Luis Carranca.

 

“Felício, o campino-mor do Ribatejo. Aspectos da vida àspera dos lidadores do gado bravo – A beleza da paisagem ribatejana – O carácter são do herói das lezírias.

 

Nada há mais propício à arquitectura de uma novela robusta de sentimento, colorido e vivacidade, do que os pormenores colhidos no quadro imenso do Ribatejo. Nêle palpita a belezado panorama, a originalidade dos costumes e a inefável emoção oferecida pelos constantes e aguerridos lances, em que predomina a nobre figura do campino, cuja máscara varonil denuncia o feitio psicológico do homem forte, arrogante e leal.

 

O campino é o símbolo do trabalho, da dedicação e da indómita bravura; é a personificação do desapêgo da vida, no bom desempenho dum mister de que depende o seu pão e o dos seus, tantas vezes amassado com sangue e amargura. Diante dos olhos estão mil perigos, e a vida, no seu inexorável caminho, tem passos negros a que ninguém pode fugir. Mas ao campino nadaemoriza, porque, acima de tudo, vê o honesto cumprimento dos seus deveres.

 

As gerações de campinos sucedem-se e oxalá que os lavradores jamais deixem de contribuir para a clássica apresentação dos seus criados, tão tipicamente portuguesa e tão bizarra no seu alegre conjunto de cores.

 

E como a nossa atenção se detém perante aquêles homens de tronco erguido, vestindo colete encarnado, aberto sobre alva camisa, calção de lã, cinta escarlate, meia branca, barrete vede, jaqueta pendente do ombro e sapatos com salto de prateleira em que se apoiam as esporas!

 

A conservação dêste tipo, altamente castiço, é como que a continuidade da vida expressa no respeito à tradição portuguesa, que traduz um somatório de virtudes, que cabe plenamente dentro da alma dos homens de bem, de coração afeito à abnegação, na dura tarefa do amanho das terras e da criação dos gados.

(...)

 

Francisco Felício, filho de Joaquim Felício, também famoso campino, que estivera 33 anos servindo na ganadaria de Vaz Monteiro – tio do actual lavrador do mesmo nome – nasceu na Golegã e com os seus 62 anos de idade ainda apresenta uma verticalidade que atesta uma rigidez invulgar. Anda a cavalo todo o dia, quer chova, troveje ou faça sol; tem uma vida coberta de épicos episódios e no seu corpo poucos ossos há inteiros. Ainda no verão do ano passado um toiro da casa lhe partiu sete costelas, no redondel da praça de Santarém. No campo, então, tem passado das negras...

 

            - «Era rapazito, ainda – desfiou êle – apenas com 14 anos, entrei para a casa do grande lavrador dêsse tempo, Carlos Marques, e com dezóito fui colocado no lugar de maioral dos bois».

 

E assim começo moirejando a vida, passando depois para as casas Infante da Câmara e Álvaro Ferreira, e há cêrca de vinte anos é o maioral dos toiros da ganadaria Coimbra. (...)

Em certa manhã de Agosto, dirigia-se Felício para a herdade do Ripilau, do Cartaxo, pertencente ao lavrador Manuel Duarte de Oliveira. Vendo um toiro nas alturas de Alcanhões, tomou-lhe a dianteira, salvando da morte um pobre homem que montava um burro e um ceguinho que no beiral de uma porta da povoação do Galinheiro estava pedindo esmola.

 

Mais adiante, na ponte do Celeiro- Almoster – o toiro cruzou com uma família que vinha de Santarém, e quando encarou com uma mulher dêsse grupo, arrancou com fúria. Felício meteu o cavalo e deu uma varado no bicho, impedindo uma mortal colhida , mas resultando do embate a queda do cavalo e do destemido campino, na vala que ficava perto. (...)

 

E nesta tarefa Felício andou de manhã até à noite, salvando algumas pessoas da morte , sob o iminente risco da própria vida. (...)”

 

In, «Fado, mulheres e toiros», de Pepe Luiz

Lisboa, 1945

Livraria Popular de Francisco Franco