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Com o recrudescer da guerra na Ucrânia e sem que haja um fim á vista, todos os grandes planos para 2022 podem ir ”água abaixo”. É um acontecimento á escala mundial e não escapamos incólumes de forma alguma apesar de, geograficamente, estarmos longe do conflito.
Na verdade, a nossa dependência de produtos oriundos da Ucrânia, de outros da Rússia e com as grandes petrolíferas a inflacionarem o preço dos combustíveis, com lucros de milhões por dia, todos os outros produtos sofrem aumentos diários que a maioria das bolsas, num muito curto espaço de tempo, não poderão suportar. Aumentam os combustíveis, a eletricidade, o gás, as telecomunicações, aumentam brutalmente os preços dos bens essências, a começar pelo pão, fala-se de racionamento de alguns produtos…
E então pergunta-se: se tiver de optar entre ter comida na mesa e ir a espectáculos, quaisquer que eles sejam, o que decidimos? Eu, claramente, pela primeira solução: ter comida em casa.
Façamos uma conta simples. No ano passado, por esta altura, o gasóleo simples nos postos low-cost tais como os das grandes superfícies, custava menos 50/60 cêntimos do que nos dias de hoje e ainda se fala em aumentos consideráveis a partir da próxima semana. Ou seja, atestar um depósito com 50 litros custa mais 25 a 30 euros do que há um anoa trás.
As rações para o gado bravo e para os cavalos aumentaram consideravelmente e continuarão a subir pois os produtos base vão escassear e, por via disso, continuar a subir o seu preço. Os ganadeiros de bravo não poderão continuar a cobrar baixos preços por um produto que tem um custo de produção muito maior, e assim sucessivamente.
Os aficionados, cada vez com menos dinheiro nos bolsos e com o custo de vida diário a aumentar mais e mais e mais, pensarão muito no que irão fazer e que espectáculo irão escolher para estar presentes na praça. E as empresas que já anunciaram muitos espectáculos para 2022 terão de começar a fazer contas muito rapidamente.
Um exemplo simples: ir da minha terra, Sobral de Monte Agraço assistir a uma corrida a Coruche, por exemplo, não custará menos de 20 euros só para combustível quando há um ano atrás 12 euros chegariam. Some-se a este valor 3 entradas a 30 euros, almoço para 3 com um valor total a rondar 40 euros e temos um gasto de 150 euros. Qual é que é a família que pode ir, pro mês, 2 vezes aos toiros com estes custos? Imagine-se uma família de 3 pessoas que desloque de Évora a Vila Franca pelo Colete Encarnado para assistir a uma corrida de toiros. As despesas só para combustível passam de 15 para 24 euros. A comida poderá ter valores idênticos de 40/45 euros e os bilhetes custarão também 30 euros cada e teremos custos de quase 160 euros. Como dizia António Guterres, é só fazer as contas.
Mas vou mais longe: os transportadores dos toiros poderão continuar a cobrar entre 1 euros e 1,20 ao kilómetro quando o gasóleo custa 2 euros o litro? E os empresários poderão pagar estes acréscimos e manter os preços de bilheteira iguais aos de 2020/2021? É que todos os intervenientes vão pedir mais dinheiro para poderem também eles suportar os aumentos…
Os tempos que se avizinham serão difíceis, mais ainda do que no primeiro ano da pandemia. A escassez de bens irá fazer disparar os preços para valores incomportáveis e sem que os Governos possam fazer algo por isso. A menos que a guerra que a Rússia mantém com a Ucrânia termine, e ver-nos-emos numa situação quiçá pior do que aquela que os nossos pais viveram na 2ª Guerra Mundial.
Mas como sou um homem de fé, espero que, na ausência de líderes fortes na Europa e na América, haja um milagre que nos salve destes tempos. E digo isto, eu que sou um optimista por natureza.
António Lúcio
11/03/2022