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BARREIRA DE SOMBRA

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

Filipe Martinho na Escola de Toureio de Badajoz

26.02.21 | António Lúcio / Barreira de Sombra

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Vimos por este meio informar que "Na sequência do convénio assinado , entre a Escola de Toureio e Tauromaquia da Moita e a Escola de Toureio de Badajoz, que prevê o intercâmbio de experiências em diversos sectores das suas actividades, já se encontra a viver em Badajoz e a frequentar a escola local, sob a sábia gestão do Maestro Luís Reina, o novilheiro Filipe Martinho , tendo já participado numa tenta de machos a convite do Matador de toiros Miguel Angel Perera."

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Informa: Sociedade Moitense de Tauromaquia 

Mafalda Maria 

MANUEL DIAS GOMES RUMA AO MÉXICO

E INTEGRA DIRECÇÃO ARTÍSTICA DO CART

26.02.21 | António Lúcio / Barreira de Sombra

O matador de toiros Manuel Dias Gomes rumará ao México par integrar a direcção do Centro de Alto Rendimento TAurino, dirigido pelo matador Juan José Padilla e onde 60 novilheiroos irão preparar-se ao amis alto nível, com participação em tentaderos e espectáculos. Os novilheiros Diogo PeseiroSérgio Nunes e Duarte Silva são os novilheiros portugueses presentes.

Manuel Dias Gomes actuará no espectáculo de abertuar no dia 23 de MArço conforme cartaz que apresentamos.

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COMPREENDER O MODUS OPERANDI DOS TAURINOS...

22.02.21 | António Lúcio / Barreira de Sombra

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Escreveu Antonio Lorca no jornal El Pais no passado dia 18 um texto/artigo de opinião que, pela sua importância em geral para a tauromaquia nos tempos que correm, entendi dar a conhecer em algumas das suas passagens mais importantes e que pode serlido na íntegra no link que se segue https://elpais.com/cultura/2021/02/18/el_toro_por_los_cuernos/1613628366_631633.html

Esta magnífica reflexão mostra bem o modus operandi dos taurinos e que essa forma de agir poderá conduzir ao desaparecimento da própria tauromaquia. Pior do que tudo é a passividade, a inacção, o deixa andar, como se poderá concluir da leitura do texto de aqui se reproduzem alguns excertos. Cá como lá, importa reflectir e alterar o paradigma, o modus operandi.

"Los toros, ante el precipicio: ganaderos, toreros y empresarios, desaparecidos

El Comité de Crisis, el síntoma más claro de que la tauromaquia navega a la deriva

¿Dónde están los toreros? ¿Dónde los empresarios? ¿Y los ganaderos? No se les ve el pelo a ninguno de ellos. Callados, asustados, escondidos…

Todos haciéndoles el trabajo a los antitaurinos; todos viendo desde la barandilla cómo la tauromaquia se hunde poco a poco, y ellos, en silencio, apocados, amordazados, irresponsabilizados, como si esta historia no les afectara.

No ha vivido la fiesta de los toros un momento más dramático en toda su historia, y los taurinos no están moviendo un dedo para frenar esta tormenta perfecta que parece diseñada por los más feroces enemigos del espectáculo.

Es verdad que la solución a la inesperada pandemia no está en las manos de los taurinos; es cierto que la esperanza depositada en este año 2021 se desvanece con el paso de los días, pero lo que no tiene explicación alguna es que el mundo del toro esté desaparecido y pasivo, a la espera de que la vacuna devuelva una normalidad que nadie sabe cuándo ni cómo será posible.

La fiesta corre un peligro cierto de desaparición; y este es un motivo más que suficiente para que el toreo en su conjunto estuviera en pie, unido y exigente ante sí mismo y ante las distintas administraciones a fin de inyectarle vida a un espectáculo moribundo y necesitado de cuidados intensivos. (...)

En el toro, cada cual está en su cuartel de invierno, unos más confortables que otros, pero todos a la espera de que las circunstancias y el tiempo solucionen un problema cada vez más complejo y enrevesado.

A estas alturas del calendario, por ejemplo, no está nada claro que las plazas de Madrid y Sevilla abran sus puertas en algún momento después de un año de cierre.

¿Cómo es posible que Simón Casas, Rafael García Garrido y Ramón Valencia no hayan manifestado todavía su firme intención de celebrar festejos en Las Ventas y la Maestranza como condición indispensable para mantener la esperanza?

¿Cómo se explica que el toreo al completo no esté en pie de guerra frente a la taurina Comunidad de Madrid y la Real Maestranza de Caballería de Sevilla para que sean estas, propietarias de las plazas, las primeras interesadas en abrirlas?

Porque ya no es la pandemia el veneno que está matando la tauromaquia; el enemigo es la pasividad de quienes viven de ella. (...)"

in www.elpais.es

Negrito e itálico da nossa responsabilidade.

Tauromaquia, Património Cultural de Portugal - assista aos vídeos deste projecto

Este projecto visa a materialização da candidatura da Corrida de Toiros ao Inventário Nacional do Pa

20.02.21 | António Lúcio / Barreira de Sombra

ATTP

Começou recentemente a ser divulgado um conjunto de 10 vídeos resultantes do Projeto Tauromaquia, Património Cultural Imaterial de Portugal, na sequência de uma candidatura promovida pela TTP ao Orçamento Participativo do governo.

 
Da autoria de José Cáceres, os vídeos, de grande qualidade e valor cultural, têm, entre outros atributos, uma grande utilidade pedagógica, para a divulgação da Festa e a formação de aficionados.
 
Por isso, a partir de hoje, os vídeos irão ficar progressivamente disponíveis para utilização pelo público, pela comunicação social taurina, por escolas e por tertúlias e clubes taurinos, como suporte útil para algumas das suas atividades. Aqui fica o convite para lhes acederem no seguinte link:
 
A TTP relembra que este conjunto de vídeos é apenas uma parte de um projeto muito mais vasto, que inclui uma plataforma, livros e, principalmente, a materialização da candidatura da Corrida de Toiros ao Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.
 
O sucesso desta candidatura, que se efetivará em breve, será a única via para, legalmente, blindar a Festa contra os ataques que os seus inimigos lhe movem. 
 
Associação de Tertúlias Tauromáquicas de Portugal

Prótoiro não desiste de procurar uma solução para touradas em Albufeira

20.02.21 | António Lúcio / Barreira de Sombra

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No seguimento da confirmação da venda da Praça de Toiros de Albufeira e das intenções da sua não utilização para espetáculos tauromáquicos, a PROTOIRO não desiste de procurar um caminho para a continuação das corridas de toiros em Albufeira e no Algarve.

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No seguimento da confirmação da venda da Praça de Toiros de Albufeira, importa recordar que o imóvel da Praça de Toiros de Albufeira era um edifício privado, construído em 1982 e gerido por uma empresa detida pelo matador Fernando dos Santos, num exemplo de empreendedorismo taurino. Há alguns anos, de forma legítima, entendeu este vender o imóvel a terceiros, mantendo um contrato de exploração com a duração de cerca de 50 anos.

No ano passado, no seguimento dos contactos regulares mantidos com a empresa, foi-nos confirmado pela sua gestão que o proprietário do imóvel tinha revendido a propriedade do edifício a uma nova entidade imobiliária, e que essa entidade estava a comprar as restantes frações não detidas pelo proprietário, e pretendia também comprar os seus direitos de exploração do imóvel, estando por definir a função e até a manutenção do edifício. Desde esse momento que foram desenvolvidos contactos de modo a poderem encontrar-se soluções, mas as decisões estariam sempre nas mãos dos detentores dos direitos de exploração e dos novos donos do imóvel, fora da capacidade de decisão da Protoiro. Esses contactos foram infrutíferos, pelas intenções do novo proprietário do edifício, e pelo facto de o dono da exploração, a empresa detida pelo matador Fernando dos Santos, ter entretanto decidido vender os seus direitos de exploração.

Importa destacar que estas operações de transmissão imobiliária relacionadas com a Praça de Albufeira são privadas e da responsabilidade dos seus proprietários, pelo que a Prótoiro não se pode substituir à autoridade e legitimidade destes. Nunca dependeu nem depende da Prótoiro a manutenção da praça de Toiros de Albufeira. Se assim o fosse, as touradas estariam asseguradas.

Apesar disso, a Prótoiro continuará a desenvolver esforços junto da nova proprietária para procurar uma solução que permita a existência de espectáculos tauromáquicos, que são muito relevantes do ponto de vista cultural e turístico para esta zona do país.

Num mercado de elevado potencial turístico, como o algarvio, a presença de uma expressão cultural tão portuguesa e única no mundo, como as Touradas, é da maior importância para a oferta cultural e turística. É um cartão de apresentação que mostramos a todos os que nos visitam e procuram conhecer a nossa cultura, viver uma experiência diferente, além da oferta dirigida aos aficionados da região.

Existe espaço para crescimento da tauromaquia no Algarve. Todos os setores da tauromaquia têm agora de trabalhar em conjunto para que, nos próximos anos, exista um aumento da presença da tauromaquia no Algarve, em várias cidades, como sucedia há alguns anos, com a realização de touradas de Lagos a Vila Real de Santo António.

PROTOIRO

AS SORTES NO TOUREIO A CAVALO – A SORTE DE CARAS

16.02.21 | António Lúcio / Barreira de Sombra

No seguimento dos trabalhos de pesquisa que temos efectuado sobre o toureio a cavalo, sentimos necessidade de dar a conhecer não apenas uma mas várias perspectivas sobre as sortes do toureio a cavalo. Editada em 1962 pela Editorial Estampa, a “Enciclopédia Tauromáquica Ilustrada”, de que é autor Jayme Duarte de Almeida, ajuda-nos a compreender as sortes com conceitos bem definidos e apoiadas em gráficos que mostram o desenrolar das mesmas. Por isso nele nos vamos apoiar nesta definição de sortes do toureio a cavalo e iniciamo-la com a “sorte de caras”.

Definida como a que «o cavaleiro executa enfrentando o toiro e proporcionando o encontro, cara a cara, só desviando a direcção da marcha quando lhe seja absolutamente necessário para a consumação normal ou em terrenos cambiados.»

Em termos enciclopédicos refere o autor que:

“As sortes «de caras» são, sem sombra de dúvida, as mais valiosas do toureio equestre e aquelas que melhor servem o espirírito que o determinou. A expressiva frase de António Galvão de Andrade  - «Mais vale perigar esperando do que ferir fugindo» (inserta na parte tauromáquicado seu admirável tratado «Arte de Cavalaria de Gineta e Estardiota. Bom Primor de Ferrar & Alveitaria») – oferece a certeza de que o toireio «de caras» era considerado fundamental no princípio do séc. XVII, tudo levando a crer que já o fosse anteriormente. Além disso a mesma frase encerra como que a condenação de outros procedimentos que já então se verificavam correspondendo a certo declínio derivado da menor observância dos rígidos deveres de dignidade a que os antigos cavaleiros se submetiam. Afastados estes, o facto teria determinadoa cções menos concordes com o espírito tradicional e daí o aparecimento de outras sortes menso perigosas e galhardas.

Independentemente desses aspectos e reportando as apreciações a épocas mais recentes, parece que as sortes «de caras» foram desaparecendo lentamente das arenas nacionais, após o advento do profissionalismo, especialmente no séc. XIX em que alguns cavaleiros a fizeram reaparecer sem contudo proporcionarem um movimento geral. Parece que o Conde de Vimioso as preferia a quaisquer outras, mas é sem dúvida, Vitorino Fróis quem na verdade as faz reviver, melhorando-as e dando-lhes um sentido artistico que serviria de guia para os actuais cavaleiros que, sem excepções, por tal forma respeitam os tradicionais princípios que as «garupas» e «meias-voltas» já muito raramente se executam, as primeiras totalmente banidas e as segundas só usadas como mero recurso, para aqueles toiros que se não prestam a outro género de toureio. Em consequência não é ousado afirmar  que, na actualidade, se toureia «de caras» como jamais se toureou, pois basta folhear os antigos tratados para que se obtenha a certeza de que assim é.

Sendo de considerar a possibilidade de se estabelecer um máximo de quatro tempos para uma sorte do toureio equestre – aguentar, consentir, reunir e rematar – facilmente se compreende que apenas as sortes «de caras» os podem registar na totatildade, porquanto até mesmo na própria tira (pertencente também ao toureio «de frente») o primeiro desses tempos quase totalmente desaparece, verificando-se redução ainda maior em outros procedimentos nos quais apenas se observam a reunião e o remate, isto já sem considerar as sortes de garupa onde nem mesmo a reunião pode observar-se. No entanto, nas sortes «de caras» a reunião ao estribo é, regra geral, menos clara do que na tira e em muitas ocasiões tem de resultar a «cilhas passadas», em virtude da marcha convergente que determina uma reunião rápida de mais para que seja possível preconceber uma posição relativa exacta em determinado momento. Para obstar a este inconveniente, que é função da altura em que se principia o desvio  para o lado esquerdo, alguns cavaleiros antecedem esse desvio com uma leve inclinação para o lado direito (num procedimento a que se chama «carregar a sorte»), obrigando assim o toiro a descrever uma curva de mais amplo diâmetro e portanto a entrar na reunião com uma perpendicularidade que facilite a execução «ao estribo». Deve porém observar-se  que os inconvenientes apontados ficam sensivelmente diminuidos quando o cavaleiro entre nas sortes com menor velocidade.”

Mais adiante e ainda neste primeiro fascículo da “Enciclopédia...”, o autor aproveita para distinguir as diversas execuções da referida sorte «de caras». E divide-as nas seguintes cinco formulações:

“Sorte de caras propriamente dita – É aquela em que, com os requisitos gerais indicados,  o cavaleiro prate em direcção do toiro e quando chegue à jurisidição fará um desvio circular para o seu lado esquerdo, assim proporcionando a reunião a fim de sangrar e sair da sorte fechando o círculo pelo lado de trás do antagonista. Há cavaleiros que antes de iniciarem o desvio circular, ladeiam na cara do toiro, o que empresta à sorte beleza e emoção extraordinárias (gráfico I).

Sorte de caras de poder-a-poder – De realização semelhante, distingue-se da anterior por cavaleiro e toiro se enfrentarem a toda a largura da arena, sobre um mesmo diâmetro, de ser simultânea a partida de ambos e por se procurar que a reunião tenha lugar no centro do redondel.

Sorte de caras recebendo – Neste caso, a acção de aguentar é prolongada enquanto possível por o cavaleiro esperar a investida do toiro, só partindo (desde logo para o seu lado esquerdo) quando este chega à jurisdição que se verificará muito próximo do cavaleiro. É procedimento de grande efeito espectacular mas devido à embalagem trazida pelo toiro é sempre difícil para este obedecer tão rapidamente à saída do cavaleiro que possibilite a realização «ao estribo». No entando, o seu criador, cavaleiro António Luis Lopes, praticava-se com extraordinária segurança e correcção (gráfico II).

Sorte de caras emendando a viagem – tem uma realização semelhante à sorte de caras propriamente dita, com a diferença porém de o cavaleiro partir para o toiro desviando levemente a marcha para o seu lado direito, só realizando o desvio para a esquerda quando o toiro chega à jurisdição (gráfico III).

Sorte de caras cambiando terrenos – Nesta variante de «sorte de caras», o cavaleiro entra deliberadamente pelo seu lado direito por forma a ganhar dianteira ao toiro e lhe passar pela frente dando-lhe o seu lado esquerdo, numa espécie de falsa reunião; como o cavaleiro seguindo no mesmo sentido, descreve então uma curva pronunciada e intenconal irá interceptar a trajectória do toiro num ponto mais avançado onde se dará a verdadeira reunião, que sera aproveitada para ferir e sair fechando o círculo como se indicou para o primeiro caso (gráfico IV).”

In, Enciclopédia Tauromáquica Ilustrada, Jayme Duarte de Almeida, Editorial Estampa, Lisboa 1962, pág.91 a 93

 

O RELACIONAMENTO HOMEM/TOIRO VISTO POR FRANCIS WOLFF

15.02.21 | António Lúcio / Barreira de Sombra

Quando se continuam a debater questõe sobre a festa brava, as corridas de toiros e o próprio toiro em si, com todas as suas condicionantes; quando se fala de ética nas relações entre homens e animais e questão das corridas é central, importa, mais do que esgrimir argugmentos muitas das vezes bacocos e sem sentido, colocar à consideração de todos quantos nos visitam no blogue, um conjunto de textos onde a temática é abordada sob o ponto de vista de uma das disciplinas mais envolventes: a da filosofia. Já aqui vos demos a conhecer, basicamente, o livro de Francisc Wolff intitulado “Filosofia de las Corridas de Toros” e hoje propomo-vos o texto que se segue e que é parte do referido livro.

“DAS RELAÇÕES DOS HOMENS COM OS TOIROS E DOS DEVERES QUE DELES SE DESPRENDEM” – por Francis Wolff (1)

 

“Tal é a secreta ambiguidade da personalidade do toiro na corrida (á vez, pior amigo e melhor inimigo do homem) que se revela a duplo sentido da ética desta (por uma parte luta trágica até à morte com o antagonista; por outra, duelo lúdico de igual para igual com o contricante) e que se revelam os dois sentidos entre os quais balança o conceito de bravura: entre a vida sobrehumana da valentia e o instinto bestival do selvagismo brutal.

 

É este o sentido que a lide respeita o que o toiro é para nós. Não deve ser tratado nem como um animal doméstico, como fez o homem para servir os seus fins domésticos, caso em que não deveria ser lidado, nem como um animal selvagem, caso em que poderia perfeitamente ser sacrificado, antes deve ser tratado como um animal bravo, ou seja, conforme ao que é para o homem que  fez ser assim precisamente, seu melhor seu mais próximo inimigo, seu eterno adversário. O toiro é bravo para com o homem, porque o homem quis que o fosse. A bravura é na natureza do toiro o que a sua aculturação pelo homem fez dele. Assim, pois, existem muitas relações de reciprocidade travadas com o toiro bravo e devemos respeitá-las: deixá-lo viver em paz, guardado por nós longe de nós, mantido perto de nós e com a maior desconfiança de nós.

 

Mas para respeitar o princípio do ajuste, não basta tratar o animal de acordo com as relações de reciprocidade que num momento se estabeleceram com a espécie, há também que respeitar o tipo de afecto que se solta destas relações. Pois bem, porque está destinado à lide e morte, o toiro bravo é tratado pelo homem, durante a sua vida, durante a sua lide e depois da sua morte, de uma forma acorde com a condição devida ao adversário. Por encarnar o «vivo» por excelência, já que vive com «vista à morte», é digno de respeito: a sua vida deve ter sido livre, a sua morte deve ser digna. Está ritualizada conforme o avanço inexorável de uma cerimónia, que obedece ao desenvolvimento inexorável dos três tércios da lide e a sua execução é frontal, franca e rápida. A dignidade intrínseca do ser-toiro manifesta-se tanto nas formulações quanto nas suas práticas.

 

As formulações que rodeiam todas as formas de tauromaquia exaltam sistematicamente o toiro. (..)

 

(...) Mas se atendermos às práticas das corridas, o respeito devido ao toiro está inscrito nos quatro momentos da sua gesta nelas: antes da lide, durante a lide, no momento da sua morte, depois da sua morte. Antes da lide, o toiro deve estar «puro» (limpo). Seguramente esta ideia tem um fundamento técnico: o toiro nunca deve ter sido afrontado, sob pena de se ter tornado inabordável, já que em qualquer momento da sua vida ou da sua lide, aprende progressivamente a desbaratar os enganos e recorda-se de tudo. (...) Mas o toiro chega «puro» à lide noutro sentido. Não deve ter sido manipulado nem debilitado. (...) No momento em que entra na praça, o toiro está intacto em todos os sentidos deste termo. É como se, precisamente porque está destinado à morte, que o animal deve gozar a vida o mais puro possível.

 

Este respeito que se tem pelo toiro manifesta-se no comportamento que o toureiro deve ter para com ele durante a lide (...). No  momento da morte, esse respeito que é devido ao toiro adquire um carácter quase sagrado. A corrida não se baseia na morte do animal, como no matadouro, antes na pureza da execução da estocada, que se deve administrar do modo mais leal possível: de frente, «deixando-se ver» (para permitir ao adversário investir e colher a sua presa na passada) e em pleno centro da sorte, metendo-se entre os pitons. O homem corre assim o máximo risco, já que perde de vista por um instante os pitons do toiro. Esse corpo a corpo em que os dois corpos se procuram, esse cara a cara em que se enfrentam as duas armas, o piton e a espada, chama-se «sorte de matar». Poder-se-ía chamá-lo também de «dom da morte».

 

Por último, depois da morte, com frequência se aclamam os restos mortais do toiro combativo.Por vezes inclusivé se lhe concede a volta à arena, a passo lento das mulas, e a  multidão levanta-se  e descobre-se à sua passagem. (...) A sua vida, o seu gesto, a sua morte, têm um sentido. Têm um grande valor ético. Assim, pois, os toiros de lide são tratados antes, durante e depois da sua lide conforme ao que são para o homem: com a consideração que se deve ao adversário, com a admiração que se deve ao bravo. (...)”

 

 

(1) in Filosofia de las corridas de toros, pp 57 a 64, Francisc Wolff, Edicions Bellterra, Barcelona 2008

 

ANDT - Evocação de Diamantino Vizeu nos 20 anos da sua morte

13.02.21 | António Lúcio / Barreira de Sombra

No dia em que passam 20 anos do desaparecimento de Diamantino Vizeu, a Associação Nacional de Toureiros (ANDT) e o Fundo de Assistência dos Toureiros Portugueses evocam a vida e obra de um homem e um toureio extraordinário.

A sua vida e carreira marcaram um antes e um depois na história da nossa tauromaquia. Foi o primeiro matador de toiros português (23-03-1947, Barcelona) com uma carreira que se estendeu pelas principais praças do mundo taurino, sobretudo Espanha e México, além de Portugal. Formou com Manuel dos Santos uma parelha que incendiou as paixões dos portugueses e criou a época de ouro do nosso toureio a pé. Uma carreira longa que terminou com a sua despedida das arenas em 24 de Agosto de 1972, no Campo Pequeno.  

O seu génio levou-o a ser um ídolo nacional e a experimentar outras artes. Em 1958 foi o protagonista do primeiro filme a cores português, junto com Amália, "Sangue Toureiro", mas já antes tinha subido ao palco do Monumental, partilhando a cena com grandes nomes do teatro como Mirita Casimiro, Laura Alves e João Villaret.

O seu compromisso para com a tauromaquia e os toureiros, levou-o a criar em 1951 a obra assistencial que é o Fundo de Assistência dos Toureiros Portugueses, que hoje continua a proteger os toureiros na sua reforma, a educação dos seus filhos e das viúvas, para além de toda a assistência em acidente aos toureiros no ativo.

A sua obra artística e humana, que os toureiros reconhecem, continua a ser um exemplo e uma fonte de inspiração para o mundo da tauromaquia, que perdurará por gerações. 

Nuno Pardal
Presidente
Associação Nacional de Toureiros
e
Fundo de Assistência dos Toureiros Portugueses

ANDT

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ALBUFEIRA: DESAPARECE UM ÍCONE DA TAUROMAQUIA LUSA

11.02.21 | António Lúcio / Barreira de Sombra

Pega Albufeira2 1985

Fomos confrontados, nos últimos dias, com uma notícia que há algum tempo se aguardava: a praça de toiros de Albufeira deixa de o ser e passará a ser um espaço hoteleiro e comercial, perdendo em definitivo a valência de tauromaquia. Era uma praça emblemática no nosso Algarve, a praça que mais espectáculos realizava e onde muitos toureiros iniciaram e consolidaram carreira. As suas inúmeras novilhadas e garraiadas tinham sempre muitos jovens amadores e praticantes e constituiam uma verdadeira academia. Fernando dos santos, matador de toiros nascido em Alcobaça, foi o seu criador e grande impulsionador.

Mas o Algarve, ao contrário do que alguns pensavam e outros dizem, teve uma grande quantidade de praças de toiros, entre fixas e portáteis que, nos verões levavam os aficionados que aí passavam as suas férias e muitos milhares de turistas, espanhóis, franceses, ingleses e alemães entre outros, a frequentar as diversas praças, com bilhetes a serem vendidos nas portarias dos hotéis e não só. E se no início, pela sua proximidade com Espanha, era Vila Real de Santo António com a sua praça a marcar cada temporada, depois foram Lagos, Alvor, Lagoa, Quarteira, Montegordo, Castro Marim, Portimão, Tavira, Estói e até Monchique a realizar espectáculos tauromáquicos onde muitos, como eu, tiveram a oportunidade de pegar ou lidar o seu primeiro novilho. Nos anos 70, 80 e 90 do século passado a tauromaquia conheceu uma forte expansão nesta zona do País.

Encerra-se agora um capítulo, mais um, de uma história que, devidamente conduzida e apoiada, nos permitiria ter toiros em tantas zonas do País. Não esquecemos que Viana do Castelo, Póvoa de Varzim, Espinho e Vinhais deixaram, no Norte do País, de dar toiros e Espinho viu a sua praça já desmantelada. Setubal continua em águas de bacalhau e ninguém sabe o que virá a acontecer...

Entretanto, da parte das associações do sector, e lá voltamos ao mesmo, nem uma sinal... Silêncio. E não é porque se canta o fado. Ninguém diz nada, porque será? Não interessa a quantidade de postos ocupados por artistas nos espectáculos que se realizavam em Albufeira? Não interessa a continuidade de uma tradição, também com uma forte componente de turismo? Andamos a fazer o quê?

Resta-nos esperar? Como sempre!!!

 

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