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BARREIRA DE SOMBRA

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

BARREIRA DE SOMBRA

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

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Sou um aficionado de longa data. Na minha opinião, por vezes banalizamos e não damos a devida importância às Praças Portáteis (PP) mas elas têm um forte cariz e um relevo enorme na difusão e divulgação da Tauromaquia, por este país fora.

Como facilmente se percebe, é natural o gosto por ir às praças tradicionais, sejam de 1ª, 2ª ou 3ª, já que são edifícios bonitos e antigos, com história e memórias, em cidades rendidas a esta secular tradição, e que têm melhores condições para a prática do toureio e para os aficionados.

À falta destas, as PP surgem como única alternativa. Uma vez comprados os bilhetes e já sentados na bancada, num primeiro momento, o ambiente envolvente, de certa forma desilude, por contraste à grande festa vivida em praças tradicionais.

Contudo, mal soa a banda ou a charanga e os cavaleiros, forcados e bandarilheiros começam a fazer as cortesias, logo nos abstraímos e ansiamos pelo grande espetáculo que vai começar dentro da arena. O momento é único e a emoção fica ao rubro!

Sai o 1º toiro e faz-se silêncio. Ele está muito perto do público, pode-se ver, com detalhe, a sua grandeza e imponência; também sentimos a valentia do cavaleiro e do seu cavalo, que interagem como um só, com aquele grande animal; a trincheira é pequena e nela estão os forcados que se preparam para a pega.

Se me perguntarem se quero ir para umas galerias / andanadas em las Ventas ou para um camarote no Campo Pequeno, digo abertamente que prefiro talvez estar sentado numa bancada de uma qualquer PP, pela proximidade que sei que vou sentir com todos os protagonistas da grande festa.

Desculpem-me a minha sinceridade, mas é o que eu sinto. Vivemos um momento particularmente complexo, no qual se avizinham tremendas dificuldades, sejam económicas, sociais e/ou financeiras, bem como politicas. Aqui, infelizmente, assistimos ao abuso de poder por parte de algumas autarquias que não respeitam a Lei e a tradição, que são apologistas do “politicamente correcto” e que mandam fechar ou demolir praças da velha-guarda (Póvoa de Varzim e Viana do Castelo). Por tal, afirmo, sem hesitar que: os eleitores dessa e de outras localidades devem punir os políticos que não respeitem a História e o Patrimonio cultural e artistico das suas cidades e que compactuam com movimentos anti-taurinos em absoluto desrespeito por aquilo que é o passado de um povo.

Por isso insisto que, as PP têm um papel fulcral e fundamental na divulgação da tauromaquia, dado que a sua versatibilidade permite recriar a festa dos toiros em inúmeros locais do nosso país, desde que haja genuina vontade e competência da parte dos empresários taurinos,autraquias que promovem e associação de festas , em escolher um cartel adequado ao plafond / orçamento e na selecção de um bom curro, que garanta a transmissão de bravura de casta em nome de um bom espectáculo.

Devemos pois apoiar as PP, dado que permite a muita gente nova, apreciar uma corrida e vivenciar uma experiência única na vida, repleta de alegria e peripécias, convívio e aplausos, piropos e palpites, num ambiente ímpar.

Uma nota ainda sobre o seguinte: na eventualidade de ser precisa assistência médica e à falta de enfermaria para prestar os cuidados imediatos, contamos obviamente com a colaboração dos Bombeiros Locais (já contactados) e do Hospital mais próximo.

O futuro da grande festa dos toiros depende de todos nós! Eu sou do Norte, da cidade do Porto e dava tudo por ver uma corrida por cá e se for numa PP, venha ela, que eu lá estarei . Olé !

Abraço,

Joaquim Filipe Mesquita

Porto 26/04/2020

Foto: facebook de Joaquim Filipe Mesquita

Carta dirigida à Ministra da Cultura Graça Fonseca

 

 

 

Lisboa, 23 de abril de 2020,

 

Exma. Sra. Ministra da Cultura Graça Fonseca,

 

Somos cerca de 1800 artistas e profissionais da Tauromaquia, representados nas associações abaixo assinadas, e decidimos vir por este meio endereçar-lhe uma carta pública com o intuito de partilhar consigo parte do ADN da cultura portuguesa.

Somos uma das áreas mais originais e autênticas da cultura portuguesa e uma das poucas áreas culturais que não têm programas de apoio. Incorporamos quase 100% de mão de obra nacional, exportamos cultura portuguesa, contribuindo para a divulgação da nossa cultura e para o equilíbrio da balança comercial. Fomentamos o turismo e temos de um impacto económico direto e indireto de muitos milhões de euros, criando emprego e riqueza, muitas vezes em regiões deprimidas do interior.

Estamos a viver tempos críticos e a cultura, tal como a Exma. Sra. Ministra da Cultura Graça Fonseca afirmou, terá um papel crucial quando o estado de emergência terminar. “A cultura tem o papel fundamental de devolver confiança às pessoas. Vamos querer sair, vamos querer festejar, estar na rua”, disse ao Observador.

Queremos promover a confiança, o festejo e a felicidade das pessoas porque é nestes momentos mais difíceis que a cultura é mais precisa do que nunca. Ela é “o alimento de primeira necessidade para a saúde mental” e não nos podemos esquecer disso.

O cancelamento de todas as atividades culturais do país sobretudo em territórios mais distantes dos centros urbanos é um desastre económico”, explicou vossa excelência, mais uma vez ao Observador, e nós - os artistas e profissionais da Tauromaquia - assinamos por baixo.

É tempo de “pegar o touro pelos cornos”, ir à luta, e muito importante, não deixar de forma nenhuma que o cancelamento de atividades culturais sejam uma tragédia para Portugal.

Representamos economia e emprego com uma implementação territorial diversa, entre norte e sul, urbano e interior. E aqui passamos a citá-la novamente: “Para alguns territórios, até mais do interior, a economia local tem um fortíssimo contributo de atividades culturais [por exemplo] de um festival, de uma bienal, de um conjunto de atividades que acontecem com bastante regularidade, já para não falar em tudo o que são eventos de natureza mais local”, declarou ao mesmo órgão de comunicação.

 

 

A nossa atividade é muito particular. Por exemplo é sazonal e, por esse motivo, é mais afetada pela paragem total dos espetáculos. As largas dezenas de espetáculos já perdidos e os que ainda não serão realizados, são impossíveis de recuperar. Este infortúnio retira-nos meios para obter receitas e suportar custos com um valor elevado, como a alimentação e manutenção de cavalos, a preparação técnica e artística, as equipas de tratadores, veterinários entre muitos outros. A preparação da produção dos espetáculos desta temporada já foi iniciada há largos meses e a sua não realização acarreta avultados prejuízos em investimentos perdidos e reduções drásticas de receitas.

Para vossa excelência estar a par, cada corrida de toiros precisa de cerca de 170 intervenientes diretos. É urgente que se tomem medidas de apoio nesta fase, que tenham em conta as particularidades deste setor que tutela, e é necessário preparar a fase de retoma dos espetáculos com medidas adaptadas, por exemplo corrigindo com urgência o IVA dos espetáculos tauromáquicos para 6%, que é agora uma medida incontornável de apoio social à cultura e aos artistas.

Toureiros, empresários, pessoal técnico, campinos, artesãos e alfaiates…e, sem esquecer os forcados amadores, todos são fundamentais para a existência da cultura taurina, tal como o para o efeito económico e riqueza que gera, alimentando famílias e regiões.

Temos várias propostas de medidas que queremos partilhar pessoalmente com vossa excelência e esperamos que aceite discuti-las como decorre da sua obrigação governativa de tutela deste setor.

Terminamos esta carta com um pedido importante. Solicitamos, uma vez mais, uma reunião com a Exma. Sra. Ministra da Cultura para ouvir os artistas e profissionais deste setor cultural e perceber o motivo pelo qual fazemos parte do ADN da cultura portuguesa.


Agradecendo desde já toda a atenção dispensada,

Cordialmente aguardamos a resposta de sua excelência,

Associação Nacional de Toureiros
Associação Portuguesa de Empresários Tauromáquicos
Associação Nacional de Grupos de Forcados

 

 

 

Este é um livro editado em 1932 em Lisboa pelo próprio autor, com uma pintura da autoria de Simão da Veiga na capa e onde se aborda a temporada tauromáquica de 1931 pela pena do reputado crítico tauromáquico, a par de dois capítulos inéditos e intitulados «As Cortesias» e «Fugir», este último de inegável interesse pela abordagem mordaz que faz da tourada à portuguesa, aliás, severamente criticada de princípio a fim da obra.

 

Falamos de 1931, ou seja, há quase 80 anos atrás. O texto que passamos a transcrever é extraordinário.

 

«Fugir...

 

Como tive ocasião de lembrar, corrida de toiros é uma coisa e tourada é outra.

 

Insisto novamente neste ponto, porque, sendo tão partidário de uma como inimigo da outra, não posso tolerar que se confundam os termos.

 

Se é verdade que na sua origem pretendiam definir a mesma coisa, não há dúvida também de que o andar dos tempos encarregou-se de dar a estas duas expressões significados totalmente distintos e quási opostos.

 

Corrida de toiros é aquela festa varonil e galharda, maravilhosa de vida e de côr, de sangue e de tragédia, que brilha nos redondéis da Espanha, da França, das Repúblicas Sul-Americanas e de outros provos igualmente «bárbaros» e que brilhou pela última vez em Portugal no ano de 1927, naquela tarde saudosa de Vila Franca de Xira. Tourada é a pantomina que se faz com toiros embolados, num paiz civilizadíssimo como o nosso.

 

Fugindo ao lugar-comum duma explicação sentimental, da mesma forma não vou enfastiar-vos com a análise demorada duma coisa e doutra: sem remontar às causas e preocupando-me apenas com os seus efeitos, vou apenas dizer o que em síntese, na minha opinião pessoal, distingue, sob o ponto de vista técnico, uma corrida de toiros de uma tourada.

 

É simples: Diz-se em duas palavras: na corrida de toiros, toureia-se; na tourada – foge-se.

 

O que tecnicamente caracteriza a tourada é, com efeito, a fuga. Enquanto que na chamada corrida à espanhola a primeira coisa que se trata de fazer logo que o toiro sai é «cortar-lhe os pés», quere dizer, reduzir-lhe a velocidade, «pará-lo» mesmo, para que a lide seja levada com consciência e com a maior igualdade possível, permitindo-se, simultâneamente, que o toureiro veja que espécie de toiro tem pela frente e que êste se aperceba, por sua vez, de quem o desafia e combate, em Portugal toureia-se de preferência a «toiro levantado», isto é, enquanto êste conserva as possibilidades de uma velocidade inconsciente e desnorteada e leva-se a lide, por conseguinte, a todo o galope, ou, pelo menos, a correr. Ora, numa contenda em que os dois adversários passam o tempo a correr, é de supôr que um dêles foge. E partindo do princípio que foge só um e que o outro persegue, é natural que êsse um seja o homem. Logo, o que o toureiro faz com mais frequência na nossa tourada é – fugir.

 

Vejamos se se demonstra. Estudemos rapidamente os três comparsas da festa: o cavaleiro, o bandarilheiro e o moço de forcado.

 

No toureio a cavalo – que os nossos, aliás. Praticam com uma mestria inexcedível (e era o que faltava que assim não fôsse!) todo o ferro que não é metido entrando o cavaleiro de caras e rematando ao estribo, é um ferro a fugir (e são frequentes). Veja-se a «garupa» que não é outra coisa, e essa sorte do «sesgo» a cavalo ou ainda a de «cambiar terrenos», que se rematam forçosamente «fora de cacho» - que é como quem diz a fugir.

 

Vejamos agora o bandarilheiro nos seus vários aspectos: como auxiliar da lide, como colocador de bandarilhas e ainda, em casos excepcionais, com o muletero.

 

Como peão de brega a sua acção é nula. É uma calamidade! Com raríssimas excepções – essas mesmo duvidosas – aqui ninguém brega: quem se brega a si próprio é o toiro. (...)”

 

Este é um excerto do livro e dos magníficos (e por vezes corrosivos) textos que o compõem.

Na nossa literatura de cariz tauromáquico encontrei um livro que, pelo seu título, me despertou a máxima curiosidade. Quando o folheei na feira de antiguidades de Aveiro, não hesitei e decidi trazê-lo comigo. Sem pretenciosismos, o autor desdobra-se entre a tradição dos fados e das toiradas e, nestas, consegue dar uma imagem interessante ao leitor. Por isso não hesitei também em trazer-vos hoje estas páginas magníficas do livro bem como algumas fotos de inegável interesse, nomeadamente as que se referem ao toureio a cavalo. Atentem bem nas diferenças entre algumas dessas fotos (de figuras dos anos 50/60 do século passado) e no que vemos actualmente nas nossas arenas!...

 

O TOUREIO EM PORTUGAL

RESUMO HISTÓRICO

NOS princípios do século xvii, encontramos, na Peninsula Ibérica um toureio já perfeitamente estabelecido, embora apenas no que se refere à lide a cavalo, com rojão, consequência do aperfeiçoamento dos torneios do século xvi em que se alanceavam toiros, com bem menor sentido artístico mas obedecendo a regras e deveres, intimamente ligados às tradições gerais da cava­laria medieval.

 

Por então, existem já verdadeiros tratados desse toureio que, aper­feiçoando-se gradualmente, chega a atingir um período de verdadeira grandeza e brilhantismo. Para isso, muito contribuiu o facto de ter-se tornado diversão de fidalgos e ser a sua prática sintoma de virilidade e nobreza. Por esse motivo, quase todos os preceitos estabelecidos oebedeciam a preconceitos especiais de honra e cavalheirismo.

 

Só os nobres cavalgavam e assim iludiam as arremetidas dos touros, apenas com o auxílio dos chulos (a que hoje chamaríamos «peões de brega») que eram lacaios dos fidalgos toureiros e a quem se não permitia mais que servir o seu senhor durante as lides ou acorrer em seu auxílio, primeiro a corpo limpo, mais tarde usando enganos ou defesas — pequenos pedaços de pano, chapéus, etc.

 

Em 1669, Carlos II de Espanha morre sem descendência e o problema dinás­tico é resolvido pelo próprio testamento do monarca, que designa, para o trono de Espanha, o duque de Anjou, filho segundo do Delfim de França, que viria a ser Filipe V. De sensibilidade naturalmente diferente, logo mostrou o seu desacordo com os espectáculos tauromáquicos e tanto bastou para que os fidalgos, evitando desagradar ao soberano, deixassem de sair a terreiro para dominar e matar toiros.

 

O povo, a que os lacaios pertenciam, é que não sentiu a menor necessidade de agradar ao rei e dando largas ao seu entusiasmo pelo toureio, continuou prati­cando-o, tal corno vira aos grandes senhores. Surgem os primeiros profissionais e constroem-se, de madeira, as primeiras praças, que depressa se tornam insufi­cientes, dado o interesse com que o público acorre a elas. Por essa altura, principia a operar-se uma modificação profunda porque, faltando ao povo tempo e haveres para amestrar cavalos e sendo dada a maior liberdade de acção aos que a pé actuavam, essas circunstâncias acabaram por ir relegando para plano secundário o toureio equestre, à medida que se desenvolvia o que a pé já praticavam e tão do agrado público estava sendo que logo recebeu verdadeira legião de praticantes.

 

Ao voltar Filipe V ao trono, depois de uma abdicação a que teve de renunciar pela prematura morte do príncipe seu filho, regressaram os fidalgos às lides da arena, encontrando, porém, um ambiente francamente desfavorável, enraizadas como já estavam, no espírito popular, as novas formas do toureio e a modificação trazida à estrutura do espectáculo. Portugal os atraiu então e para cá vieram, seguindo o exemplo de outros, que se tinham estabelecido no nosso país, mal se definiu a animosidade do pouco aficcionado soberano. Com esses excelentes cultores estran­geiros a engrossar o número dos cavaleiros nacionais que, tão brilhantemente praticavam já a modalidade, cujos princípios estavam perfeitamente dentro dos moldes de bizarria e cavalheirismo dos fidalgos lusitanos — todos eles com um passado mais ou menos ligado a façanhas de cavalaria — estabeleceu-se, em Portugal, uma arte nova, perfeitamente independente e profundamente nacional: aquela que viria a chamar-se «Arte de Marialva».

 

Tornada desporto favorito de nobres, estes saíam para as lides, animados por uma afición de tal forma ligada e sujeita a preconceitos de honra que, sem olhar ao perigo que corriam, operavam prodígios de arte e verdadeiras loucuras de teme­ridade. Frequentes revezes furtaram ânimo a alguns que, amparados pêlos sobe­ranos, sempre lastimosos dos vassalos perdidos, foram diminuindo as probabili­dades de perigo, até quase totalmente as banirem das arenas, pois a abolição da morte do toiro em praça reduzia naturalmente os deveres dos lidadores. Abria-se desta forma caminho para o estabelecimento da embolação das hastes.

 

Os forcados vieram então até às praças, com a bizarra alegria dos seus trajes, dar a nota de valentia e emoção que as referidas modificações tinham diminuído.

 

Sem que os fidalgos totalmente abandonassem as arenas, em Portugal, tal como acontecera em Espanha, passou o toureio a constituir profissão, e de todas as classes sociais surgiram entusiastas, para. a troco de salários, envergar a casaca do cavaleiro, a jaqueta do moço de forcado ou o trajo bordado do bandarilheiro. De notar, porém, que, na actualidade, não se verifica em Portugal, entre cavaleiros e forcados, verdadeiro profissionalismo, os primeiros porque praticam o toureio por mero prazer e os segundos porque, na sua maior parte pegam toiros por simples tradição e sem qualquer pagamento.

 

A  GANADERIA - O  TOIRO   DESDE  QUE   NASCE   ATÉ SER LIDADO 

 

O    toiro de lide é um produto genuinamente ibérico. Os campos irrigados da Península, tão ricos em sais, constituem a zona, por excelência, para criação de toiro de lide, em manadas que tomam o nome genérico de ganaderias. A «ganaderia» é, pois,  um conjunto  de  gado bravo, necessário a conservação, reprodução, selecção e apuramento de reses destinadas ao toureio.

 

É esse conjunto constituído pela vacada, propriamente dita (formada pelas fêmeas), pêlos toiros sementais (cujo fim é padrear) e pêlos produtos de ambos. Tem cada grupo vida separada, o último deles com uma subdivisão constituída pêlos toiros feitos e que se acham aptos a ser lidados na praça. O seu tratamento obedece a quantos cuidados a experiência recomende.

 

Motivo de principal preocupação são as características, em tipo e bravura, das reses nascidas na ganaderia, o que constitui a melhor indicação do acerto ou erro com que se agiu anteriormente. E é esse o aspecto de maior importância para quem se dedica à tarefa de criar gado bravo, já por espírito de «afición», já por interesse comercial. Os sementais de uma ganaderia devem pois possuir, além do melhor sangue, excepcionais características de bravura e serem de formas belas, sãs e robustas. A vacada, por seu turno, deve ser constituída por fêmeas de exce­lente constituição orgânica, de bom sangue e bravura, divididas consoante a sua corpulência e em tantos lotes quantas as características físicas dos sementais, pois é de maior importância não existir demasiada desproporção entre toiros e vacas destinadas a procriar. Qualquer toiro pode padrear desde os dois anos, mas a idade mais recomendável é depois dos 3 anos.

 

As vacas podem também ser mães aos dois anos, mas a experiência indica que é preferível sê-lo só depois dos três. De então em diante, e até aos doze, pode pro­criar anualmente, muito embora haja criadores que as fazem descansar em anos alternados, o que constitui mais um luxo que propriamente uma utilidade.

 

Numa ganaderia, regularmente constituída, deve existir um semental para cada grupo de cinquenta vacas.

 

Os sementais são reunidos à vacada por espaço de noventa dias e geralmente na Primavera. Desta forma, o aparecimento dos novos seres verifica-se no Inverno, quando os campos, ricos em verde, podem assegurar às mães abundância de exce­lente leite. A nova cria mama até aos quatro meses, idade em que principia a alternar com o leite materno a apetitosa e tenra erva que sabe eleger entre a melhor. Cerca dos dois meses dá-se a desmama. Então o bezerrinho, senhor de si mesmo, vai para o campo, em plena liberdade, até que, ao completar o ano, é sujeito à ferra, que pode ser em campo aberto ou no tentadeiro ou pátio da pro­priedade. Consiste a «ferra» em marcar os bezerros com o sinal e número de ordem da ganaderia. Para isso sé pegam e derrubam os animais, sujeitando-os no solo, única forma de consentirem que o ferro em brasa com a marca do ganadeiro e número de ordem lhe queime a pele, indelevelmente, o primeiro na parte superior da "perna direita, o segunda sobre as costelas do mesmo lado.

 

Da maior importância é a tenta, que constitui a melhor forma de avaliar as qualidades de bravura das reses. Para isso toda a ganaderia tem o seu tentadeiro, que não é mais do que um amplo pátio, de forma redonda ou quadrangular, fechada por um muro suficientemente alto. tendo uma porta para o campo e outra de comunicação com os currais. Alguns têm acomodações para convidados, lem­brando pequenas praças de toiros. O pátio deve ter um arranjo como se fosse uma arena, mas em lugar de trincheira, terá apenas «burladeros» — espécie de tapumes fixos no solo e erguidos a uma distância do muro que permita aos homens refu­giarem-se atrás deles, sem contudo ser bastante afastado que consinta a entrada das reses. A tenta é realizada pelo «tentador» (cavaleiro armado de vara de castigo) com a presença do proprietário e pessoal superior da ganaderia. Colocado o tentador (geralmente um picador profissional de reconhecida competência) no extremo oposto à porta dos currais, aguarda a rês, que, ao sair, não deve ser distraída por qualquer ruído ou vulto. Todos os lidadores profissionais ou ama­dores que, armados do capote de brega estão no pátio, para acudir em caso de necessidade, devem esconder-se por detrás dos burladeros. É tão importante isto que em dias de vento ruidoso ou mesmo quando a brisa traga ao tentadeiro o perfume característico da campina, se devem evitar as tentas. É necessário que a rês, liberta de qualquer influência, forneça, de facto, a medida do seu valor. Para isso, apenas entra, se observam cuidadosamente todos os seus movimentos que repre­sentam a forma como reage perante a surpresa de um ambiente totalmente des­conhecido. Achando-se só, a rês procura investir e reparando no cavalo acaba por arrancar contra ele. Sofre então o castigo da vara, que o tentador deve dar com a 'maior perfeição. Assim se vê o comportamento do animal. Se recarga, isto é, se se manifesta enfurecido pelo castigo e insiste, indiferente à dor, pertendendo derrubar cavalo e cavaleiro, fornece excelente sintoma de bravura; se, pelo con­trário, mal sente o castigo, foge, denotando cobardia e não volta a atacar o picador, não há dúvida que é mansa a rês.

 

Do comportamento dos animais tentados, vão-se tirando notas e, finda a observação, tratando-se de vacas, convém toureá-las, para se apreciar como obe­decem ao engano, o estilo da investida, etc. Finda a prova, a rês é restituída à liberdade pela porta que comunica com o campo. Algumas, nesse momento, negam-se a abandonar o pátio, voltando-se para ele, ameaçadoras e altivas, como num desafio. É também excelente sintoma de bravura.

 

Nas tentas, o procedimento é o mesmo tanto para fêmeas como para machos — estes últimos, porém, não dever ser toureados e é até recomendável que nem sequer vejam um capote. Dotados de excelente memória, logo denotariam o facto quando saíssem às arenas. Porque o tentadeiro pode dar a conhecer um ambiente semelhante ao de uma praça de toiros, é preferível para os machos a tenta em campo aberto, mais bela, colorida e movimentada do que a realizada no pátio. Dois cavaleiros (collera) separam das outras a rês que querem tentar, servindo-se para Isso de longas varas com que, de seguida a perseguem (acosso) até a condu­zirem ao local onde se encontra o tentador — o mesmo que picou no pátio. Aí a rês perseguida, vendo que lhe tapam o caminho, num instinto de defesa, ataca o picador que, tal como no tentadeiro, a castiga. Quanto mais varas toma e mais ferozmente responde a elas, tanto melhor nota terá esse futuro toiro, que assim dá prova da sua bravura ou mansidão.

 

Após a tenta, o futuro toiro é restituído à liberdade, e aí, em pleno campo, acaba de formar-se no ambiente próprio, entre companheiros com os quais briga, por vezes, ante a impassibilidade dos assistentes, cuja intervenção só se dá para acossar o vencido que. abatido, busca um refúgio para sarar ferimentos e esquecer a derrota.

 

O toiro, em manada, comporta-se como um animal pachorrento e calmo, de olhar sereno, sem qualuqer aspecto de bravura. Isolado, é temível e, investe sem se impressionar com o tamanho ou forma dos objectos que lhe suscitam a fúria. O cheiro do sangue, excita-o extraordinariamente. Tem prodigiosa memória, o que o torna perigosamente vingativo. A inteligência é reduzida, sendo contudo nobilíssimo a atacar, de uma maneira bastante uniforme, quase comum a toda a espécie.

 

Aos três anos, deve o toiro possuir boa estampa —trapío— e embora não tenha atingido pleno desenvolvimento, o seu aspecto deve impressionar pela cor­pulência e beleza física, com perfeito equilíbrio de formas. Se tiver a pele fina; pêlo lustroso, espesso e liso; cabeça relativamente pequena; cornos bem colocados, fortes, ponteagudos, escuros, de regular tamanho e igualmente abertos e arquea­dos; orelhas pequenas e nervosas; cachaço —morrilho— grande, gordo e proe­minente; papada pequena; peito amplo; ventre deprimido: linha dorsal bem marcada; garupa larga e bem musculada; ancas ligeiramente elevadas; cauda comprida, grossa na parte superior, adelgaçando até terminar, em fartos cabelos; articulações bem pronunciadas e flexíveis; membros curtos, mas fortes, e patas pequenas, pode considerar-se um exemplar perfeito, digno de honrar o ferro que ostenta, quando um dia sair para a luta do redondel.

 

Para complemento desta breve descrição da vida das reses bravas no campo. basta acrescentar que as manadas são guardadas e cuidadas por criados (em Portugal, campinos; vaqueiros, em Espanha), uns a pé. outros a caavlo e com diversas categorias, auxiliados nesse trabalho e nas conduções pêlos cabrestos — bois mansos amestrados— que envolvendo os toiros e misturando-se com eles, os levam, inconscientemente, através dos campos, pelas estradas e povoações, ou entre as paliçadas que formam um corredor propositadamente armado e a. que se dá o nome de manga.

 

Apesar do que ficou referido quanto ao comportamento do toiro na ganaderia, nem por isso pode esquecer-se o perigo que representa a proximidade e o convívio com ele, posto que são muitas as circunstâncias que podem influir no espirito das reses bravas, a provocar, inesperadamente, alterações desse mesmo compor­tamento. Por outro lado, sendo necessário, com frequência, realizar conduções e apartados, durante os quais os toiros se mostram surpreendidos e desconfiados por aspectos que lhes não são habituais, nessas alturas, é vulgar manifestarem, de súbito, toda a bravura que os leva a acometer, furiosamente, seja contra quem for. Então, no clima normalmente sossegado da lezíria surgem momentos de exci­tação logo traduzidos em perigo, pairando no ar, com estranha presença, a ameaça de morte. Por isso a missão do guardador de gado bravo é cheia de dificuldades, até porque em tais emergências, não lhes é recomendável denunciar medo ou sequer fraqueza — o que faz do campino um verdadeiro herói da Lezíria, a quem se exige o maior sangue-frio e um espírito de sacrifício que talvez não exista em qualquer outra profissão.

 

Por tais motivos, esta referência à criação do toiro de lide ficaria incompleta sem a homenagem merecida por essa figura humilde que tantas vezes tem de agigantar-se para dominar o perigo ou mesmo salvar a própria vida.

 A portuguesa tradição do toureio a cavalo se referem já crónicas de Strabao, citando os antigos lusitanos como amigos dos jogos hípicos, com touros, e outras que dão notícia de D. Sancho 11 alanceando touros ao estilo da época, e as de Fernão Lopes em relação a D. Fer­nando, e as de Garcia de Rezende que descrevem el-rei D. João II no gosto pelas touradas e fazendo frente e matando à espada um touro que em Alcochete lhe saiu ao caminho quando ia com a rainha. Outras crónicas descrevem façanhas do rei D. Sebastião como toureiro a cavalo, e dizem que o neto de Carlos V rojoneou em Cadiz, de abalada para o sonho de Alcácer. E muitos monarcas foram toureiros a cavalo, até D. Miguel que farpeou em Salvaterra, e na praça de Xabregas desta cidade de Lisboa, que teve redondéis no Rossio, no Terreiro do Paço, na Junqueira, no Largo da Anunciada, no local onde está o jardim da Estrela, no Salitre, no Campo de Santana e agora no Campo Pequeno. D. Carlos criou touros e D. Luís e D. Miguel entraram em tourinhas. E quantos fidalgos lanceando e rojo-neando nas festas dos nascimentos de príncipes e das suas bodas e nos torneios peninsulares com os continuadores del Cid e de Villame-diana, nas Praças Maiores de Espanha, em no­bre competência, por sua dama, em alardes de valentia e de pompa pela gente de cada bando, a cavalo e a pé, com as armas e as cores de cada qual!

 

Em Portugal manteve-se e aperfei­çoou-se a Arte de Marialva, tomando o nome do grande senhor e cavaleiro a quem mestre Andrade dedicou o seu famoso tratado de equitação. Desde aqueles tempos, e até aos nossos dias, tëem sido sucessivas as gerações de cavaleiros tauromáquicos. Estes e os forcados são os representantes do toureio português, uma vez que os bandarilheiros, e os antigos «capi­nhas», quási se limitam a imitar, até na indu­mentária, os seus iguais de Espanha.

 

Os cavaleiros tauromáquicos tëem indu­mentária própria: a casaca bordada e o tricórnio de plumas, e botas altas à Relvas — outro bom cavaleiro, do século xix, em que brilharam também Mourisca, Tinoco, Castelo Melhor e outros.

 

E os forcados, que, como os campinos, são do Ribatejo, terra dos touros, também ves­tem de forma característica, e também tëem sua arte, porque não é apenas função de força o pegar um touro de cara, de costas ou de cerne­lha. Há que saber cair na cabeça da fera, evi­tando a violência do choque quando, para colher, humilha, e depois agüentar-se, «embar-belando» bem, ou, na melhor ajuda, torcendo bem a «pombinha», vértebra da cauda. E para se julgar da arte que pode caber em sorte tão rude, basta ver os últimos grupos de forcados--amadores, como os de Santarém e de Monte-mor, tão elegantes e pundonorosos, e até alguns profissionais que sabem dar terreno, com ritmo, com graça, como Edmundo e Garrett e os seus valentes conterrâneos do Ribatejo.

 

E tem ritual a sua aparição com a azémola das farpas, estas em duas arcas cobertas com pano rico, de veludo, que eles desdobram cuidadosa­mente ante a presidência, que manda recolher as caixas com os ferros para o uso da lide. De­pois retiram-se os forcados para saltarem à arena quando o «inteligente» entende que o touro mete bem a cabeça e as hastes permitem a sorte. Os cavaleiros surgem, então, para as cortezias, outrora feitas ao som do hino real, caminhando passo a passo até sob o camarote da presidência, que saúdam em vénia de cabeça descoberta, depois recuando cerimoniosamente, voltando a avançar para se separarem nos cumprimentos às quatro partes da assistência, la­deando e cruzando-se no meio do redondel, e sempre no cuidado dos cavalos bem ensinados, e na praxe dos movimentos.

 

Assenta o toureio equestre em três princípios básicos: cravar de alto a baixo, ao estribo, e sem deixar tocar a montada. E, de uma maneira geral, além do mérito de equitador, necessita o cavaleiro de ser toureiro, isto é, de conhecer os touros e saber medir os terrenos. Carece o cavaleiro de firmeza de joelhos para as reac-coes do cavalo, que o deve temer mais a ele, que ao touro, boa mão esquerda para mandar rápido, e boa direita para cravar, com pulso para aguentar a resistência, e certeza para en­contrar o sítio próprio, com precisão. E o ca­valo deve estar ensinado para todo o toureio, especialmente para entrar e sair nas quatro sor­tes clássicas: de cara, à tira, à meia volta e à garupa. E quando tudo corre bem, em tarde quente de verão, e o público, entusiasmado, aplaude cavaleiros e forcados, estes agradecem juntos, abraçando-se num gesto simbólico do seu convívio nos campos de Portugal — que a ambos dá o pão, o azeite, o vinho, e a alegria de viver ao sol.

 

EL TERRIBLE PEREZ

 

Fotos de Carmelo Vives, C.Figueiredo, António Campelo e F.Sebastian

In, Panorama, Toureio Português, número especial, 1945, Lisboa

Sempre ouvimos falar do toiro como eixo central e fundamental da Festa Brava; sem ele não existiriam corridas  nem a arte que, ao longo dos últimos dois séculos tem influenciado costumes e tradições, artes plásticas, musicais, literárias, etc... É todo um manancial com muito ainda por explorar e potenciar.

 

As reportagens de campo servem para nos acercar aos toiros e aos nossos leitores e ouvintes explicar-lhes um pouco mais do labor que é a criação do toiro de raça brava de lide, produto criado e potenciado pelo Homem, milagre da zootecnia e cuja psicologia comportamental é ainda um campo muito vasto para a investigação e produção de teses.

 

Contudo, em muitas obras de referência, de autores como Cossío ou Juan Pedro e Álvaro Domecq y Díez, é analisado o toiro desde um ponto de vista de evolução histórica e seu enquadramento em face de cada época que viveu a Festa e até aos mais recentes estudos científicos e selecção científica actual.

 

Nas minhas viagens de defeso, e desta vez em plena cidade de Salamanca encontrei mais um livro, de grande formato, intitulado “LOS TOROS” – La Gran Enciclopedia del Espectaculo, da autoria de Antonio Abad Ojuel Don Antonio e Emilio L. Oliva Paíto, editado em 1966 em Barcelona por Libreria Editorial Argos. Dele retirei extractos do texto que vos apresento sobre o toiro de lide.

 

“El Toro en el Ruedo”

O toiro na arena

 

O primeiro sintoma de que o percurso final começou, sente-o o toiro quando lhe colocam a divisa. O picotazo excita o animal que ao mesmo tempo vê que se abre a porta que o separa da luz. Com ímpeto toma esse caminho, ao fundo do qual o torilero o provoca, e o toiro – quatro anos de cuidados – encontra-se perante os quinze minutos que decidem toda a sua história: começa a lide.

 

Os estados do toiro

 

Durante a lide – no fundo, agora e sempre uma luta até à morte – fala-se classicamente dos distintos estados pelos quais o toiro passa: melhor se poderá falar de uma sequência de paulatina diminuição do poder, de uma uniformemente acelerada fadiga sem solução de continuidade; mas os clássicos falaram do toiro levantado, parado e aplomado, e a rotina obriga a seguir a acostumada nomenclatura. Mas fique claro que o que se chama de distintos estados não são, nem mais nem menos, que a manifestação da crescente debilidade do toiro pela perda de sangue e o cansaço muscular e respiratório da duríssima peleja; estes são os motivos pelos quais o toiro, que por instinto de conservação trata de poupar forças e dar aos seus ataques a maior perigosidade, reaja de modo distinto face a estímulos análogos: é a isto que se foi chamando estado.

Levantado o encontram á saída... excepto no caso em que tenha uma saída de sonâmbulo, o que também abunda;(...) Mas o normal é que saia dos chiqueiros com a cabeça bem levantada, correndo com força, persiga tudo e todos, sem se fixar, e se é bravo e vai cego ao engando, remate em tábuas. Tem-se isso como sintoma de bravura. Assim corre pela arena e toma os primeiros capotes de peões ou os lances do matador de turno. Quando estes terminam – é a hora da meia verónica – o toiro recupera respirando com alívio por tantas correrias e observa com mais atenta fixação o que acontece à sua volta. Está parado.

 

O seu modo de investir é agora mais atento: acode ao cavalo, ao capote ou ao toureiro não como uma consequência da sua louca correria inicial, mas pela decisão voluntária da sua bravura; ou fugirá por falta desta para não investir senão como recurso contra os que o acossam. É então – e já o fazia observar Paquiro – quando descobre  o seu temperamento e as suas condições; quando pensa que todos os terrenos são seus , se o toiro é bravo, ou busca o lugar propício de recusa e refúgio, se é cobrade; quando luta ou se enquerença.

 

Mas a lide segue, e a luta em varas não tarda em produzir o seu extenuante efeito; o toiro compreende instintivamente que deve aproveitar cada um dos seus movimentos para deles sacar a máxima defesa, todo o possível poder de ataque. Não investe senão quando crê ter a presa segura, está aplomado, sente que as suas patas são de chumbo , todo ele é de chumbo; o toureiro sente o seu peso.

 

Por instinto, o toiro busca apoios para a sua defesa, procura os lugares da praça em que crê proteger-se melhor; a porta dos chiqueiros, por onde lhe chega o odor animal dos currais onde podia estar a sua momentânea libertação; as tábuas da trincheira, onde pode apoiar-se e ver vir de frente os seus opositores. Estes são lugares de querença normal; mas para o toiro de bravura ideal não há querenças, tal como para o toureiro dominador não há terrenos do toiro. Algumas colhidas poderiam ter sido evitadas se se tivesse em conta esta regra geral dos terrenos e das querenças.

 

O toiro ante a afición

 

Os aficionados actuais – salvo excepções que não fazem mais que confirmar a regra – gostam de um tipo de toiro que seja de bela presença, cumpra em varas, invista com nobreza e não coloque problemas aos toureiros, a fim de lhes permitir fazer uma larga faena, quanto mais adornada e variada melhor. Um toiro – como antes se disse – que seja mais colaborador que oponente; esta é a realidade. E apesar de ser certo que quando sai um animal com poder, que derriba com estrépito, existe um certo público nas bancadas que desencadeia ovações, também é certo que estas degeneram em assobios e aborrecimento se o matador de turno não pode fazer ao poderoso animal a faena de quinta-essência e plástica que cada dia se deseja ver.

 

Para satisfazer as exigências dos aficionados bastaria que se lidasse o toiro quatrenho que regulamentarmente está estipulado, mas não se pode fechar os olhos de que os tércios se mudam com uma só vara – por vezes com um só picotazo que «no há partido un pelo» -, o público, na maioria das vezes, não abronca o matador que pede a mudança de tércio, mas ao presidente que fazer fazer cumprir o disposto e fazer com que o toiro tome as varas que assinala o Regulamento.

 

Ou seja, os aficionados – talvez se lhes deva chamar público simplesmente? – o que os molesta é ficar sem faena; e quando detectam no toiro um defeito qualquer para uma lide de grande porte plástico, deixam de valorizar as boas qualidades que o animal pode ter e resignam-se com a passividade do toureiro.

 

Seria aconselhável que os aficionados se interessassem mais pelos toiros e aprendesse a valorizar as façanhas toureiras em função do astado com que foram realizadas. É certo que passaram os tempos do refrão «os toiros de cinco e os toureiros de vinte e cinco», que aludia à idade dos dois termos essenciais da tauromaquia, mas ainda em época dos toiros e toureiros jovens devia voltar a perfilar-se  mais a potência do toiro para a sua luta.

 

Os mesmos escritores taurinos sintetizam com uma breve frase o jogo de uma corrida; porém, anotaram com minuciosa exactidão varas, lances e quedas para chegar à conclusão de que «foram nobres e manejáveis«, por exemplo, ou noutro caso «broncos e difíceis»; mas raras vezes dizem a razão de uma ou outra frase sintética.

 

HONRAS AO TOIRO BRAVO

 

Apesar de parecer que o público guarda o seu juízo sobre o jogo da rês até ao momento da morte, por via excepcional pode expressar a sua opinião antes que o espada consume a sorte de matar. Estamos perante o facto pouco frequente (...) de que o público solicite o indulto da vida do toiro que teve um comportamento extraordinário.

 

Indulto do toiro bravo

 

É costume que tem tradição, de largos anos; em Espanha e no México surgiram em ocasiões movimentos sentimentais dos aficionados comovidos pela beleza da luta de um toiro extraordinário.

 

Na base da petição está a admiração pela bravura, e também um desejo de fazer justiça a quem lutou com todas as suas forças contra um destino inexorável. O desejo de não perder tanta semente de bravura coloca o toque definitivo a esta petição a que acede a autoridade quando a petição é clamorosa. Ou quando a pede um toureiro triunfador (...).

 

Tudo é bom para a corrida e para a Festa, quando é sincero; ao contrário, tudo é mau quando o móbil é o da propaganda. Ao reunir-se numa só mão as condições de ganadeiro, apoderado exclusivista e empresário, tudo está numa só mão; tudo menos a autoridade e o público. Bom será que ambos  repassem o conceito de bravura e apenas se salvem de morrer à espada – arma de cavalheiros – os toiros insuperáveis.

(...)

 

A volta ao ruedo

 

Quando o toiro deu grande lide, mas não se solicita o seu indulto, o Regulamento autoriza que se lhe dê uma volta ao ruedo no seu arraste. Nesse caso, se há petição maioritária do público, a presidência ordená-lo-à mostrando um lenço azul.

(...)

 

Epílogo do toiro

 

Em vez das petições extemporâneas e impopulares com que certos matadores solicitam e certas presidências acedem ao indulto ou à volta ao ruedo do toiro não porque tenha dado um jogo inesquecível mas «apenas porque assim convém», o que os bons aficionados devem desejar é o respeito ao toiro na praça; dar-lhe o trato que deve receber o digno rival do valor do toureiro.

 

Mas muitos destes esquecem o seu carácter nobre, o seu ilustre sangue, a sua pura raça; em contraste com Domingo Ortega, que diz que «ao torio não se deve burlar nem enganar com vantagens», inventaram-se os chamados passes do “desprezo”, e entre os desplantes – toureiros e galhardos quando feitos perante um toiro bem dominado – intercalaram modos e modas humilhantes. (...)

 

Domingo Ortega, em “El Arte Del Toreo”, afirma que quem com a sua faena «não submeteu o toiro, é porque não praticou o gosto do bem fazer, que é um prazer ao qual até as feras se entregam». Isso deve ser o toureio: o gosto do bem fazer!

 

E com ele perfecciona-se a corrida como obra de arte criada integralmente pelo homem: toda, incluida a bravura do toiro.

(...)”

In, pp 102 e ss, “Los Toros – La Gran Enciclopedia del Espectaculo”, 1966, Editorial Argos, Barcelona. Autores: Antonio Abad Ojuel Don Antonio e Emilio L. Oliva Paíto,

 

Em Divulgação Literária Taurina damos a conhecer excertos de mais um dos vros do célebre escritor e crítico taurino Pepe Luiz, escrito há 85 anos.

 

“ANTELOQUIO

Os factos vão sucedendo como no desenrolar duma interminável fita, e a mão não se cansa de fazer deslizar sobre o papel a pena que o meu espi­rito obscuro, mas decisivo e forte, impele, movido pela mais sincera das vontades.

 

A energia recrudesce e a ideia revigora ante de­terminadas atitudes que se avolumam e intenções que sé esboçam, quando vejo em tudo isto o mal disfarçado antagonismo que anceia tocar a minha sensibilidade e até ferir sentimentos que me sào muito caros, muito intimos, muito pessoais.

 

Não é facil levarem-me de vencida, venham as inimizades dos apaniguados da Protectora ou dos embriagados pela obceção canerista.

 

Este despreteneioso trabalho encontra-se á luz da publicidade, justamente porque a insistência de conhecidos e antipaticosS processos, provocam a minha acérrima reprovação; obrigam-me a pôr em fóco novamente um assunto, ingrato é certo, mas que exige uma marcação e conservação de posições que interessam ao prestigio dos nossos artistas, dos autênticos toureiros a cavalo.

 

E' mais um livro que documenta uma opinião, um parecer sincero e independente; um livro que é o reflexo dum espirito que pugna e que sempre pugnará pela razão, repelindo ataques traiçoeiros e sobrelevando num vigoroso e confiado impulso, a gloriosa tradição nacional expressa na soberba, magestosa e emocionante arte de Marialva, como vul­garmente se chama ao toureio equestre.

 

Para o motivo que inspirou a factura do pre­sente livro, muito concorreu como poderoso esteio, a sublime evocação da gigantesca personalidade do Marquez de Marialva, o grande remodelador dos processos de equitação, com os quais muito apro­veitou a acção do cavaleiro-toureiro, pois até na indumentaria o Marquez introduziu modificações. Evoco, pois, a fidalga e relevante figura desse portuguez de lei, ao apresentar-vos - leitor amigo  - esta desluzida mas sincera obra.

 

Vibram as notas dos clarins. Atravessa os ares,, o rumor proprio duma função que começa. Dão entrada no redondel os personagens que este livro fóca, visando unicamente o aspecto artistico, tal- qualmente como fiz no Ao Estribo e no Canero nunca existiu, cuja continuação está patente nas pa­ginas que se seguem e mostram com exuberância o meu ardente desejo, de não vêr extinguida a cris­talina verdade.

Pépe Luís.

 

Touros de Morte

0 restabelecimento desta lide ein Portugal e a insofismável opinião do mestre das letras na­cionais que foi Fialho D'Almeiada. Um pouco de historia. -O Dr. Cunha e Costa e as marra-das dos portugueses. — Corrida de touros, a festa nacional por excelencia. Ferreira do Amaral mais uma vez heroi.

 

Mau grado a tarefa enervante dos impugnadores da tauromaquia, esta vai tomando aspectos de maior grandeza e de mais acentuada difusão.

 

Em Portugal a luta tem sido tremenda, predo­minando sempre a vontade duma minoria cuja sin­ceridade é muito discutível, muito duvidosa. A sua argumentação é falha daquela concepção que per­suade, que convence. Roça, mesmo, pela banalidade, tornando infructifera a conclusão dos seus esforços, não fazendo radicar no espirito publico, a confiança na sua dou­trina.

 

Esfalfam-se os adversarios da tauromaquia a bradar que nas corridas de touros se prostituem as aspirações da alma, o que não dá mostras de civi­lização.

 

Estes sucessores de Navarrete, dão-me a impres­são que sofrem do delirio que muitas vezes a febre provoca, porque, de contrario, já deviam ter concluido do grande exemplo que fornece um toureiro que vai jogar a vida tanta vez para beneficiar ou­trem. Tanta casa de caridade vive da tauromaquia. Umas porque são co-proprietarias de taurodromos, outras, porque ali realisam os seus benefícios, e iso­ladamente, tantas pessoas necessitadas, ali encontram os meios de vida.

Gallito morreu em Talavera numa corrida cujo producto reverteu a favor dum jornalista que vivia em tão precarias circunstancias, quiçá não estivesse longe o fim do seu penar.

 

Gallito espalhou muito pão pelos pobres, auxi­liou muita familia sem recursos, socorreu muito co­lega inválido, tomou parte em muita corrida, benéfica sem cobrar uma peseta. A pobreza sevilhana, por exemplo, deve-lhe muitos anos de alimento.

 

Falo de Gallito como poderia falar de tanto toureiro junto de quem a desgraça não póde medrar.

 

O Monte-Pio dos Toureiros espanhoes foi fun­dado sob a iniciativa dê Machaqaito e Bombita, que a exemplo de Gitanillo chegaram a entregar ao respectivo cofre, cinco mil pesetas de cada vez. O Monte-Pio actualmente tem em toda a Espanha centenas de viuvas e orfãos subsidiados.

O malogrado Maera declarou no Salão Nobre do Governo Civil de Lisboa, em 1924, que viria trablhar a Lisboa, quatro anos seguidos e gratuita­mente, em beneficio dos pobres da capital. Quem assistiu no Campo Pequeno á ultima corrida em que tomou parte o grande Maera, nunca esquecerá alguns episodios de ternura comovedora que nela se passaram. Vi muitas lagrimas e notei tantos so­luços dificeis de reprimir!

 

Os velhinhos, as creanças dos asilos, pobres da rua, todos acarinharam aquela alma plena de bon­dade, quando o artista na arena se despediu. Es­pectáculo grandioso este, que para descrevê-lo, cer­tamente se me apertaria o coração, numa convulsão de magua.

Maera faleceu em sua casa em Triana, dias de­pois de, sem a minima remuneração, tourear em Melilla, a favor dos soldados pobres que se esta­vam batendo em Marrocos.

Não está na caridade uma das mais alevantadas virtudes da alma?

 

Dizia Lavater:

“Qu’est-ce que l’elevation de l’âme ? Un sentiment prompt, délicat, sûr pouar tout ce quid est beau, tout ce qui est grand; une prompte resolution de faire le plus grand bien, une grand bienveillance unie a une grand force.”

 

A bondade da alma expressa na caridade, digni­fica um nome, engrandece um homem. A caridade é como o sol, dá luz para todo o mundo. A cari­dade é dôce quando se oferece ao desgraçado. Esta lucta com a desventura, com a adversidade que os negros dias da sua vida lhe trazem.

 

Os toureiros lutam com a morte, muitas vezes para valerem aos infelizes, aos famintos, aos des­protegidos da sorte.

 

“Si ton âme est en bon état, tu as tout ce qu’il faut pour être heureux.,,

Plante.

 

O artista que luta com uma fera, em beneficio do seu semelhante, não póde ter alma ruim. O culto da humanidade está em prezar a vida do homemr rodea-lo de todo o prestigio e conforto. É, por­tanto, logico que exalcemos o nome dum homem que arriscando a vida, vai aliviar a dôr e apagar a rude angustia do seu semelhante.

 

As chamas da caridade secam tanto as lagrimas da dôr, quanto maior fôr o esforço, a sinceridade e a tenaz vontade em produzir o bem.

 

Quanto ao facto da civilização ser maculada pe­las corridas de touros, tambem é possivel a contes­tação.

 

O exemplo da Espanha, da França, da Italia e da America, fornece-nos elementos primorosos para rebatermos as afirmações dos que hostilizam as corridas de touros.

Ultimamente, na Republica do Uruguay, foi le­gislado no sentido de serem restabelecidas as corri­das que desde 1889 estavam interrompidas.

 

Nos reinados de Carlos III e de Izabel II de Espanha, a par do vigor que a tauromaquia tomava e se desenvolvia, a civilização estendia-se prodigio­samente em todas as mais variadas manifestações. A Espanha ainda hoje marca exuberantemente nas artes, nas sciencias, na industria e na agricultura.

 

No entanto, parece-me qpe não é um paiz sel­vagem, como o não é a França, a Italia e as repu­blicas americanas onde se realizam corridas de touros.

 

Nào é a tauromaquia uma escola de destreza e vigor? A acreditarmos na doutrina dos detractores das corridas, parece que um povo para se civilizar perde a força, a virilidade.

 

Será porventura um homem civilizado, um co­barde ? Não. Nào é possivel.

 

Parece-me que um povo vive tào feliz quanto mais largamente espande a sua alegria e para isso c justo que recorra aos seus divertimentos favoritos.

 

O povo trabalha. E' justo que se distraia, assis­tindo a espectáculos que não trazem perigo algum para a humanidade, como o que oferece o animatografo.

 

O povo entusiasma-se com as corridas de tou­ros. Porque se ha-de contraria-lo? Quem quere, vai. Quem não gosta...

 

Em dia de corrida, quanta animação atravessa as ruas. O povo caminha, diagnosticando sobre a função que vai presencear. O movimento dos automóveis e dos trens, dão a nota de animação e de vida pró­pria do ambiente que a corrida de touros gera. Dentro da praça, á maneira que se aproxima a hora do inicio da festa, as bancadas vão-se en­chendo, a falacia, a vozearia e os pregões crescem, avolumam-se.

 

As mulheres bonitas, os labios rubros, os olhos faiscantes de sedução, tornam o quadro mais caracteristico, mais rico de côr. E quando aparece um panolon castizo, uma airosa mantilha andaluza ou um multicolor manton de Manilla ?

 

Acabam-se as tristezas para elegermos na nossa imaginação o que de mais apoteótico nos poderá encantar.

A téla muda de colorido, quando os clarins sôam anunciando que a festa se vai celebrar.

 

Vem a proposito a saudação que remeti ao Seda y Oro, excelente revista taurina sevilhana, de que sou correspondente em Lisboa, e que ha pouco completou trez anos de existencia:

 

SEDA Y ORO

Em tardes de sol, a multidão

Exulta e expande a sensação

Que á festa brava lhe prende o sentido,

Ao seu encanto, grandeza e colorido.

 

Um clarin sôa

E logo rebôa

A vozearia

De que ressalta vibrante,

A perfumar-lhe o espirito,

Um "passe doble,, castiço

Alácre e subjugante.

 

Surgem "cuadrillas,,,

E na profusão das côres

Das jalecas e casacas,

Erguem-se altivas e dominantes,

Excelsas figuras

De valentes toureadores

Que em rasgos de heroismo

Afirmam a beleza

Duma Arte recendente

A nobreza.

 

“Seda y Oro,,

Canto de fé e de sedução,

Hino á festa e ao toureiro,

Fontes de valor e d'emoção

E’ “Seda y Oro„

Simbólico padrão:

A seda brilha no traje

E o ouro no coração!

 

O ilustre causidico, Dr. Cunha e Costa, natural­mente para prestar um serviço, aliás gracioso, julgo eu, á Protectora dos Animais, declara que entre o caracter nacional e os touros de morte não ha re­lação alguma. E vai d'aí, para revigorar a sua argu­mentação, diz que o portuguez nas horas decisivas da vida nacional não marra ou deixa de marrar por analogia.

Ha um facto incontroverso que convem apon­tar antes de mais nada. As corridas de touros efe­ctuadas em praças espanholas, fronteiriças, teem sempre a anima-las uma enorme assistência de por tuguezes. Salamanca, Ciudad Rodrigo, Badajoz, Ayamonte, etc., podem atesta-lo. Em Badajoz já não é a pri­meira vez que vejo cêrca de trez quartos de praça ocupados por portuguezes. (A praça de Badajoz tem uma lotação de 9.500 pessoas.)

 

Ora, parece-me que tão elevado numero de por­tuguezes que assistem àqueles espectáculos, não é impelido pelo desejo de gastar pesetas.

 

Em Portugal, quando corre o boato de haver tou­ros de morte em qualquer praça, embora com en­tradas caras, lá se enche a casa, para satisfação dos organisadores, das entidades beneficiadas e do pu­blico que vai assistir a um espectáculo da sua pre­dilecção.

Porque não ha-de o caracter nacional reflectir-se nas corridas de touros de verdade, se elas em Por­tugal estão interrompidas ha pouco mais de seculo e meio?

Não estará no toureio a cavalo, uma das mais luminosas facetas do espirito artistico portuguez?

Quanto ás marradas dos portuguezes, não vejo que a piada quadre bem.

E’ que o Sr. Doutor nunca deixou de ser um blagueur impenitente.

Isso de marradas, é muito duro.

 

No tempo do Liceu do Carmo, lembro-me dos meus condiscípulos empregarem o termo—marrar - quando queriam dizer que o coração batia com furor, ao acompanhar a cadencia do pisar dos deli­cados saltos dalguns sapatinhos de costureira namoradiça !

 

Diz o Sr. Dr. Cunha e Costa que os francezes passam sem touros de morte. Vê-se que na Univer­sidade não ha uma cadeira cujos ensinamentos pro­fundem o fôro taurino, porque de contrario, os advogados saberiam que em França ha cerca de trinta praças de touros onde as corridas para se­rem exclusivamente á espanhola, só lhe faltam os cavalos sem peitoral algum. A de Marselha com­porta cerca de 11.000 pessoas, Aries 7.500, Bayona 9.500, Bordeux 9.000, Dax 8.000, Mont de Marsan 10.000, Nimes 21.000, Toulouse 7.000, etc.

 

Até á primeira metade do seculo XVIII as cor­ridas de touros em Portugal e Espanha, tinham um caracter análogo e não poucas foram as vezes em que portuguezes tourearam em Espanha e vice- versa. Esse intercâmbio artistico intensificou-se no tempo dos Filipes, tomando as corridas de touros um aspecto de Ostentação e riqueza.

 

O toureio limitava-se á lide equestre. Reis e fi­dalgos punham á prova a sua coragem, elegancia e saber, no toureio equestre, em cujo trabalho eram auxiliados por uma grande quantidade de creados. O toureio a pé não merecia importancia.

 

Foi Francisco Romero que deu relevante im­pulso á infantaria taurina, fazendo revestir as suas faenas de uma feição artistica que causasse emoção.

 

Romero inventou a muleta para matar os touros frente a frente. Mais tarde apareceram “cuadrillas,, já regularmente organizadas e que tiveram por maes­tros os grandes Pedro Romero, Pepe Illo, chegando aquele a tourear em Lisboa em 1795, creio que por ocasião do baptisado dum principe. A corrida rea­lizou-se no Terreiro do Paço e a ela não foi estra­nha. a sublime figura do Marquez de Marialva.

 

A aficion nesta data tomou um extraordinario incremento com a aparição de Montes, Cuchares e Chiclanero. A Montes, os escritores da epoca chamaram o Napoleon de los toreros e Pedro Romero foi cognominado: o Alexandre da Tauromaquia.

 

Mercê da incomparavel aptidão destes homens, o toureio foi adquirindo formas novas.

Que grandeza heróica não encontramos numa estocada recebendo ?

O valente diestro, firma-se deante do touro, muito proximo deste. Passa de muleta com graça, salsa toréra, quieto, girando sobre os calcanhares, o suficiente para dar sempre a cara á fera que passa rente ao impávido lidador, procurando-o furioso, com o objectivo de o destroçar. Segue atraz da flamula que engana. Mercê dum fluido que electriza, o espectador está atraido, assombrado.

 

O artista cresce; sabe que a multidão o admira.

Estende a muleta e perfila-se deante do testuz do touro. Junta os pés, aponta a espada e espera. Adeanta levemente um pé, estende o braço esquerdo em que ostenta la franela roja. Provoca com a sua voz, o touro que arranca e inclina o pescoço para ferir com as suas formidáveis armas. O homem imovel e sereno, deixa que se acerque, fa-lo sempre seguir a sua rota a favor da muleta, crava o ace­rado estoque, e o bravo animal, encolhe-se e cam­baleia.

Esta é a sorte que os cânones chamam matar recebendo.

 

Na lide a cavalo, em que o portuguez é exímio, não deixamos de encontrar maior magestade, mais arrojo -e galhardia.

Eis o que afirmo no "Ao Estribo: Um cavaleiro numa corrida de touros é o mesmo que um facho rutilante, que nos prende o espirito e arrebata a alma.

O evoluir dum corcel majestoso e ágil, domi­nado pelo garbo dum cavaleiro a que está aliada a sciencia dum toureiro, consubstancia o soberbo con­junto promotor de estrepitosas aclamações que, por vezes, tocam o delirio.

Cavaleiros! Insignes varões que iluminam o mundo da aficion com os fulgores da sua incomen­surável audácia e perfumam a atmosfera com nuan- ces de classissismo e ondas de reiterada elegancia!

Só o genio colossal dum cavaleiro - digno do nome - póde opôr resistencia à arremetida dum touro espumante de raiva, e, sem ficeles, dominá-lo com a mais luzida galhardia.

Nada ha mais arrebatador e profundamente emo­tivo do que um heroe do torneio, de tricorneo em­plumado, envergando uma casaca de seda em que se destacam brocados d'ouro luzente e os punhos de renda a envolver as luvas.

Firmes na sela, irrepreensivelmente aprumados. A mão esquerda, na atitude mais natural, segura as redeas e maneja-as sem o esforço que provoque re­paros ; o cavalo de linhas correctas, pêlo luzidio em que se espelha o recorte dos arreios. E' este o su­perior conjunto que nos oferecem o cavaleiro e o cavalo. O traje á Luiz XV e o ajaezado á Marialva, são manchas ricas de colorido que tornam grandioso o quadro; que reproduz uma das mais interessantes fases da festa.

 

Um lidador elegante, e animoso dirige o seu ca­valo em direcçcào à cara do touro e, a curta distan­cia deste, promove a rotação.

No momento da reunião, em que a rez a humi­lhar, pretende atinjir o bojo da montada, parecendo por vezes roçar os pitons pelo estribo, o câvaleiro, de braço estendido, crava de alto a baixo, o ferro ou o rojão, com tal frescura e acerto, que das agu­lhas— fulcro de atentos olhares — se desprende um fio de sangue quente.

 

Observadas as regras, cumpridos os preceitos da arte, a multidão irrompe em frementes aclama­ções, num sublinhar continuo, tão victorioso, quão sublime lance.

Pelo que acabo de expôr e ainda no que pode­ria alongar-me, se prova que o portuguez, desde re­cuadas eras, não é indiferente ás corridas de touros — isto é, os portuguezes que não preferem o es­trangeirismo nos seus divertimentos predilectos.

 

Também não são os portuguezes que comba­tendo as corridas de touros, se alimentam de chá, oleo de figado de bacalhau e cabidela de galinha, desprezando o sacrifício a que são forçados esses animais que não investem contra o homem...

 

Não se admirem, pois, que haja quem proclame que a corrida de touros é a unica manifestação de virilidade dos peninsulares.

 

E’ a festa nacional, a mais emocionante e tradi­cional, que vai tomando vulto e segue gloriosa­mente, com o seu explendor e beleza, provocando o ardente entusiasmo do publico que a considera o seu espectáculo favorito.

 

Ninguém póde duvidar que Fialho foi o relevantissimo espirito que manteve as letras portuguezas numa altura e num brilho extraordinario. Era pensador e irónico. Os seus conceitos são leis, e os seus escritos constituem verdadeiras paginas d’ouro.. Pois Fialho opinava da seguinte maneira, ácêrca das corridas de touros de morte:

A morte do touro, é uma coisa absolutamente indispensável no grande torneio duma nação penin­sular. Abater a féra, eis o complemento dessa luta ciclópica com o homem, o ultimo quadro da tragé­dia onde o tirano negro esparce ás mãos do galã bordado a ouro, de espada alta e apoteótico como o arcanjo Miguel sobre o diabo.

Oh, é supremo. Todos os particulares de toureio tendem a ele, evolutivamente, em sucessivas caden­cias d’arte e agilidade. Com touros sem morte, ê como que vencer uma batalha sem honras de triunfo.

 

Estes riquíssimos pedaços de prosa, devem ser lidos pelos indivíduos que desprezando a sorte do homem que é o rei dos animais, choram a morte da féra em cujas veias corre sangue bravo que para outra cousa não serve senão para revigorar a acometividade.

Venham, pois os touros de morte e o respectivo regulamento.

 

Touros de morte, mas com artistas dignos do nome. Não devem ser admitidos maletas, a matar, nas praças de Portugal.

 

De contrario comprometer-se-ia o brilhantismo da festa, como sucedeu na tarde em Alcochete, em que Canero actuou como espada.. .

 

Fóra os maletas.

 

Agora aos da Protectora dos Animais, atiro-lhe este beijinho:

“Ha anos uma pessoa que possuia um cãosinho, viu-se obrigada por circunstancias varias, a retirar para terras estrangeiras.

Este caso forçado, deixou-a apreensiva por não saber onde deixar o animal a quem dedicava muito carinho.

Teve a justa ideia de procurar a Sociedade Pro­tectora, pedindo-lhe para albergar el perro a trôco duma importancia convencionada.

Sábem a resposta que obteve?

Então a Sr.a pensa que isto aqui é asilo de cães ?

Tableau !...

 

Não ha duvida que a corrente favoravel aos touros de morte, é muito mais poderosa do que a outra que á força de hypoçrisia, quere fazer vingar os seus propositos anti-taurinos? Ora a oposição é livre. Podem combater as corridas e os touros de morte; todavia, não teem o direito de se impôr, contrariando a vontade da grande maioria dos portuguezes. Sabemos que as influencias são enormes. Nas hostes da Protectora lavra a desmoralisação.

 

Estão malucos, e, senão veja-se o que se passou numa conferencia promovida por aquela benemerita Sociedade, conforme narra o diario A Ideia Nacio­nal que neste caso, tem assumido juntamente com outros colegas, a mais digna atitude. Que venham os touros de morte, com o respectivo regulamento.

 

Não queremos, nem maletas, nem touros cor­ridos.

Cobre-se por cada touro estoqueado, uma quan­tia destinada á beneficencia: aponha-se em cada touro corrido, um sinal, para sabermos quais são os puros; que se não consintam corridas de verdad em praças que não reunam condições para isso (mesmo no Campo Pequeno em que a arena não está preparada suficientemente para tais lides); obrigue-se as emprezas a terem pessoal de enfer­maria e o material cirúrgico condignos, não esque­cendo o veterinário, etc.

 

Quanto a uma parte dos nossos toureiros de pé, aqueles que não fazem outra coisa do que sacudir o pó, com os capotes, largando-os constantemente na arena, esses serão selecionados. .. pelos touros. Os touros se encarregarão de os prevenir que para ser toureiro, é necessário possuir alma. .. e ha por ahi cada desalmado!

 

Patas arriba! exclamamos com o calor que nos subjuga a alma.

Patas arriba, pois, com a pieguice nacional, com  a choraminga neurastenica dos que ha dois séculos veem impondo a sua injustificada vontade. Patas arriba com a hipocrisia dos que se dizem ami­gos dos animais e, no entanto são indiferentes a tanta calamidade que vexa, oprime e entenebrece a vida do homem que afinal é... o rei dos animais.

 

Desprezemos a sinfonia lamurienta daqueles que temperam os bifes e o coelho á caçadora, com uma caudalosa torrente de lagrimas... e volvâmos os olhos para a festa cuja assistência é facultativa e que não tem outro fim que não seja o de marcar, atravez de pinceladas fortes, ricas de côr, toda a magestade, toda a grandeza heróica dos episodios que fornecem á coragem e á audacia, a mais elegante e airosa feição.

 

O restabelecimento das autenticas corridas de touros em Portugal, vem trazer ás nossas arenas, o aspecto de que elas careciam.

Uma corrida de touros vinca um significado tanto maior de emoção e de entusiasmo, quanto mais intensamente vibrarem os nossos nervos, ante a sequencia de uma faena que se desenrola e se re­mata com a apoteose dum lance grandioso.

 

Ora, as corridas como até aqui as presenceava- mos, não eram caracterisadas por aquele arrebata­mento artistico que nos dá a sensação de dominio que a valentia gradua e a naturalidade suavisa.

Ainda sob o ponto de vista económico, tambem as corridas trazem receita bastante proveitosa. E' o Estado que recebe as contribuições num superior quantitativo, visto que aumentam os espectáculos taurinos. As Misericórdias, Azilos, Casas Pias, e outras instituições de beneficencia que; interessam nos lucros de muitas praças de touros, tambem veem os seus recursos avolumados.

Igualmente o comercio e a industria, as emprezas de viação, etc., beneficiam com o desenvolvi­mento das funções taurinas.

Emfim, tantos e tantos casos podiam aqui ser enumerados e que recomendam a adopção das ver­dadeiras, das autenticas corridas de touros.

 

Que venham as corridas de verdad, mas com um regulamento exequivel que garanta o mais possivel, o bom resultado do espectáculo.

Nada de exploração. Nada de maletas a com­prometerem a festa. Exijam-se responsabilidades a quem as tiver na organisação de corridas.

Urge que se satisfaça plenamente a aficion, dando-lhe espectáculos honestamente preparados, de fórma a manter-se um seguimento interessante, que atraia em vez de repelir. Aproveite-se, pois, a boa vontade de quem está empenhado no progresso das corridas de touros, a que o nome portuguez está tão brilhantemente ligado.

 

Não permitamos a decadencia da festa nacional.

 

Temos direito a boas corridas de touros. De­mais num paiz que já teve como deputados os Srs. Dr. Jorge Capinha e o Sr. Luiz Rojão, é justo que a tauromaquia represente uma força indestrutível! No espirito do nosso povo, perdurará a ardente simpatia pela festa dos touros.

Viva pois, a Festa Nacional.

 

Àcêrca dos touros de morte diz o eruditissimo escritor e meu querido amigo, Rocha Martins, Di­rector do A. B. C., o seguinte:

Mas neste caso dos touros de morte, ha um duelo terrível e não uma barbaridade. E' o duelo da inteligencia e da destresa com a força e com a manha, por vezes. Muito mais indigno é o combate de galos. O boi tem sempre o mesmo fim: o bife, o assado, o cosido, por mais que os seus defensores o queiram indene das mãos do cosinheiro. Se ha-de morrer de olhos ta­pados num matadoiro, às mãos dum magarefe, acaba diante dum artista que o desafia, o excita, o vence ou póde ser ven­cido por ele.

E mais adeante, com aquela perfeição que dis­tingue um dos mais lidimos paladinos das letras nacionais, conclue o aludido jornalista:

Seria melhor acabar com a hipocrisia e ir aclamar o tou­reiro à praça onde só vai o publico que ama a lide e ninguém é obrigado a ir presencear espectáculos de que não goste, o que não sucede ai nas ruas...

E' uma verdade.

 

A corrida de touros é um espectáculo faculta­tivo. Reedito algumas das considerações que apre­sentei no livro “Ao Estribo,,:

A corrida de touros observada pelo lado plás­tico, viril e filantropico, revela um preciosíssimo significado que não é vulgar encontrar-se em qual­quer outro genero de espectáculo.

O elemento touro, dadas as suas condições de féra, colabora poderosamente nas corridas, pois que é dele que deriva a afirmação artística do homem com quem tem de defrontar-se.

Não é o boisinho doméstico, que as Protectoras e as Ligas intencionalmente confundem com o touro, animal feroz que o homem tem de lidar com o risco da sua própria vida, muitas vezes ao serviço de causas humanitarias. Não é o boi que puxa o arádo e anda jungido aos varais das carroças, que aparece no redondel, resfolgando de bravura e es­pumando de raiva, a impôr a força do seu poder e muitas vezes, tambem, o seu instinto de maldade*

O boisinho não é o touro, senhores protectores.

Não derramem lagrimas, porque ninguém acre­dita na vossa piedade.

E não acredita, porque me consta haver socios da Protectora que possuem carroças e estas vêmo- las todos os dias carregadissimas e tiradas por fa­mintos animais, que a golpes de chicote, sobem as ladeiras da cidade.

Ninguém acredita na choraminga dos socios das Protectoras e das Ligas, porque é facil admitir que eles se banqueteiem com belos manjares de coelho à caçadora, frango assado no espeto, não falando nos suculentos bifes extraídos de algum boisinho que tanto serviço prestou ao homem !

Que falta de protecção á memória dos ani­mais !...

 

O- tenente-coronel Ferreira do Amaral um dos  heroicos soldados da Flandres, foi a alma de epo­peia que animou a tremenda luta contra a tenaz e injustificada coação que vinha triunfando havia dois séculos.

Ferreira do Amaral foi o espirito forte, comba­tivo e victorioso. Foi o artista que deu a puntilla na pieguice nacional. Foi o homem que levantou a flamula do triunfo, sujeitando a seus pés a hipocri­sia mascarada de comiseração.

Bem haja, pois, Ferreira do Amaral que foi mais uma vez heroi.

 

A moda não está nos touros de morte. Está, sim, nas calças exageradamente largas e nos atrope­lamentos d'automoveis. Antes havia o seu atroplelamento que não atingia mais do que uma pessoa.

Agora é aos magotes!

E a Protectora tão calada !...

 

Não é demais repetir aqui uma parte da minha conhecida opinião ácêrca do assunto que tanto tem assoberbado a Protectora e seus adeptos.

Protestam, dizem eles, porque não admitem que se mate um animalzinho numa arena rodeada de espectadores ?

O animalzinho, neste caso, é o touro, uma au­tentica féra que a hipocrisia da Protectora e das Ligas, confunde propositadamente com o boi do­mestico.

O touro e o boi são animais bem distintos.

O primeiro caracteriza-se pela fereza que lhe é proporcionada pelo sangue bravo da sua casta ou das castas de que é oriundo. Salvo rarissimas ex­cepções, o seu instinto ferino não permite ajustar-se aos mesmos serviços do boi, do que se conclue claramente que o touro é um animal que nasceu unicamente para ser lidado.

 

Deixem-se de utopias, srs. protestantes, e inte­grem-se bem no sacrifício infligido aos bois, por esses matadouros fóra, não falando nos pontos do paiz onde nem matadouros existem.

Contra a maneira como se abatem os bois e outros animais indefezos, nos referidos locais, é que os srs. devem protestar, porque semelhantes acttas tambem teem publico a presenceá-lo.

Varias vezes verifiquei esses civilizados processos de abater animais, como, por exemplo, tirarem a pele a carneiros vivos e que se encontravam pen­durados havia largo tempo.

Já viram os judeus matar as rezes destinadas à alimentação da sua colonia?

E’ o martirio lento, torturante.

Duma outra vez, observei uma scena edificante e que certamente se repete com o fingido desco­nhecimento da Protectora e das Ligas.

 

Quando um boi — daqueles que tanto serviço prestam ao homem, para depois serem comidos por vaca, pelos referidos protestantes, — resiste à entrada no recinto onde ha-de ser abatido (essa relutancia é quasi sempre motivada pelo cheiro exa­lado por carne morta) o animal ao resistir, é alvo das. maiores barbaridades, que chegam á violência de lhe aplicarem nas unhas, fortes pancadas vibra­das com ferros ou paus ferrados, obrigando-o as­sim a dobrar.

Tambem, se o animal se nega a entrar no re­cinto do suplicio, dobram-lhe o rabo, fazendo o partir em tantos bocados, quantas vezes são preci­sas para que o serviço seja completado.

Quanto mais cruel não é o que se pratica em locais onde se abatem os animais destinados á ali­mentação publica, do que o que observamos nas corridas de touros de morte, em que uma féra, mantendo luta com o homem, põe este em risco de perder a vida.

 

Na pelêa, ha valor, emoção e beleza, emquanto que nos matadouros e noutros locais destinados ao mesmo fim, nada daqueles factores se registam.

Um touro no calor da luta cresce de raiva, es­puma-lhe a boca, de ferocidade, vizando somente inutilizar o homem.

Se assim é, porque razão não ha-de o homem, va­ler-se da sua sciencia e valentia para inutilizar a féra?

Sim, porque a tarefa de matar touros possue as suas leis e argumentados princípios, que teem de ser levados á pratica, com o fim do toureiro, depois de se defender das acometidas da féra, lhe dar a morte, o mais limpa e rapidamente possivel.

Em tudo isto o artista derrama arte e valor que o portuguez seguindo a mais nobre das tradições, aprecia com profundo interesse.

Porque é que se protesta?

Protestam porque a inconsciência é muito grande e a noção da piedade é a mais falsamente inter­pretada.

Choram a sorte dos touros, mas não se contris­tam com a do homem !"

 

In “Touros de Morte em Portugal -  Comentários Taurinos”, Pepe Luiz, Lisboa 1927, edição da Papelaria e Tipografia Paleta d’Ouro (desenhos de A. Martinez de Leon e A. Duarte d’Almeida)

Devido ao Covid-19 e ás medidas adoptadas pelo Governo Espanhol, a generalidade das Feiras Taurinas de Espanha, a que se somam as muitas festividades populares onde o toiro é figura central, foram canceladas e umas quantas suspensas e adiadas paar Setembro/outubro.

Para fazer face às enormes percas financeiras que podem superar os 77 milhões de euros, a Unión de Creadores de Toros de Lidia apresentou um conjunto de 10 medidas junto do Governo Espanhoil com o fim de encontrarem financiamento e ajudas para minimizar este problema que leva também a que muitos toiros de lide já tenham sido abatidos nos matadouros sem serem lidados.

Aceda ao artigo do jornal ABC através do linhk https://www.abc.es/cultura/toros/abci-covid-19-10-medidas-exigidas-ganaderos-lidia-para-paliar-77-millones-perdidas-202004161203_noticia.html?fbclid=IwAR2HHMM9z1Mg1OWeh3Xg7UXoYrd6g-uITOyyX_Z6twrFEiWmHl3mWwrVDIE&ref=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2F

 

6e73c5e3-bf91-46e0-a0b3-95ec97a9c84e.jpegA Tauromaquia liga-se sempre a grandes causas sociais e lança campanha de donativos num momento difícil para os mais idosos.

 

É tempo de estarmos longe uns dos outros, mas mais unidos do que nunca. Parece contraditório, mas a verdade é que estar em casa tornou-se palavra-chave para todos nós, num momento em que estamos todos “no mesmo barco” a lutar contra o mesmo problema.

 

O país está unido da melhor maneira possível e a fazer força para combater a pandemia do Coronavírus que está a afetar o mundo inteiro. As organizações tauromáquicas não esquecem quem mais precisa: Os mais idosos. São eles que estão a ser mais afetados com o Covid-19. Não só porque têm menos defesas e são um grupo de maior risco, como também, muitos deles, precisam de uma ajuda redobrada numa altura em que existe falta de material para se protegerem contra o vírus.

 

Perante a crise actual a Associação de Toureiros Portugueses, a Associação Portuguesa de Empresários Tauromáquicos, a Associação Portuguesa de Criadores de Toiros de Lide, a Associação Nacional de Grupos de Forcados, a Associação de Tertúlias Tauromáquicas de Portugal, a ProToiro e a marca Touradas uniram-se para apelarem a participação de todos numa grande causa social lançando uma campanha de donativos directamente para a conta da União das Misericórdias Portuguesas (IBAN PT50 0033 0000 45285048103 05 Millennium) com o objetivo de apoiar a compra de material de desinfeção e proteção para os lares das misericórdias portuguesas e para as suas unidades de cuidados continuados. Aqueles que prefiram poderão fazer a entrega destes materiais e/ou produtos alimentares junto de uma Santa Casa da Misericórdia junto de si.

 

Em altura de pandemia, os mais idosos são os que precisam de apoio urgente e o Presidente da ProToiro tem isso em consideração.

“A tauromaquia tem um ADN secular de ligação direta às grandes causas sociais e solidárias. Neste momento não podíamos deixar de agir e ir em auxílio dos que mais necessitam, num momento de grave crise social”, afirmou João Santos Andrade.



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