BS – Gostava que pudesses passar isso para os nossos leitores. O ambiente que se vive no Perú é absolutamente diferente, quer por via da cultura, quer pela forma como as pessoas vivem o ambiente á volta das corridas, com muita gente espalhada pelas encostas á volta das praças…
NC – É engraçado porque há pueblos que podem ter 1000 ou 2000 habitantes, e uma praça para 8 ou 10 mil e enchem essa praça e os montes estão cheios. Eu creio que devia ser parecido ao que acontecia aqui ou em Espanha nos anos 50. Essa admiração que têm pelos toureiros, assim que chegam ao pueblo, querem tirar fotografias connosco, querem levar-nos a suas casas a comer. Realmente ali sentimos logo esse carinho e essa admiração, o que nos enche de moral e depois também há uma organização das corridas um pouco diferente. Raras são as praças que têm empresários. São Comissões ou Mordomos que organizam as corridas; cada ano “toca” a uma família, a Mordomos diferentes e eles tentam fazer mais e melhor cada ano. Sai dos próprios bolsos o dinheiro para permitir os melhores espectáculos. Os bilhetes são baratos para que toda essa gente possa ir mas eles não vivem do lucro das corridas. Muitas vezes esse lucro reverte para a municipalidade…
BS – Por isso, se calhar, é que tem o ambiente que tem, sem esse critério empresarial do lucro, trazem-se os melhores porque se querem mostrar os melhores e o público participa mais porque tem bilhetes mais baratos, porque não se procura o lucro.
NC – É exactamente isso que eles dizem. Se a Comissão anterior levou um toureiro bom e dois medianos, no ano seguinte têm de ir 2 bons e 1 mediano. Eles pagam o que for necessário para levar os melhores toiros e toureiros e a verdade é que a Festa em muitos países vai decaindo e lá vai em crescendo. E como não há sistema empresarial, não há os interesses das trocas, do que vai grátis para tourear. É a afición que exige os toureiros. É uma forma mais pura.
BS – Essa, se calhar, era a fórmula que se deveria utilizar em muitos sítios para que as coisas pudessem romper para diante. A participação dos peruanos no espectáculo é muito superior á dos outros países onde há corridas de toiros.
NC – Sem dúvida. Depois das corridas chegamos a estra mais d![IMG_8273.JPG IMG_8273.JPG]()
e 1 hora a dar autógrafos, pedem-nos por favor para tirar uma foto, veneram-te mesmo, pareces mesmo um herói e isso também nos enche de moral.
BS – O toiro é muito diferente do toiro da Península Ibérica, do toiro mexicano, da Califórnia onde também já estiveste?
NC – Embora havendo pouquíssimo Santa Coloma e Saltillo, o encaste predominante é Domecq mas comprado a ganadarias de Equador ou de Colômbia mas muitas vezes pela altitude e tudo, o toiro é mais parecido ao toiro mexicano do que ao toiro daqui (Península Ibérica). Há sítios de imensa altitude, de mais de 4000 metros…
BS – Deve ser difícil para quem está a tourear adaptar-se ao ar rarefeito, ao pouco oxigénio; os primeiros dias devem ser complicados.![IMG_8136 (1).JPG IMG_8136 (1).JPG]()
NC – Por acaso tive facilidade. É estranho porque aqui não há altitude. E já toureei 3 vezes na praça mais alta do mundo, que é Macuzan, a 5000 metros de altitude. Temos dificuldade em recuperar e nota-se inclusive nos toiros que não são dessa zona, toiros que vão da costa e dão 2 voltas á arena e abrem a boca. O próprio toiro custa-lhe, imagine-se a nós.
BS – Nos últimos anos tens toureado bastantes corridas e este ano vais novamente para o Perú. Tens alternado com toureiros de lá e de outros países. Para quando a apresentação numa das praças grandes de lá, Acho por exemplo?
NC – Sim, Acho é a mais importante, depois estão Cutervo e Chota. Cutervo toureei lá o ano passado, saí em ombros, uma feira importante. Depois há Celendin a Chauanca. Em Acho é complicado, quem é contratado são as figuras de Espanha e um ou dois peruanos. É complicado. Gostaria muito de aí tourear, vamos a ver se há possibilidade. O critério é o dos triunfadores da temporada espanhola e um ou dois do Perú. O ano passado fiz 37 corridas no Perú, 3 em Espanha, 3 em Portugal e uma na Venzuela (44 no total). O ano passado foi a temporada mais redonda. Foi a temporada em que andei cada vez mais á vontade, fazia mais coisas aos toiros, notava essa evolução.
BS – Não há muito tempo, na entrega dos prémios do Clube Taurino Vilafranquense, dizia-se que o Nuno Casquinha fora premido com o troféu á melhor lide e que havia um matador que havia saído em ombros e ao mesmo tempo falava-se de que se calhar havia quem tivesse visto o Nuno a tourear muito melhor, mais repousado, mais templado, com outra capacidade para ler os toiros. Isso é fruto de tourear muito mais escpectáculos. Vila Franca 2017 marca um antes e um depois?
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NC – Eu penso que sim. De cara sobretudo á opinião das pessoas e aos contratos que vão surgindo… Eu penso que a temporada no geral é que marca um antes e um depois porque aqui nem foi das melhores faenas da temporada porque o primeiro toiro foi um toiro que se deixou, o 2º mais complicado, não pude fazer faenas de estar a gosto, mas sim, houve entrega, de passar ás pessoas essa mensagem de que estava ali a outro nível.
BS – Como aficionado aquilo que vi foi outra dimensão do teu toureio, mais metido na faena, mais repousado, procurando templar e levar a faena bem medida para que tivesse 30 passes muito bons e depois rematar e acabar. Penso que isso passou para a generalidade das pessoas.
NC – Este triunfo de Vila Franca foi importante e realmente o tourear com continuidade faz-nos entende melhor as condições dos toiros. Eu também pus da minha parte. Há dois anos já houve uma mudança na minha mentalidade. Agora cada vez que entro numa praça só estou eu e o toiro. A mim sempre me deu muito medo o que diziam as pessoas, os críticos, o que saía na imprensa e realmente esse era o meu temor e então o resultado era precisamente o contrário, era estar acelerado, era querer fazer tudo e ás vezes sem ter aquela calma do «no passa nada», como agora em Serpa em que o novilho de capote já ia para tábuas, nas bandarilhas não saía de tábuas e eu mantive essa tranquilidade. E na muleta já lhe fiz faena. Se calhar se fosse há uns tempos atrás pensaria “ui já vai ser difícil fazer a tal faena de sonho”. Já não ponho essa expectativa tão alta.
BS – Já fizeste Serpa, vem aí Vila Franca com toiros de Palha, uma responsabilidade acrescida e depois o Campo Pequeno uma corrida que pode ter repercussão para mais contratos aqui em Portugal?
NC- Sim, espero que sim, que seja positivo estas corridas, que triunfe. Tanto uma corrida como a outra são duas ganadarias muito exigentes, que todos os aficionados sabem e nós toureiros também. Tenho muitos espectáculos já apalavrados no Perú até essas datas para chegar toureado mas a verdade é que são sempre as 2 datas que estão na minha cabeça. O ano passado foi um ano de semear e este ano colher algo e continuar a semear obviamente. O que mais quero é aproveitar estas oportunidades e que o que aconteceu no ano passado não foi obra do acaso. Tem de haver um certo equilíbrio.
BS – E continuidade, porque sem continuidade os resultados não são os mesmos… E aqui se calhar faz falta um circuito com maior número de corridas com matadores de toiros até porque temos matadores de toiros portugueses para fazer esse circuito,
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NC - Sim, temos matadores muito válidos e que triunfaram, muitas vezes até ao pé de figuras espanholas, mais toureados com mais experiência, e destacaram-se os toureiros portugueses. Têm valor toureando tão pouco e estando á altura que estão, poderiam ter mais oportunidades. Penso que em Portugal, até que não se triunfe no estrangeiro é complicado que as pessoas aqui nos olhem de outra maneira. E não é só no toureio, em qualquer outra actividade isso acontece. Agora, por exemplo, já vejo que as pessoas já começam a reconhecer tudo isto. Agora quando não estamos à espera - esperava-o nos primeiros anos – agora que vou á minha de tentar triunfar, agora sim vou sentindo esse reconhecimento das pessoas.
(Continua amanhã)