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BARREIRA DE SOMBRA

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

BARREIRA DE SOMBRA

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

VENTURAS TRIUNFARAM NO MONTIJO

03.03.13 | António Lúcio / Barreira de Sombra

Praça de Toiros do Montijo – 2 de Março – 16h - Categoria: Festival Taurino

Director: Rogério Jóia – Veterinário: Carlos Santos – Lotação: 1/3

Cavaleiros: João Moura/Miguel Moura, António Ventura/Diego Ventura, Rui Fernandes/Jacobo Botero, Sónia Matias/Ana Batista, Filipe Gonçalves/Francisco Palha, João Telles Jr/Manuel Moreno

Forcados: Amadores de Alcochete

Ganadarias: Inácio Ramos, Fermin Bohórquez, Passanha, Herds. Conde Cabral, Ascensão Vaz, David R.Telles

 

VENTURAS TRIUNFARAM NO MONTIJO

 

Uma autêntica pedrada no charco e um alerta forte para quem pensa que tudo está conquistado quando se atinge um elevado patamar de qualidade nas exibições. Diego Ventura assinou brilhantes momentos de brega e dois ferros de enorme valor e emoção pelos terrenos pisados e pela execução das sortes, acompanhado por seu pai António Ventura (numa actuação d emuito bom nível) e mostrou, um a vez mais, que não basta estar em lugares cimeiros, mas que há, em cada tarde e em cada toiro, que o justificar ao máximo para aí poder permancer, nesse lugar só ao alcance das máximas figuras.

 

Foi uma exibição de luxo da dupla António e Diego Ventura, com este em momentos de brega que fizeram o público saltar nas bancadas, galvanizado pela classe da doma das montadas e pelos autênticos muletazos das garupas dos cavalos a um toiro que não foi fácil, e ainda pela consumação brilhante da ferragem, com verdade e emoção nas sortes ao pitón contrário em dois ferros magistrais, de enorme valia artística. E seu pai, António Ventura foi capaz de manter elevado o nível quer na brega quer na cravagem dos ferros, sempre muito aplaudido e acarinhado.

 

Abriu praça a dupla João e Miguel Moura, numa interessante lide em que o mais jovem Moura conseguiu bons momentos na ferragem curta e seu pai na brega a remates poderosos e alguns dos ferros, num conjunto onde foi notória uma grande entreajuda e ligação para sacar o novilho de tábuas e assinar os primeiros bons momentos da tarde.

 

A terceira dupla foi contituída por Rui Fernandes e Jacobo Botero que não tiveram muita sorte com o toiro que lhes tocou lidar. Foi uma actuação onde se destacou Fernandes, com boa brega e a atacar o toiro para lhe cravar ferragem meritória e onde, a espaços, o jovem Botero conseguiu ferragem de nota positiva.

 

Sónia Matias e Ana Batista tiveram um toiro encastado para lidar e que pediu meças. Sónia mostrou a desenvoltura e raça habituais para cravar a ferrgaem, enqanto que Ana mostrou poderio na brega, entreajudando-se e conseguindo alguns bons momentos de toureio. Como senão da sua actuação o terem prolongado em demasia e com o toiro exausto a defender-se imenso em tábuas.

 

O quinto não fez jus ao ditado e com ele tiveram se haver Filipe Gonçalves e Francisco Palha. Este esteve mais acertado e com alguns bons ferros, enquanto que Filipe não teve  a sorte pelo seu lado e a lide foi a menos. Foi um toiro complicado e a vida dos toureiros tem destas coisas.

 

Encerrou praça a dupla João Telles Jr/Manuel Moreno, com o cavaleiro da Torrinha em bom plano na brega e na cravagem dos ferros, com decisão e a pisar terrenos de compromisso e com o jovem espanhol a denotar alguma verdura mas a resolver a papeleta a contento.

 

Em solitário apresentou-se o Grupo de Forcados Amadores de Alcochete, capitaneado por Vasco Pinto. Abriu praça Ruben Duarte que só consumou à segunda, seguido por Nuno Santana que se fechou com decisão à terceira tetntativa. Pedro Viegas fechou-se rijamente à primeira frente ao terceiro da ordem e depois, no quarto, apenas uma tentativa de cara de Joaquim Quintela e como o toiro se recusasse a investir, foi pegado de cernelha por Daniel Silva e Miguel Silva à primeira entrada. Também de cernelha foi pegado o quinto da ordem, por intermédio de Fernando Quintela e Pedro Belmonte à primeira entrada e a fechar praça Joaquim Gonçalves com boa pega de caras à primeira.

 

Por ordem de lide saíram toiros e novilhos das ganadarias de Inácio Ramos (que serviu),  Fermin Bohórquez (manso mas com mobilidade), Passanha (manso), Herds. Conde Cabral (encastado), Ascensão Vaz (manso e a tapar-se) e David Ribeiro Telles (que serviu).

 

Boa direcção de corrida de Rogério Jóia, assessorado pelo veterinário Carlos Santos, em tarde de frio e algum vento.

A LIDE NO TOUREIO EQUESTRE, excertos de “Corrida – Breve História da Tauromaquia em Portugal” de Mascarenhas Barreto

03.03.13 | António Lúcio / Barreira de Sombra

De entre as obras que compõem a minha biblioteca, esta é uma das mais recentes aquisições no mercado de alfarrabistas e, na verdade, contém textos de muito interesse para a formação de opinião e para vermos e analisarmos a evolução do pensamento e da acção sobre a lide no toureio equestre, vertente esmagadoramente maioritária no nosso País. Entendi, por isso, dar a conhecer mais um trecho deste livro, a páginas 138 e seguintes.

 

“O toureiro equestre apresenta-se trajado à maneira do século XVIII, de casaca de seda colorida e bordada artisticamente, e ostenta um laço preto, pendente do pescoço sobre as costas, em sinal de luto pela trágica morte do Conde dos Arcos, em Salvaterra de Magos.

 

Antes de começar a toirear, o Cavaleiro sauda o Director da Corrida e brinda a sua lide, isto é, dedica-a a uma personalidade que deseje distinguir, ou a uma mulher bonita, ou ainda ao público em geral. Coloca-se então em frente da porta do curro, perto da trincheira do lado oposto da Praça. Aí aguarda o toque para que se abra a gaiola, largando o toiro, para o princípio do combate.

 

A lide do Cavaleiro começa pela colocação dos ferros compridos, seguida dos ferros curtos, não se devendo ferrar mais de 3 de cada tipo.

Há quem crave pares de bandarilhas a duas mãos; também, o palmito que é um fragmento de uma bandarilha, com um palmo de comprimento, e há ainda quem pratique a chamada sorte de violino, entrando à direita do toiro, ao qual apresenta o lado desarmado, e cravando-lhe o ferro pela esquerda, para o que tem de torcer-se sobre a sela e passar o braço direito sobre o pescoço do cavalo. Contudo, estas duas últimas «sortes» são considerados virtuosismos que se afastam da toirada clássica; por essa razão, reprovadas pela maioria dos aficionados e muito aplaudidas pelo público menos exigente.

 

Para cravar o ferro dever-se-ão observar 5 regras: nunca atacar o toiro, quando parado ou desatento ao ataque do Cavaleiro; cravar de «alto a baixo», na perpendicular do terreno; unicamente quando o toiro estiver na perpendicular do cavalo e os seus cornos estiverem juntos ao estribo do Cavaleiro; deverá o ferro ser colocado num ponto específico do pescoço do animal: o morrilho; nunca consentir que o toiro toque a montada e, se o gesto falhar, por o ferro não ficar cravado, não deverá deixá-lo cair e sim erguê-lo na vertical, à altura da face, tal como se fosse uma espada, em saudação, e o toiro fosse outro Cavaleiro, com quem se batesse em Duelo (expressão esta já atrás justificada).

 

Deve-se pois toirear sempre «à estribeira». Dest’arte  os ferros compridos são muito mais difíceis de cravar do que os curtos, já que os primeiros, muito longos, têm de ser bem colocados de «alto a baixo» e os segundos podem beneficiar de certa inclinação no alongamento do braço do Cavaleiro e até, por vezes, de certa obliquidade na relação cavalo-toiro. (…)

 

Em Portugal, a justa entre o Cavaleiro e o Toiro reveste-se dum simbolismo especial e exige que sejam respeitadas regras tradicionais de combate: o toiro só pode ser citado de longe, para que se aperceba da presença do adversário e para que contra ele invista; o Cavaleiro deve apresentar-lhe o lado esquerdo, desarmado, visto que empunha o ferro na mão direita; pode também citá-lo de rosto a rosto («de caras»), estando a coluna vertebral do cavalo bem no alinhamento da do toiro; este só pode ser ferrado se arrancou, em franca investida, para o cavaleiro e nunca a trote; pode o Cavaleiro cravar o ferro à tira, passando em corrida, pela frente do cornúpeto e, tendo este investido, sair em semicírculo; ou a sesgo, quando toiro e cavaleiro se encontram perto da trincheira e não muito afastados entre si, sorte esta semelhante à «à tira», mas podendo o toireiro sair por detrás do toiro, sem efectuar a meia-volta; ou ainda à meia-volta, propriamente dita, em que, estando o toiro junto da trincheira e virado para o centro da arena, o cavaleiro passa entre o adversário e as «tábuas», cravando o ferro à sua investida.

 

Diz-se ainda sorte de gaiola, quando o cavaleiro espera o toiro à saída do curro e logo lhe crava o primeiro ferro. Embora o toireiro tenha a seu favor a surpresa do adversário, precisa de muita coragem para executar esta «sorte», visto aguardar com o cavalo parado e ter pouco terreno para esquivar-se ao ataque do inimigo.

 

Não se deve cravar à garupa, como usam os «cabalistas» espanhóis, visto que essa «sorte» não requer destreza especial e qualquer cavalo , sem Ensino, unicamente obedecendo à mão do cavaleiro, pode prestar-se a tal.

 

Poderá ser apenas um «recurso» dum pouco brioso toireiro.

 

A sorte de caras é a mais emotiva e espectacular; a à tira é mais difícil e exige do cavalo qualidades excepcionais. (…)

 

In, “Corrida – Breve História da Tauromaquia em Portugal” de Mascarenhas Barreto, Lisboa, 1970 (pp 138-142)