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BARREIRA DE SOMBRA 30 ANOS (1987/2017)

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

BARREIRA DE SOMBRA 30 ANOS (1987/2017)

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

LITERATURA TAURINA - FRANCIS WOLFF – “FILOSOFIA DE LAS CORRIDAS DE TOROS”

13.07.11 | António Lúcio / Barreira de Sombra

Quando os anti-taurinos tentam, a todo o custo e sem olhar a meios, conquistar adeptos e juntar forças para vencer a guerra que decidiram declarar a todas as Tauromaquias a partir dos seus ideais fundamentalistas, importa dar a conhecer outras e bem fundadas ideias que analisem todas as componentes que tornam a Festa Brava no fenómeno que é e naquilo que respresenta para muitos milhões de europeus e americanos.

Surgiu nos escaparates de algumas livrarias um extraordinário tratado sobre a festa brava e que se intitula, justamente, “Filosofia de las corridas de Toros”, da autoria de Francis Wolff, professor catedrático de Filosofia da Universidade de Paris. E se já antes dele muitos artistas e outros tantos teorizaram sobre a essência da festa brava, ele assumiu o desafio inédito de filosofar sobre a corrida de toiros com tudo o que isso implica. O resultado é... de corte de máximos troféus e saída em ombros.

Quando se inicia a leitura deste livro facilmente nos entranhamos na magnífica forma de escrita de Francis Wolff e devoramos as páginas umas após as outras. Como muito bem se escreve na contracapa deste livro, o desafio é aliciante pois “entende-se que as corridas de toiros, por terem relação com os valores éticos e inspirar uma nova definição de arte, são um magnífico objecto de pensamento.” 

O livro compõe-se de 7 capítulos (1. Dos nossos deveres para com os animais em geral e os toiros de lide em particular; 2. Porque morre o toiro?; 3. Ser toureiro; 4. Duas éticas de liberdade. O toureio de Paco Ojeda e o de José Tomás; 5. Ver a corrida de toiros como uma arte; 6. Toureio: arte clássica e impura; 7. A singular alquimia do prazer taurino). Mas, desde logo, o prefácio e o prólogo mostram bem até onde pretende ir o autor. Se na verdade escreve no prefácio que «Seja o que for, a corrida de toiros presta-se a análise conceptual quando afecta os valores. Não se sabe bem o que é, mas discute-se para saber o que vale, a dúvida sobre a sua “natureza” e as diferentes posições que essa perplexidade engendra deve ser recordada como “prólogo” a qualquer outra análise.» não menos importante é o diálogo que se estabelece no prólogo do livro quando o filósofo Sócrates é posto a falar com muitos outros sobre as questões da corrida de toiros, pois todos sabemos que Sócrates só respondia às questões de valor após ter examinado as de definição, como muito bem escreve Wolff. 

Os sete capítulos estão dedicados, por isso, à questão dos valores. Que, como Wolff escreve, são «de dois tipos: éticos e estéticos.» Colocam-se em relação ao toiro e em relação ao homem, emparelhando os valores éticos com os estéticos pois aquilo que é a arte é o que se chama toureio e não a corrida em si, como frisa o autor. Porque, afirma «o toureio obedece às regras mais clássicas das belas-artes (pintura, música, literatura) e responde à exigência fundamental de toda a arte humana: dar forma a uma matéria. O toureio é a arte de dar forma humana – familiar – a um material em bruto... ou pelo menos estranho, a investida do toiro: equilibrio das linhas e dos volumes em tensão oposta (...) Essa arte coloca a tónica no valor estético por excelência das artes clássicas da representação, o mais comovedor e caído em desuso dos valores: a beleza. Beleza paradoxal sobre um fundo de sublimação, harmonia conquistada à tensão, a desmesura e o caos, no caso de uma arte que não o é na verdade, já que está assediada pela apresentação em bruto da realidade e a morte.
E depois, que fica de tudo isso? Conceitos estéticos, argumentos éticos, talvez... ou apenas só o eco inexpressável de uma experiência singular, certa alquimia dos prazeres e dos dias.»


Segundo Wolff podemos estabelecer um conjunto de dez mandamentos do toureiro para ser toureiro. Vejamos as frases lapidares de Wolff:
1.      «Serás toureiro, ou seja, que ante tudo actuarás sempre e absolutamente conforme ao teu ofício.»
2.      «Farás sempre e na medida do possível o que resulta impossível a qualquer outro.»
3.      «Colocarás o teu ser toureiro aima do teu próprio ser.»
4.      «Serás como te mostres.»
5.      «Lidarás o teu adversário, seja qual for sem te preocupares contigo próprio: dos teus sentimentos, do teu sofrimento, da tua integridade física.»
6.      «Matarás o teu adversário, ocorra oque ocorrer, e custe-te o que te custar.»
7.      «Serás sempre dono e senhor do teu adversário, da adversidade, de ti próprio, o mesmo é dizer, dos teus gestos, das tuas reacções, das tuas emoçõe.»
8.      «Enganarás o teu adversário sem lhe mentir.»
9.      «Dissimularás dos espectadores o que penses sem enganá-los sobre o que fazes.»
10.  «Exporás inteiramente o teu corpo ao espectador tal como ao adversário.»

E para terminarmos a nossa abordagem a este livro, nada melhor que traduzirmos o resumo que vem na contracapa. 

«As corridas de toiros são uma luta de morte entre um homem e um toiro, mas a sua moral não é a que se crê, pois nenhuma espécie animal vinculada ao homem tem uma sorte mais invejável que a do toiro, que vive com total liberdade e morre lutando. As corridas de toiros são também uma escola de sabedoria: ser toureiro é uma forma de estilizar a própria vida, exibir o desapego em face dos azares da existência e prometer uma vitória sobre o imprevisível. Além disso, as corridas de toiros são uma arte. Dão forma a uma matéria bruta, a investida do toiro; criam beleza com o seu contrário, o medo de morrer; e exibem uma realidade com a qual as demais artes apenas podem sonhar.» 

 

“Filosofia de las corridas de Toros”
Autor: Francis Wolff
Editora: Ediciones Bellaterra, Barcelona – 2008
ISBN – 978-84-7290-416-3