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BARREIRA DE SOMBRA

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

BARREIRA DE SOMBRA

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

OS ANTI E A RAÇA BRAVA - O T O I R O D E L I D E

16.06.11 | António Lúcio / Barreira de Sombra

Mais um interessantíssimo artigo do nosso amigo Carlos Patrício Álvares "Chaubet" sobre a Festa Brava e os anti-taurinos, no que concerne ao Toiro de Lide.

Começo por considerar que o embrião do toiro de lide dos nossos dias, surgiu em simultâneo com o do Homo Sapiens, na mesma zona de África Equatorial.

 

Animal altamente prolífero e nómada, adaptando-se morfologicamente às zonas que ia atravessando, dele foram  encontrados  vestígios um pouco por todo o Continente Africano, Asiático e Europeu. Todavia foi nos terrenos adjacentes ao Tejo e ao Guadalquivir, talvez por o fazerem recordar os longínquos rios da sua infância, Tigre e Eufrates, que estacionou e evoluiu.

 

A sua compleição física. A força, agressividade e resistência ao castigo, que o caracterizam, logo lhe criaram um admirado e especial carisma. Os seus cornos, a sua terrível arma, tornaram-se símbolos de força e poder.

 

Não espanta pois que tenha sido venerado e deificado pelos nossos antepassados, sempre propensos a criarem deuses, divindades e motivos de culto. No final do neolítico, eclode mesmo um autêntico surto de misticismo, que culmina com uma avalanche de toiros divinos.

 

Temos os toiros alados de Ur, possivelmente tendo um significado divino e o Culto Babilónico de Gudmar-Il-Gumas, “Deus-Sol”, a demonstrar a ligação do toiro ao Mundo Celeste. Muito semelhante à que existia no Egipto no tempo de Hamurabi, rei da Babilónia. Era o toiro era considerado o símbolo da tempestade.

 

No Antigo Egipto, onde a zoolatria era levada a extremos encontramos, entre outros, Dyros, Min, Baal. No entanto os mais célebres e conhecidos são o Boi Ápis, adorado num sumptuoso templo construído em sua honra em Memphis e Mitra, que deu origem ao Culto Mitraico.

 

Vamos ainda encontrá-lo em Espanha, nas grutas de Albarracin, Altamira e Cogul, representado em pinturas rupestres.

 

A invasão da Península pelos romanos, dois séculos a.C., trouxe novos aficionados ao toiro. O General Júlio César não resistiu ao seu fascínio.

 

Logo de início mandou construir amplos anfiteatros, onde tinham lugar combates de gladiadores com animais, incluindo o toiro. O Anfiteatro de Itálica, perto de Sevilha, é um dos mais conhecidos. Mas o nobre animal chamou sempre a atenção e foi fonte de inspiração de nomes ilustres.

 

O grande Francisco Goya não o esqueceu no seu quadro A TAUROMAQUIA. Pablo Picasso seguiu-lhe os passos no A MORTE DA MULHER TOUREIRA. Júlio Pomar, sabemos ser aficionado. É porém no meio da escrita que se encontra maior número de prestigiados nomes a prestarem-lhe homenagem.

 

Alguns deles: Garcia Lorca exprime o seu lamento e respeito no emocionante LLANTO POR IGNACIO SANCHÉZ MEJIAS. Estrabão em 58 a.C. fez-lhe referências elogiosas. Alexandre Herculano, Ramalho Ortigão, o Prémio Nobel Ernest Hemingway, Oliveira Martins, na SOC. MEDIEVAL PORTUGUESA, todos  mostraram  o seu apreço  pela raça brava e pelas touradas.

 

Chegado à Península Ibérica, após a longa caminhada o toiro encontrou aí, condições ideais para se fixar e procriar.

 

Mas, animal independente, nómada, forte e muito prolífero, a alimentação das manadas que ia criando, sempre a aumentarem, faziam-no invadir terras de cultivo para se alimentarem. Devido a isso, tornou-se um problema para o homem. Tinha que se acabar com o “inimigo”. Terá pensado.

 

Passou então a organizar desumanas caçadas aos toiros, onde eram empregues todo o tipo de aramas. Flechas, lanças, facas e ganchos. Aos homens que, a pé firme, as utilizavam, recrutados na classe baixa da população, deram o nome de “matatoiros”.

 

O rei D. Afonso, O Sábio, acabou por proibir esta prática, que se encaixava no indisciplinado “rural-etnológico”. Passou a ser a nobreza, a cavalo, a ter estas funções, criando-se assim a forma “feudal-casticista” de enfrentar o toiro.

 

Com a decadência da nobreza no século XVIII, voltaram os “matatoiros”. Agora fazendo-se pagar – os primeiros profissionais do toureio. Digamos.

 

Os “profissionais”, que acabaram por acompanhar os nobres, com a sua ambição e estes, com o seu desempenho, acabaram por pôr em perigo a sobrevivência do toiro.

 

Todavia este já tinha cativado o homem. As suas características e simbolismo fizeram-no ganhar a sua simpatia, admiração e respeito. A raça brava não podia, nem pode, acabar.

 

Com a finalidade de a preservar e defender de eventuais predadores, criaram-se grandes espaços, ganadarias, onde o toiro pode viver com todas as mordomias. Tanto ou mais tempo que o seu pachorrento irmão de raça mansa condenado, sem alternativa, ao açougueiro. Havia porém que cuidar da bravura. Característica que o torna único e impõe no reino animal mas que, não sendo estimulada, aproveitada, se perde.

 

Sabendo isso o homem, considerou ser um sacrilégio privar o carismático animal, do atributo que melhor o identifica, a BRAVURA. Pelo entusiasmo que lhe desperta e carinho que lhe tem, procurou forma de obstar a que tal sucedesse. Forma de poder conservar intacta essa qualidade.

 

Assim, desejoso de que os seus extraordinárias atributos fossem devidamente salvaguardados, divulgados, apreciados e aplaudidos por todos, começou a organizar espetáculos tauromáquicos. Instaurando assim o chamado toureio “urbano-burguês”.

 

Deste modo proporcionou-lhe a possibilidade de mostrar em público toda a valia que tem. De dar volta à arena a receber aplausos pelo seu comportamento. Mesmo depois de morto os chega a receber. Eventualmente a ser indultado. Ganhar um resto de vida calmo e sossegado, comendo, dormindo e procriando.

 

Nada disso acontece com o seu irmão de raça mansa, pacificamente sacrificado ao interesse do homem.

 

O transporte para a praça é que é um tanto constrangedor, com o toiro imobilizado numa espécie de gaiola. Para quem gosta do toiro como os taurinos gostam, não deixa de ser desagradável. Contudo é pouco tempo.

 

 

Chegado ao seu destino, um médico veterinário avalia as suas condições físicas. É sujeito a cuidada e atenta vigilância, acautelando qualquer tratamento menos correto que alguém possa tentar. Depois ninguém o incomoda mais até ser chamado para o embate com o toureiro.

 

Na arena, os ferros e bandarilhas que lhe cravam, fazem-no reagir com agressividade. Mas mais por irritação que por dor. A exaltação provocada pela vontade de retaliar solta a adrenalina, o que supera a dor que poderia sentir.

 

Os aficionados, verdadeiros apaixonados pela raça brava, são os maiores admiradores do toiro de lide. Custa-lhes que um animal tão carismático morra de forma anónima às mãos de algum, também anónimo, magarefe. Desejam que o toiro tenha um fim digno do seu estatuto e é na arena, que ele demonstra todas as suas admiráveis potencialidades.

 

São as touradas, os taurinos, que salvam o magnífico toiro de lide, a raça brava, autentico fenómeno da Natureza. Não são os que o querem pôr num cercado como peça rara de museu onde, por falta de estímulo ou forma de a testar, acabaria por perder o que o faz tão especial – A BRAVURA.

 

Não será a atitude dos anti-taurinos apenas uma precipitada e irresponsável exposição de pseudos bons sentimentos, com o único objetivo de ganhar protagonismo? De dar nas vistas? Não haverá, infelizmente, na nossa sociedade, humanos onde estes caritativos sentimentos, teriam mais cabimento? E o mal que o fim das touradas traria para centenas de pessoas que delas tiram o seu sustento. Não conta? Ou será só uma prepotente imposição – “NÃO GOSTO DE TOURADAS! NINGUÉM PODE GOSTAR…”.

 

Como me parece ser esta, afinal, a verdadeira razão dos protestos anti-taurinos, devo lembrar que o tempo da ditadura já era.

 

Os anti-touradas não passam pois de ruidosos e frustrados saudosistas que estão fora de moda.

 

Carlos Patrício Álvares

(Chaubet)