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BARREIRA DE SOMBRA 30 ANOS (1987/2017)

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

A FESTA BRAVA EM SOBRAL DE MONTE AGRAÇO (1)

Há nove ou dez anos que vinha amadurecendo a ideia de escrever algumas linhas sobre a vivência da Festa Brava em Sobral. Ou, melhor, sobre as ligações dos sobralenses à Tauromaquia nas suas mais diversas vertentes. A nossa praça de toiros foi palco de momentos memoráveis de toureio nas suas duas vertentes: a cavalo e a pé. Palco para algumas cenas do filme “Sol e Toiros” com Manuel dos Santos, desde cedo viu espectáculos menores como as vacadas e garraiadas – tão em voga nos anos 30, 40 e 50 – em que alguns amadores despontaram, e cedo se habituou, também, à presença de grandes figuras como Mestre João Branco Núncio e até o próprio Manuel dos Santos.

 

 

 

Muitas foram as figuras que pisaram a arena da nossa praça. Algumas delas, como Mestre David Ribeiro Telles e Manuel Conde, ou como Ricardo Chibanga, tiveram as suas legiões de apoiantes. João Moura (como amador), José João Zoio, João Telles, Manuel Jorge de Oliveira, Emídio Pinto, passaram pela nossa terra no auge das suas carreiras. Isto apenas para recordar algumas figuras do toureio equestre. De outros falaremos mais adiante.

 

 

 

Muitos sobralenses viveram e vivem por dentro as incidências da Festa Brava enquanto cavaleiros e espadas amadores, como forcados, distribuidores de publicidade, transportadores de toiros, emboladores e até veterinários. E no campo das ganadarias, uma levará sempre consigo o nome de Sobral: a que se anuncia em nome de Condessa de Sobral. Uma outra foi fundada por um homem de Pero Negro, José Neves Lourenço, o popular “Zé-Gadelha”, com direito a figurar na lista da APCTL.

 

 

 

No campo da forcadagem, e enquanto me mantive no activo no Grupo de Forcados de Agualva-Cacém, grupo que se estreou no domingo de Pascoela de 1981 na nossa praça de toiros, houve um outro sobralense que foi Cabo do Grupo de Forcados Amadores de Portugal, José Filipe Miguel, e que juntou em seu redor um grupo de sobralenses, pegadores de toiros com méritos, e com os quais apenas uma vez me encontrei em praça: foi em 1985 em Cascais, num Concurso de Pegas que eles acabaram por vencer.

 

 

 

Passando de pais para filhos, esta ancestral tradição bem merece ser enriquecida e divulgada para que aos vindouros não lhes faltem elementos que os possam identificar com o passado e o presente dos seus conterrâneos. Este pretende ser o meu modesto contributo para que não se perca essa tradição cultural portuguesa.

 

 

 

O Sobral dispõe de uma praça de toiros  inaugurada em 1921 e com capacidade para 2.936 espectadores, pertencendo à Santa Casa da Misericórdia.

 

 

 

Oito séculos de história riquíssima tem o Sobral de Monte Agraço; de 1186 até hoje foi palco de importantes acontecimentos de onde se destaca a batalha das Linhas de Torres em que se travou a invasão francesa. E em São Quintino, na sua igreja, o portal manuelino (1531) é monumento nacional.

 

 

 

O Concelho tem cerca de 9.000 habitantes dispersos por 3 freguesias: São Quintino, Sapataria e Sobral. Dista cerca de 30 kms de Lisboa (pela A8 com saída em Pero Negro) e 27 da Praia de Santa Cruz. Tem uma área de 53 km2 e tem na sua vinicultura e agricultura as principais riquezas.

 

 

 

 

 

 

 

 

Em Setembro as Festas e Feira de Verão são a grande montra do Concelho para o exterior. O seu cortejo histórico-etnográfico é de grande riqueza mas as festas vivem, essencialmente, da Festa Brava.

 

 

 

 

 

Desde tempos recuados, remontando ao início do século, as esperas, entradas e largadas de toiros tiveram sempre um enorme impacto. Na década de 30 assumiram proporções enormes para a época e as “partidas” de alguns aficionados mais atrevidos foram contadas através dos tempos, de geração em geração.

 

 

 

Nesses anos os toiros vinham a pé, conduzidos pelos campinos com os seus jogos de cabrestos desde as Lezírias de Vila Franca e Salvaterra. No percurso entre Arruda dos Vinhos e o Sobral  eram muitas vezes espantados pelo povo e, uma vez tresmalhados, os percalços sucediam-se. Imaginamos...

 

 

 

 

 

 

 

Praça Dr. Eugénio Dias

 

 

 

Em tropel, em louca correria, atingiam a entrada da vila vindos do lado do antigo campo da feira, junto ao Soeirinho, passavam pelo largo (Praça Dr. Eugénio Dias) e atingiam o seu destino – a praça de toiros. Mais tarde ficariam num curral entre a Igreja Matriz e a Tasca da Tia Alice. Empoleirados nas árvores e nas varandas, muitas vezes em equilíbrio precário, os mais destemidos por vezes provavam a sua «sopa de corno».

 

 

 

 

 

 

 

No seu livro “Sobral, Nossa Terra”(1), Carlos Morais recorda essas esperas de toiros nos anos 30:

 

 

 

LARGADAS DE TOIROS

 

Eis as largadas de toiros,

 

luta rija que se trava:

 

peripécias, valentia,

 

o gosto da  festa brava...

 

 

 

E este gosto era, por vezes, motivo para algumas colhidas quase sempre sem gravidade. Mais uma passagem saborosa do livro de Carlos Morais:

 

 

 

Entretanto, não sei bem

 

qual o estado em que ficastes,

 

quando um toiro, tão possante,

 

vos «afagou»... com as hastes!

 

 

 

Durante muitos anos, quando as estradas não eram de alcatrão como hoje, mas de macadame, era possível a entrada de toiros como a seguir Carlos Morais descreve de forma exemplar. Voltamos a citar:

 

 

 

Era um quadro sugestivo

 

de bravura e valentia

 

ver os toiros no Sobral,

 

em tropel – uma alegria...

 

(...)

 

Assim, a vila era palco

 

de esperas aparatosas

 

que se deviam, em parte

 

às suas ruas saibrosas.

 

(...)

 

Mas eis que surgem os campinos

 

- pampilho e cinta encarnada -,

 

conduzindo os seus cavalos

 

e toiros à desfilada!

 

 

 

Após entrarem no Sobral, como já referimos, era na curva da igreja que as coisas se complicavam.

 

 

 

Mesmo á esquina da Igreja,

 

Era belo de se ver:

 

Cavalos, chocas e toiros,

 

A toda a brida a correr!

 

 

 

Vivia-se intensamente a Festa Brava nesses já distantes anos 30. E durante muitos anos assim se manteve. A tradição das largadas de toiros e das corridas na praça mantém-se bem viva nos dias de hoje.

 

 

 

Aliás, sobre a tradição das corridas e dos outros espectáculos taurinos, existe na poesia do Sr. Carlos Ribeiro uma referência muito interessante. É do seu livro “Em Louvor do Sobral” editado em 1997 que recolhemos alguns excertos que demonstram esta grande ligação à ancestral tradição de lidar e correr toiros.

 

 

 

 

 

LARGADA COM SARDINHADA (1989)

 

É sempre belo o serão,

 

Numa noite de Verão.

 

Vivendo-o me satisfaço:

 

Assistir a uma largada

 

E comer da sardinhada,

 

Em Sobral de Monte Agraço

 

(...)

 

Assim comendo e bebendo,

 

Conclusões vão tecendo

 

Dessa noite bem passada,

 

Sobre quem é o mais forte;

 

O que escapou, por sorte,

 

Ou o que levou marrada?

 

 

 

Mas sobre as corridas de toiros, o forcado e o toureio, não podemos deixar passar em claro os belos poemas da autoria do Sr. Carlos Ribeiro no livro já citado.

 

 

 

GRANDE FAENA (Fev.89)

 

(...)

 

Foi nessa praça pequena,

 

Mas de grandes tradições,

 

Frente a frente, na arena,

 

O toiro e o Zé Simões.

 

(...)

 

Tarde de grande faena,

 

É o toiro bem lidado.
Sai o diestro da arena,

 

Em ombros é transportado.

 

(...)

 

 

 

AO FORCADO (Maio.91)

 

O forcado é um valente

 

E também é consciente,

 

Sem deixar de ser vaidoso.

 

Arriscando a sua sorte,

 

Vai enfrentando a morte,

 

Frente ao touro poderoso.

 

(...)

 

 

 

TOUREIO (Ago.89)

 

Traje de luzes, cingido,

 

Bordado de prata e ouro,

 

O toureiro, aguerrido,

 

Leva prà frente do touro.

 

 

 

A sua arte é ousada

 

E, sempre que há corrida,

 

Arriscar uma cornada

 

Faz parte da sua vida.

 

(...)

 

 

 

 

 

 

Os cartéis mostram-nos que sempre houve em Sobral de Monte Agraço uma apetência pela corrida mista. Muitos matadores e novilheiros passaram por esta praça que cumpre setenta e nove anos neste ano de 2000. Não abundam, contudo, as referências na imprensa da especialidade sobre as nossas corridas de toiros, pelo que nos socorreremos do antigo jornal “O Sizandro” e dos programas impressos pela Comissão de Festas, além de alguns cartazes da época que nos foram cedidos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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