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BARREIRA DE SOMBRA 30 ANOS (1987/2017)

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

LITERATURA TAURINA - DO LIVRO «PORTUGAL – O FADO E AS TOIRADAS» (2)

A TOURADA PORTUGUESA

 

QUEM assiste a uma corrida de toiros em Portugal depois de ter presenciado o espectáculo tauromáquico tal como se realiza em Espanha, em grande parte da América Latina, e no sul da Franca, facilmente se aperceberá das pro­fundas diferenças que o caracterizam e lhe conferem como que uma feição de jogo, em oposição aos aspectos de luta tão claramente visíveis nos restantes países. Questão de personalidade, ou de maneira de sentir? Nem uma nem outra coisa; apenas subordinação a uma continuidade que o tempo converteria em tradição, por tal forma que as diferenças fundamentais se mantém, apesar mesmo das muitas tentativas de uniformidade que se têm registado.

 

O espectáculo tauromáquico, retintamente ibérico, era um só e, como se referiu, rodeado de enorme aparato, essencialmente palaciano, já que eram fidalgos os toureadores e patrocinados pelas pessoas reais os festejos correspondentes.

 

No princípio do século xviii, começam a estabelecer-se diferenças funda­mentais nos dois espectáculos taurinos peninsulares em consequência da súbita modificação operada em Espanha quando Filipe V faz com que os fidalgos deixem ao povo as arenas e lhes permite o desenvolvimento de um toureio novo. E depressa essas diferenças tomam as maiores proporções porque para tal decisivamente concorreria o espírito dos soberanos portugueses de então, especialmente D. João V e D. José I, em cujas cortes tudo é faustoso e cavalheiresco. Em tal ambiente, a  figura principal da tourada portuguesa teria de ser o cavaleiro e essa hegemonia mais haveria de fortalecer-se quando em Portugal foi abolida a morte do toiro em praça e sobretudo, quando a presença do moço de forcado, com a sua feição nacionalíssima, vem dar carácter mais pronunciadamente português ao espectáculo taurino da nossa terra.

 

Apesar disso e durante largos anos, embora com carácter quase sempre excepcional, foram incluídos nos cartazes nacionais a lide de alguns toiros por matadores espanhóis que, agindo a pé, mantinham o público português ao corrente da evolução artística que nesse sector do toureio se ia registando. E foi, talvez, o apuro técnico e a excelência artística alcançadas que, tirando ao toureio a pé todos os aspectos da antiga feição popular, o tornou mais compreensivo para os portugueses, decidindo-os a praticá-lo tal como nos outros países, provocando um movimento que necessariamente, haveria de reflectir-se na própria estrutura do espectáculo, agora realizado em Portugal e que apresenta uma variedade que se não regista em qualquer outro lugar do mundo taurino.

 

No entanto e justamente por isso, convém realçar os aspectos verdadei­ramente portugueses que residem no toureio a cavalo, e na execução da pega, essa, como se referiu, de características absolutamente nacionais e ponto alto e fortemente típico do folclore lusíada, intimamente ligado à borda-d'água e às campinas verdejantes onde se criam os toiros e os cavalos de raça.

 

Principia o espectáculo taurino em Portugal, pelas cortesias, que consti­tuem a apresentação, ao público, da totalidade dos artistas, forcados, moços de praça e campinos, que intervêm na lide. Antigamente, e como noutro lugar se refere, revestiam-se as cortesias de grande aparato e nelas tomavam parte grande número de figurantes formando vistoso cortejo. Na actualidade estão as cortesias muito simplificadas e realizam-se como a seguir se descreve: Dado o toque de cornetim para o começo da tourada (que deve soar logo após a chegada da auto­ridade), saem para a arena os que têm intervenção na lide, dispondo-se à frente os bandarilheiros, depois os forcados, os moços da praça e campinos, todos eles formando filas simétricas de um e outro lado da arena por forma a deixarem um espaço livre para as evoluções dos cavaleiros que irão fazer a saudação em torno da praça. Quando os cavaleiros ultrapassam a linha formada pêlos bandarilheiros, devem estes descobrirem-se, conservando-se assim até final da cerimónia.

 

Terminadas as cortesias e a uma ordem do director da tourada, o bandarilheiro mais antigo ou o espada, se o houver, atravessará a arena para levar ao cavaleiro a primeira farpa, cerimónia que tem a intervenção de todos os outros cavaleiros, passando o ferro de mão em mão, por ordem de antiguidade.

 

Começa então a lide que é regulada por toques de cornetim, ordenados pelo director da tourada, também chamado «inteligente».

 

O primeiro toiro, como se vê, é sempre para o cavaleiro; não havendo espadas, o segundo é para bandarilheiros, o terceiro para novo cavaleiro e assim, alternadamente, até ao fim. Havendo espadas e para evitar a constante inter­venção dos moços de praça no arranjo do piso da arena, que os cavalos deixam impróprio para a prática do toureio a pé, saem primeiro os cavaleiros, por ordem de antiguidade e de seguida os espadas pela mesma ordem. Se houver um só espada, nas touradas normais de oito toiros, compete a este, lidar o quarto e o sexto. Nos toiros de lide portuguesa, quer farpeados, quer bandarilhados a pé. pode o director ordenar a execução da pega, desde que reconheça prestarem-se as reses para tal.

 

Os toques de clarim marcam a entrada do cavaleiro, saída e recolha do toiro, suspensão ou mudança de lide, execução da pega, ou chamam a atenção de qualquer toureiro, cuja acção mereça reparo. Neste último caso, o toque corres­pondente toma o nome de «aviso». Ao director da tourada compete ordenar esses toques e vigiar a disciplina no redondel.

 

PEGA" — A SORTE MAIS PORTUGUESA

MUITO embora se possa considerar remotíssima a origem do procedimento a que hoje chamamos pega — possivelmente realizada desde a altura em que o   homem   passou   a  contactar   mais   directamente   com   o   toiro   bravo como   acção   de   emergência   defensiva —   tendo   ainda   em   conta   que   alguns autores a dizem muito semelhante a um antigo exercício andaluz, assim mesmo a devemos considerar inteiramente portuguesa pois foi na nossa terra que ganhou feição desportiva, como recreio absolutamente capaz de corresponder às exigências do espírito moço da lusitana gente.

 

Há ainda quem ligue a pega a acções circenses da civilização cretense, depois que foram descobertos, no palácio de Knosos, uns curiosos «frescos» que, no entanto, nos dão mais a ideia de exercícios ginásticos do que de manifestação de interpidez que é, afinal, o que tão nitidamente se retrata no procedimento dos nossos moços de forcado. De resto outras circunstâncias concorrem para que a consideremos portuguesa, dado o espanto que, a povos de todas as latitudes, causa a pega tal como se realiza nas nossas arenas, integrada no nosso espectáculo taurino. E pode até ir-se mais longe considerando-a a mais portuguesa das acçoes tauromáquicas, uma vez que estando elas circunscritas a duas modalidades — a pega e o toureio equestre — tem este último muito maiores afinidades com o que se praticava na Península depois do advento do rojão do que a pega com os exer­cícios cretenses ou com o mancornar andaluz.

Sob o ponto de vista tradicional e embora só muito mais tarde entrasse na estrutura do espectáculo tauromáquico português, não deve esquecer-se que tendo o toureio equestre ganho expressão retintamente nacional a partir dos meados do século XVII,  foi nessa mesma altura que a pega começou a praticar-se, pois, segundo documentos históricos, ela surge como desporto de elites no segundo quartel desse século, realizada pelo Rei D. Afonso VI e pelo seu irmão, mais tarde Rei D. Pedro II. que a consideravam o mais dilecto dos divertimentos.

 

Mas quando terá a pega entrado, efectivamente, no espectáculo taurino de Portugal? Pensa-se que o facto só se deu quando foi determinada a embolação dos toiros, o que leva a considerar o princípio do século xix. A verdade é que ainda no século xvn são várias as crónicas que referem a presença dos «monteiros de choca» nas touradas, muito embora sem especificar a sua acção objectiva. No entanto, a sua indumentária de então. — o colete de coiro sobre calção de veludo — dá ideia de que a ausência de embolaçoes não teria impedido a sua prática. Na antiga praça lisboeta do Salitre, após um período de menor entusiasmo e. quando é aclamado o tão aficionado Rei D. Miguel, já os forcados aparecem com frequência e o próprio confessor do Soberano, o padre Joaquim Duarte, era considerado como um dos mais decididos e seguros pegadores de Salvaterra de Magos.

 

Por essa altura eram mistas as corridas, com lide de toiros em pontas, que deveriam morrer a golpes de rojão ou de estoque, e dos embolados que muito provavelmente seriam pegados. E como na praça do Campo de Santana, que sucede àquela, é que os aspectos nacionais da corrida de toiros ganham feição definitiva e profundidade artística, pode ainda afirmar-se que a pega acompanhou, desde início, toda a evolução verificada. É assim, na realidade, a feição mais legitimamente portuguesa da corrida de toiros; é, realmente, a expressão popular lusitaníssima que, embora possa representar a continuidade de antigas acçoes realizadas em lugares dis­tantes, nem por isso deixam de se apresentar com matizes tão fortemente nacio­nais que o espectáculo por ela constituído se considera, tanto em Portugal como no estrangeiro, inteiramente nosso e, mais que isso, perfeitamente dentro do espírito e características do nosso povo, cabendo unicamente no ambiente peculiar da tourada portuguesa. «Pegar toiros está», como escreveu um jornalista ribatejano, «no espírito dos portugueses»; «está-nos na massa do sangue», como diz o povo, «na índole e na raça», em termos supostamente mais eruditos.

 

O moço de forcado é, por definição, um homem valente, valente e com medo, por isso mesmo superiormente valente. Porque a superior valentia do forcado, reside exactamente no facto de ser capaz, no momento próprio, de dominar o medo, conservando a lucidez necessaria para ver, pensar e executar a pega dentro das regras estabelecidas. Pegar toiros é uma arte e uma técnica. Sem técnica, posta a questão no campo de jogo de forças, o homem sairia irremediavelmente derrotado do embate com o toiro. Por isso a técnica da pega é tão complexa como a técnica de qualquer outra modalidade de toureio. Do estudo atento do comportamento do toiro durante a lide, da escolha do forcado que há-de tentar a pega, por comparação de caracte­rísticas de um e de outro, da distância e dos terrenos do cite, do caminhar na arena, do esperar, do tourear, ao cair-lhe na cabeça, para se fechar, à barbela ou à córnea, dos múltiplos requisitos de ordem técnica a que o bom forcado deve obedecer, depende o bom êxito da sorte. E tudo isto deve associar-se à estética das atitudes e dos movimentos. Porque assim a pega será entendida como sorte de beleza toureira, e não como rudimentar, ainda que emocionante, acto de bravura humana.

 

De salientar ainda que, nesta época dos «milhoes», o forcado enfrenta o toiro por manifesto idealismo, contribuindo vezes sem fim para obras de bene­ficência. Os forcados são assim, os últimos românticos das Festas de Toiros.

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