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BARREIRA DE SOMBRA 30 ANOS (1987/2017)

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

Desde 13.06.1987 ao serviço da Festa Brava

DIVULGAÇÃO LITERÁRIA TAURINA - O TOIRO: EIXO CENTRAL E FUNDAMENTAL DA FESTA

Sempre ouvimos falar do toiro como eixo central e fundamental da Festa Brava; sem ele não existiriam corridas  nem a arte que, ao longo dos últimos dois séculos tem influenciado costumes e tradições, artes plásticas, musicais, literárias, etc... É todo um manancial com muito ainda por explorar e potenciar.

 

As reportagens de campo servem para nos acercar aos toiros e aos nossos leitores e ouvintes explicar-lhes um pouco mais do labor que é a criação do toiro de raça brava de lide, produto criado e potenciado pelo Homem, milagre da zootecnia e cuja psicologia comportamental é ainda um campo muito vasto para a investigação e produção de teses.

 

Contudo, em muitas obras de referência, de autores como Cossío ou Juan Pedro e Álvaro Domecq y Díez, é analisado o toiro desde um ponto de vista de evolução histórica e seu enquadramento em face de cada época que viveu a Festa e até aos mais recentes estudos científicos e selecção científica actual.

 

Nas minhas viagens de defeso, e desta vez em plena cidade de Salamanca encontrei mais um livro, de grande formato, intitulado “LOS TOROS” – La Gran Enciclopedia del Espectaculo, da autoria de Antonio Abad Ojuel Don Antonio e Emilio L. Oliva Paíto, editado em 1966 em Barcelona por Libreria Editorial Argos. Dele retirei extractos do texto que vos apresento sobre o toiro de lide.

 

“El Toro en el Ruedo”

O toiro na arena

 

O primeiro sintoma de que o percurso final começou, sente-o o toiro quando lhe colocam a divisa. O picotazo excita o animal que ao mesmo tempo vê que se abre a porta que o separa da luz. Com ímpeto toma esse caminho, ao fundo do qual o torilero o provoca, e o toiro – quatro anos de cuidados – encontra-se perante os quinze minutos que decidem toda a sua história: começa a lide.

 

Os estados do toiro

 

Durante a lide – no fundo, agora e sempre uma luta até à morte – fala-se classicamente dos distintos estados pelos quais o toiro passa: melhor se poderá falar de uma sequência de paulatina diminuição do poder, de uma uniformemente acelerada fadiga sem solução de continuidade; mas os clássicos falaram do toiro levantado, parado e aplomado, e a rotina obriga a seguir a acostumada nomenclatura. Mas fique claro que o que se chama de distintos estados não são, nem mais nem menos, que a manifestação da crescente debilidade do toiro pela perda de sangue e o cansaço muscular e respiratório da duríssima peleja; estes são os motivos pelos quais o toiro, que por instinto de conservação trata de poupar forças e dar aos seus ataques a maior perigosidade, reaja de modo distinto face a estímulos análogos: é a isto que se foi chamando estado.

Levantado o encontram á saída... excepto no caso em que tenha uma saída de sonâmbulo, o que também abunda;(...) Mas o normal é que saia dos chiqueiros com a cabeça bem levantada, correndo com força, persiga tudo e todos, sem se fixar, e se é bravo e vai cego ao engando, remate em tábuas. Tem-se isso como sintoma de bravura. Assim corre pela arena e toma os primeiros capotes de peões ou os lances do matador de turno. Quando estes terminam – é a hora da meia verónica – o toiro recupera respirando com alívio por tantas correrias e observa com mais atenta fixação o que acontece à sua volta. Está parado.

 

O seu modo de investir é agora mais atento: acode ao cavalo, ao capote ou ao toureiro não como uma consequência da sua louca correria inicial, mas pela decisão voluntária da sua bravura; ou fugirá por falta desta para não investir senão como recurso contra os que o acossam. É então – e já o fazia observar Paquiro – quando descobre  o seu temperamento e as suas condições; quando pensa que todos os terrenos são seus , se o toiro é bravo, ou busca o lugar propício de recusa e refúgio, se é cobrade; quando luta ou se enquerença.

 

Mas a lide segue, e a luta em varas não tarda em produzir o seu extenuante efeito; o toiro compreende instintivamente que deve aproveitar cada um dos seus movimentos para deles sacar a máxima defesa, todo o possível poder de ataque. Não investe senão quando crê ter a presa segura, está aplomado, sente que as suas patas são de chumbo , todo ele é de chumbo; o toureiro sente o seu peso.

 

Por instinto, o toiro busca apoios para a sua defesa, procura os lugares da praça em que crê proteger-se melhor; a porta dos chiqueiros, por onde lhe chega o odor animal dos currais onde podia estar a sua momentânea libertação; as tábuas da trincheira, onde pode apoiar-se e ver vir de frente os seus opositores. Estes são lugares de querença normal; mas para o toiro de bravura ideal não há querenças, tal como para o toureiro dominador não há terrenos do toiro. Algumas colhidas poderiam ter sido evitadas se se tivesse em conta esta regra geral dos terrenos e das querenças.

 

O toiro ante a afición

 

Os aficionados actuais – salvo excepções que não fazem mais que confirmar a regra – gostam de um tipo de toiro que seja de bela presença, cumpra em varas, invista com nobreza e não coloque problemas aos toureiros, a fim de lhes permitir fazer uma larga faena, quanto mais adornada e variada melhor. Um toiro – como antes se disse – que seja mais colaborador que oponente; esta é a realidade. E apesar de ser certo que quando sai um animal com poder, que derriba com estrépito, existe um certo público nas bancadas que desencadeia ovações, também é certo que estas degeneram em assobios e aborrecimento se o matador de turno não pode fazer ao poderoso animal a faena de quinta-essência e plástica que cada dia se deseja ver.

 

Para satisfazer as exigências dos aficionados bastaria que se lidasse o toiro quatrenho que regulamentarmente está estipulado, mas não se pode fechar os olhos de que os tércios se mudam com uma só vara – por vezes com um só picotazo que «no há partido un pelo» -, o público, na maioria das vezes, não abronca o matador que pede a mudança de tércio, mas ao presidente que fazer fazer cumprir o disposto e fazer com que o toiro tome as varas que assinala o Regulamento.

 

Ou seja, os aficionados – talvez se lhes deva chamar público simplesmente? – o que os molesta é ficar sem faena; e quando detectam no toiro um defeito qualquer para uma lide de grande porte plástico, deixam de valorizar as boas qualidades que o animal pode ter e resignam-se com a passividade do toureiro.

 

Seria aconselhável que os aficionados se interessassem mais pelos toiros e aprendesse a valorizar as façanhas toureiras em função do astado com que foram realizadas. É certo que passaram os tempos do refrão «os toiros de cinco e os toureiros de vinte e cinco», que aludia à idade dos dois termos essenciais da tauromaquia, mas ainda em época dos toiros e toureiros jovens devia voltar a perfilar-se  mais a potência do toiro para a sua luta.

 

Os mesmos escritores taurinos sintetizam com uma breve frase o jogo de uma corrida; porém, anotaram com minuciosa exactidão varas, lances e quedas para chegar à conclusão de que «foram nobres e manejáveis«, por exemplo, ou noutro caso «broncos e difíceis»; mas raras vezes dizem a razão de uma ou outra frase sintética.

 

HONRAS AO TOIRO BRAVO

 

Apesar de parecer que o público guarda o seu juízo sobre o jogo da rês até ao momento da morte, por via excepcional pode expressar a sua opinião antes que o espada consume a sorte de matar. Estamos perante o facto pouco frequente (...) de que o público solicite o indulto da vida do toiro que teve um comportamento extraordinário.

 

Indulto do toiro bravo

 

É costume que tem tradição, de largos anos; em Espanha e no México surgiram em ocasiões movimentos sentimentais dos aficionados comovidos pela beleza da luta de um toiro extraordinário.

 

Na base da petição está a admiração pela bravura, e também um desejo de fazer justiça a quem lutou com todas as suas forças contra um destino inexorável. O desejo de não perder tanta semente de bravura coloca o toque definitivo a esta petição a que acede a autoridade quando a petição é clamorosa. Ou quando a pede um toureiro triunfador (...).

 

Tudo é bom para a corrida e para a Festa, quando é sincero; ao contrário, tudo é mau quando o móbil é o da propaganda. Ao reunir-se numa só mão as condições de ganadeiro, apoderado exclusivista e empresário, tudo está numa só mão; tudo menos a autoridade e o público. Bom será que ambos  repassem o conceito de bravura e apenas se salvem de morrer à espada – arma de cavalheiros – os toiros insuperáveis.

(...)

 

A volta ao ruedo

 

Quando o toiro deu grande lide, mas não se solicita o seu indulto, o Regulamento autoriza que se lhe dê uma volta ao ruedo no seu arraste. Nesse caso, se há petição maioritária do público, a presidência ordená-lo-à mostrando um lenço azul.

(...)

 

Epílogo do toiro

 

Em vez das petições extemporâneas e impopulares com que certos matadores solicitam e certas presidências acedem ao indulto ou à volta ao ruedo do toiro não porque tenha dado um jogo inesquecível mas «apenas porque assim convém», o que os bons aficionados devem desejar é o respeito ao toiro na praça; dar-lhe o trato que deve receber o digno rival do valor do toureiro.

 

Mas muitos destes esquecem o seu carácter nobre, o seu ilustre sangue, a sua pura raça; em contraste com Domingo Ortega, que diz que «ao torio não se deve burlar nem enganar com vantagens», inventaram-se os chamados passes do “desprezo”, e entre os desplantes – toureiros e galhardos quando feitos perante um toiro bem dominado – intercalaram modos e modas humilhantes. (...)

 

Domingo Ortega, em “El Arte Del Toreo”, afirma que quem com a sua faena «não submeteu o toiro, é porque não praticou o gosto do bem fazer, que é um prazer ao qual até as feras se entregam». Isso deve ser o toureio: o gosto do bem fazer!

 

E com ele perfecciona-se a corrida como obra de arte criada integralmente pelo homem: toda, incluida a bravura do toiro.

(...)”

In, pp 102 e ss, “Los Toros – La Gran Enciclopedia del Espectaculo”, 1966, Editorial Argos, Barcelona. Autores: Antonio Abad Ojuel Don Antonio e Emilio L. Oliva Paíto,

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